BLOG ORLANDO TAMBOSI
Em que é que o PS se tornou? A resposta é fácil: um magma deletério que segrega mediocridade. Vem a descer, o magma, a toda a velocidade por aí abaixo, dando cabo de tudo por onde passa. Artigo do professor Paulo Tunhas para o Observador:
O
que é que aquelas senhoras e senhores ainda estão ali a fazer? “Aquelas
senhoras e senhores” são, obviamente, os membros do Governo, que é o
“ali” em questão. Todos os dias a pergunta pode surgir, por uma razão ou
outra. E as razões podem pouco ter a ver umas com as outras, já que não
há nenhum fio condutor que guie a acção do Governo, se exceptuarmos o
interesse do PS e, particularmente, o de António Costa. A
irresponsabilidade não obedece aos requisitos de fio condutor, pois,
sendo certamente um hábito bem estabelecido entre aquela gente, uma
segunda natureza que unifica a sua acção, não é, no entanto, uma ideia.
António Costa não tem, de resto, nenhuma: sobre Portugal, sobre o mundo,
sobre o que quer que seja. É, para lá da sombra de uma dúvida, uma
simples máquina de palavras sem ideias.
Toda
esta história da TAP, desde a inversão da sua privatização sob Passos
Coelho, exibe esplendorosamente as consequências danosas desta falta de
ideias. E a audição, esta terça-feira, na comissão de inquérito da AR,
de Christine Ourmières-Widener tornou-as particularmente palpáveis.
António Costa, magnífico como de costume, declarou, antes de se ouvir a
CEO da TAP, que queria “toda a verdade, doa a quem doer”, até porque “o
país nunca fica pior sabendo-se a verdade”, rematando com: “A verdade
nunca nos deve preocupar”. (Só um irresponsável, permito-me notar, pode
dizer esta última frase. A verdade deve preocupar-nos, até porque é
aquilo que tem o mau hábito de nos pôr em causa. A não ser, é claro, que
nos estejamos nas tintas para ela.) Ora bem, deve estar muito
satisfeito, porque ficamos a saber várias coisas que não sabíamos,
embora essas coisas revelem outras que perfeitamente já conhecíamos.
Todas elas têm, directa ou indirectamente, a ver com a absoluta falta de
ideias para o país de António Costa e o seu interesse exclusivo na
manutenção do seu poder e do poder do PS.
Ficámos
a saber, por exemplo, que gente do Governo e parlamentares do PS se
reuniram com Christine Ourmières-Widener no dia anterior à sua audição
na comissão de Economia da AR, isto é, a 17 de Janeiro. A reunião, ao
que parece, foi feita sob o patrocínio conjunto do ministro das
Infra-Estruturas, João Galamba, e da ministra dos Assuntos
Parlamentares, Ana Catarina Mendes. O facto de a coisa representar um
óbvio desrespeito pela comissão parlamentar não incomodou em nada um
deputado que esteve presente nessa reunião, Carlos Pereira, um muito
expedito defensor da serenidade do pessoal governamental. Gente
obediente é outra coisa. Acha tudo particularmente normal e nem lhe
passa pela cabeça que essa reunião secreta possa ser interpretada como
um sinal de obter informações que permitissem desculpabilizar um
ministro ou outro. Ficámos, portanto, a conhecer um caso concreto. Mas
não sabíamos nós já muito bem que são esses velhos hábitos do PS e do
Governo?
Ficámos
a saber também que Fernando Medina, na noite anterior, uma noite de
domingo, ao seu anúncio televisivo, em conjunto com João Galamba, da
demissão de Christine Ourmières-Widener, havia pedido a esta que se
demitisse. Não por razões de incompetência ou afins, mas porque –
admire-se a franqueza – era a única maneira de o Governo sair mais ou
menos airosamente da trapalhada causada pela indemnização de Alexandra
Reis, que, havíamos sabido disso uns dias antes, fora negociada em
detalhe com o pleno conhecimento do anterior ministro das
Infra-Estruturas, o extraordinário Pedro Nuno Santos, o Cid campeador da
“ala esquerda” do PS. E, tal como Pedro Nuno Santos de nada se lembrava
antes da sua epifania e da posterior revelação pela CNN de uma troca de
mensagens do seu secretário de Estado Hugo Mendes com Christine
Ourmières-Widener, também Fernando Medina protesta o mais absoluto
desconhecimento de tudo em que pudesse estar envolvido. Mas ficámos
terça-feira a saber que o seu ministério tinha (como devia) reuniões
regulares com a TAP.
