Crianças com outros problemas psicológicos e sociais eram induzidas a intervenções médicas e funcionários que contestavam viravam “transfóbicos’. Vilma Gryzinski:
Bem
perto do Museu Freud, instalado na casa onde o fundador da psicanálise
vivia e atendia em Londres, a clínica Tavistock virou praticamente uma
marca registrada do movimento trans: era o único lugar na Inglaterra
onde crianças e adolescentes recebiam tratamento para a “transição”, a
mudança de gênero que parecia a resposta a seus problemas.
Mas
ocultava um buraco sem fundo, a convicção baseada em crenças
ideológicas, mais do que em evidências médicas, de que todos os jovens
pacientes que lá chegavam deveriam seguir o mesmo caminho. Bloqueadores
de puberdade primeiro, depois hormônios do gênero que pareciam querer
abraçar e finalmente intervenções médicas radicais, como mastectomias
precoces para meninas com menos de 16 anos. Em alguns casos, as mães
pressionavam por medidas médicas, convencidas de que ajudariam as
crianças a resolver um “problema” que parecia evidente.
Os
sinais de alerta eram impressionantes, mas não convenciam os
responsáveis pela clínica pertencente ao sistema público de saúde que
acabou com atividades suspensas e será fechada. Um exemplo quase
inacreditável dado por um livro a ser lançado, antecipado pelo
Telegraph: nada menos que 97,5% dos menores atendidos para iniciar o
processo de transição de gênero tinham alterações psicológicas e
sociais. E 70% sofriam de pelo menos cinco disfunções ao mesmo tempo:
ansiedade, depressão, abuso, automutilação, bullying, desordens
alimentares e tentativas de suicídio.
Enquanto
em toda a Grã-Bretanha existem 2% de crianças com autismo, 35% das que
chegavam em Tavistock estavam em algum ponto de espectro autista.
É
claro que deveriam ser tratadas como um todo, mas acabavam sendo
segmentadas, rotuladas e encaminhadas para a transição depois de uma ou
duas sessões com dois profissionais, diz Hannah Barnes, jornalista da
BBC, autora do livro Tempo para Pensar, com depoimentos de pessoas que
conheceram por dentro o Serviço de Desenvolvimento de Identidade de
Gênero que funcionava na clínica Tavistock.
Muitos
depoimentos narram como o serviço foi ficando cada vez mais submisso às
demandas de movimentos de defesa de transgêneros, entre os quais a
organização Mermaids, criada por uma mãe que levou seu filho de 16 anos
para fazer a cirurgia que o transformou em menina na Tailândia (onde,
hoje, estão proibidas).
Outro detalhe: funcionários homossexuais que levantavam dúvidas sobre o tratamento eram rotulados de “transfóbicos”.
A
desproporção no número de meninas ou adolescentes do sexo feminino
também parecia um estridente sinal de alarme – que levou muito tempo
para ser ouvido. Uma reportagem do ano passado do jornal The Times
relatou que o número de casos envolvendo pacientes mulheres foi de 72 no
período 2009/2010. Em 2016/2017, chegou a 1 807. Meninas e jovens
passaram a constituir 70% dos atendimentos.
Teriam
meninas com disforia de gênero se sentido mais livres para procurar a
Tavistock e assim ser responsáveis por um aumento de 5 000% em sete
anos? Ou haveria um “contágio social”, uma onda nascida entre grupos de
adolescentes e nas redes sociais pressionando para que qualquer garota
mais “problemática” fosse rotulada como um menino trans?
O
bloqueador de puberdade Lupron passou a ser prescrito a partir dos onze
anos de idade e vendido como uma “tecla pausa”, apenas um método para
dar tempo às meninas para se definir melhor. Obviamente, as sequelas
eram maiores. Uma das diretoras da clínica, Bernardette Wren, disse que
“todos se preocupavam” com os efeitos futuros de um remédio que nunca
tinha tido uso disseminado.
Motivos
fúteis, como “ela detesta ficar menstruada” – obviamente, não um
sentimento raro -, eram invocados para tratamentos que mudariam
permanentemente os jovens corpos.
O
psicoterapeuta Anastassis Spiliadis ficou chocado com a rapidez das
recomendações para tratamentos médicos e com o que considerou o
predomínio de uma espécie de doutrina trans baseada na “teoria queer”,
segundo a qual os médicos e terapeutas não deveriam ser guardiões da
mudança de gênero dos menores, apenas propiciadores.
Spiliadis
e um colega fizeram um estudo com 128 menores que procuraram a clínica,
dos quais dois terços eram do sexo feminino, com o pedido inicial de
bloqueadores hormonais. Com a terapia, outros problemas afloraram:
isolamento social, pais com relacionamento rompido, autismo feminino,
bullying de teor homofóbico. Muitos dos assistidos continuaram a se
considerar trans, mas não quiseram mais tomar hormônios.
A
questão do atendimento a jovens com suposta ou real disforia de gênero
obviamente é nova e raramente um profissional médico desejaria causar
mal de maneira deliberada a seus pacientes. Mas vale a pena conhecer as
experiências já acumuladas. Em países como Suécia, França e Finlândia,
os tratamentos hormonais de menores estão sendo adiados.
A
psicóloga americana Erica Anderson acredita que as intervenções médicas
foram longe demais e a onda de casos decorre do fenômeno chamado de
contágio social, que já alimentou comportamentos patológicos de meninas
como anorexia e automutilação.
Erica
é uma mulher trans, o que torna sua voz especialmente relevante. Ela
acredita que os tratamentos médicos para transição de gênero, deveriam
ser feitos a partir dos 26 anos, uma tese chamada de transição tardia.
Médicos
são tão humanos como todos nós, submetidos às mesmas pressões sociais e
podem cometer erros involuntários. Levados pelo desejo de fazer o que é
certo, podem acabar fazendo o contrário. Ouvir, aceitar e amparar
jovens que parecem querer a transição é um dever de todos os
profissionais, da mesma forma que entender que outros motivos podem
estar impulsionando este desejo.
Entre
as pessoas trans que resolvem fazer a “destransição”, nada menos que
dois terços são, originalmente, do sexo feminino. É um número
desproporcional que indica a existência de casos tratados de maneira
equivocada.
Da
mesma maneira que pacientes celebram com seus médicos quando são
“ajustados” ao gênero ao qual têm certeza pertencer, existe uma minoria
oposta que não pode ser ignorada. O que responderão, no futuro, os
profissionais envolvidos quando ouvirem palavras parecidas com as ditas
por uma jovem que reverteu ao sexo feminino depois de fazer a
mastectomia dupla: “Meus seios eram lindos e foram incinerados”?
Postado há 2 days ago por Orlando Tambosi

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