Que
pensar? Antes de acusarmos Medina e Pedro Nuno Santos de terem a
mentira fácil, ensaiemos um modelo da teoria dos sistemas. Há uma caixa
preta por onde entram certos inputs e de onde saem, como resultado,
certos outputs. O que se passa dentro da caixa, ninguém sabe. Talvez que
o cérebro destes dois ministros funcione assim. Talvez seja uma caixa
preta no interior da qual se passam coisas que eles próprios ignoram. É
algo que não os qualifica excessivamente para o cargo, mas, pelo menos,
evita que os julguemos retintos mentirosos. Vamos ficando a pensar isso.
Mas também não é nada de novo. A quantos ministros de Costa, passados e
presentes, não poderíamos nós aplicar o modelo da caixa preta? Isso, de
resto, explicaria a qualidade dos seus outputs. O próprio Governo como
um todo é ele mesmo uma caixa preta, cujos processos interiores são
absolutamente opacos aos seus membros.
Só
mais um exemplo, porque a ânsia pela descoberta da verdade de António
Costa, que nunca conseguiu entrar dentro da sua própria caixa preta, foi
terça-feira tão generosamente satisfeita que eu nunca mais saía daqui. O
exemplo é o do muito activo ex-secretário de Estado Hugo Mendes, já
célebre por ter resolvido, com o seu ministro Pedro Nuno Santos, o
problema do aeroporto de Lisboa, de um modo infelizmente frustrado de
cima. Então não escreveu ele à CEO da TAP, aconselhando-lhe a
antecipação de um voo de Maputo para Lisboa para que o PR chegasse mais
breve a Portugal? “Bom dia, sei que isto é um incómodo para ti, mas não
podemos mesmo perder o apoio do Presidente da República. Ele tem-nos
apoiado no que diz respeito à TAP, mas se humor dele mudar, tudo se
perde. Uma frase dele contra a TAP ou o Governo, e ele empurra o resto
do país contra nós. Ele é o nosso principal aliado político, mas pode
transformar-se no nosso pior pesadelo”. A ideia do pedido já é boa. Que
se lixasse a vida de todos os outros passageiros. Mas a justificação
ainda é melhor: vamos tratar bem o volátil Presidente, que ele nos dá um
jeito dos diabos para nos aguentarmos no poder. E, como a TAP é nossa,
podemos e devemos fazê-lo. Que lindo que é! Mas que não se diga que o
princípio geral nos era desconhecido. O Governo e o PS estão-se
marimbando para os cidadãos e o seu único e exclusivo propósito – que
não exige, repito, qualquer ideia para o país – é a manutenção do poder,
custe o que custar. Para evitar pesadelos.
Esqueçamos,
por momentos, a hipótese da caixa preta. E se se tratasse mesmo de uma
tendência generalizada para a mentira fácil no Governo? Há que
reconhecer que há indícios verosímeis dessa possibilidade. Como é que
distinguimos a verdade da mentira? Não é preciso qualquer intuição
especial para a distinção. Captura-se uma atmosfera e vão-se detectando,
tentativamente, acordos e desacordos entre o que é dito e os factos,
até se chegar a uma ideia mais ou menos clara e distinta, por mais
provisória que seja. Ora, é bem verdade que o sentimento da mentira
permeia o que ministros e secretários de Estado vão dizendo. É, somando
tudo, uma hipótese verosímil, tão mais verosímil quanto a mentira é uma
consequência natural de um ambiente em que nenhuma ideia, excepto a
preocupação pelo poder, guia a acção. Mas trata-se, é claro, de uma mera
hipótese. Pessoas dadas à benevolência tenderão certamente para o
modelo da caixa preta, que dispensa a possibilidade da consciência.
Resta
uma pergunta. O que é este PS? Em que é que o PS se tornou? A resposta é
fácil: um magma deletério que segrega mediocridade, irresponsabilidade,
falta de respeito e delinquência pura e simples. Vem a descer, o magma,
a toda a velocidade por aí abaixo, dando cabo de tudo por onde passa.
Se na Presidência da República estivesse alguém normal, o
primeiro-ministro era demitido e convocavam-se eleições. Pessoalmente,
deixei há muito de pensar (e, portanto, de escrever) o que quer que seja
sobre o PR. Para ser útil pensar e escrever, tinha de possuir, dadas
certas características muito conspícuas da personagem, uma sólida
formação profissional numa área que me é alheia. De uma coisa, no
entanto, tenho a certeza: sendo ele quem é, a lava vai continuar a
descer da montanha, o PS vai continuar a rolar sobre nós e as senhoras e
os senhores vão continuar, supimpas, ali.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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