BLOG ORLANDO TAMBOSI
Mais de 130 donos de construtoras presos ou com mandado de prisão decretado podem virar o bode expiatório que o presidente usará para se eximir. Vilma Gryzinski:
“Venha,
fotografe a minha criança”. Com estas palavras Mesut Hançer venceu o
constrangimento do fotógrafo que fazia de longe o registro da imagem que
virou o retrato do horror que recaiu sobre a Turquia e a Síria: um pai
devastado segurando a mão da filha morta.
Adem
Altan, o fotógrafo, ficou com lágrimas nos olhos. Perguntou qual o nome
da menina. Irmak. Quinze anos. Esmagada por uma laje de concreto na
cama em que dormia na madrugada fatídica.
Mas
além da emoção que levou milhares de pessoas em todo mundo a procurar
Mesut Hançer para manifestar solidariedade, olhos bem treinados
avaliaram os escombros. Eram iguais aos milhares de prédios onde ainda
estão aprisionados os corpos que levarão a um número de vítimas pelo
menos duas vezes maior do que os atuais 37 mil.
Engenheiros
detectam logo de cara o “efeito panqueca” nos prédios em que as lajes
caem umas sobre as outras, provocando destruição total como pequenos
Onze de Setembros tivessem sido espalhados pelas cidades mais afetadas. E
não são prédios velhos ou em zonas menos desenvolvidas: os dois
terremotos, de 7,8 e 7,6 graus de intensidade, foram igualmente
devastadores para pobres, classe média e ricos.
Terremotos
são “atos de Deus”, forças imprevisíveis desfechadas quando as grandes
placas tectônicas se chocam. O da Turquia foi tão violento que a placa
principal se movimentou assombrosos três metros.
Mas
não são incontroláveis. Basta olhar para o Japão e ver como técnicas
construtivas adequadas poupam vidas num país que parece existir sobre um
mar de gelatina.
Em
pelo menos quatro hospitais da região da Turquia mais atingida, as
técnicas funcionaram. As construções são mais recentes e dotadas de
sistemas de isolamento sísmico, grandes aros colocados nas pilastras de
sustentação entre o subsolo e o térreo. Os hospitais tremeram, como tudo
mais, mas continuaram firmes.
E os outros prédios desabados que se estendem por quilômetros de destruição quase indescritível?
Um
engenheiro consultado pelo jornal Hurryet, Umit Kaçmaz, disse que o
custo de cada coluna isolante é de quatro mil euros. Para uma casa
comum, a conta chega a 80 mil euros. O que acontece a partir daí não é
difícil de entender para os brasileiros.
Apesar
das construções modernas e suntuosas, às vezes ultrapassando a
tolerância com o mau gosto, que são uma das marcas do governo de Recep Tayyp Erdogan, existe um jeitinho turco.
O
prefeito de Ersin, na trilha da destruição da região de Hatay, mostra a
área sob sua administração, com mais de 40 mil habitantes e nenhuma
vítima. Houve prédios com rachaduras, mas nada desabou. Como é possível?
“Eu não permiti nenhum tipo de construção clandestina. Houve quem
tentasse, mas depois nós os denunciamos à promotoria. Também fizemos
demolições”, responde Okkes Elmasoglu.
“Nossos
cidadãos precisam não admitir nenhuma licença para construções
clandestinas e eles mesmos não recorrer a tais iniciativas”, aconselha o
prefeito.
Com
uma eleição chegando e um clima de revolta pela demora no socorro,
Erdogan pretende dar uma resposta exemplar. Já foram presos ou tiveram
mandado de prisão expedido 131 responsáveis por construtoras. Dois já
estavam no aeroporto para deixar o país. Outro foi acusado de diminuir o
número de pilastras para aumentar o espaço útil de um prédio que virou
pós. Também foi aberta uma investigação especial, o Inquérito sobre
Crimes do Terremoto.
Habilíssimo
na construção de um regime em que ele fica cada vez mais importante e a
oposição cada vez menos operante, Erdogan com toda certeza vai jogar
pesado. Sabe muito bem que a sua própria sobrevivência política pode
desmoronar como os prédios que viraram montanhas irreconhecíveis de
escombros.
Como
é próprio desses desastres, “milagres” continuavam a acontecer nove
dias depois da hecatombe e os derradeiros sobreviventes eram arrancados
das tumbas em que suas casas se transformaram.
Tudo
o que podia dar errado nesse desastre, deu. Era madrugada e todo mundo
estava em casa dormindo. O frio excepcional mesmo para o inverno pode
ter matado um número impossível de calcular de sobreviventes. Equipes de
socorro demoraram a chegar porque aeroportos da região estavam
inutilizáveis.
No
grande terremoto do ano 557 em Constantinopla, hoje Istambul, a cúpula
da sublime catedral de Santa Sofia rachou e acabou ruindo. Parte das
muralhas da época romana desmoronou, facilitando a invasão dos hunos –
os originais – dois anos depois.
O
historiador bizantino Agátias relatou que, sob o impacto do desastre,
os ricos fizeram atos de caridade, os incréus passaram a rezar e os
devassos procuraram a virtude. Mas logo retomaram os hábitos de sempre.
O que acontecerá com as empresas de construção que não cumprem as regras ainda está por ser visto.
Mas
a situação atual é altamente inflamável. Existe um ressentimento
recente com refugiados sírios, entre as populações mais atingidas, e a
divisão eterna entre turcos e curdos. Em outros desastres, curdos
denunciaram que suas construções eram de pior qualidade por causa da
discriminação e da corrupção.
Socorristas
israelenses tiveram que deixar o país por causa de “ameaças imediatas”.
Equipes da Áustria e da Alemanha procuraram a proteção do Exército por
causa dos rumores de sequestro de estrangeiros, como forma de impedir o
governo de sepultar as vítimas em covas coletivas. Setores que não
conseguem viver lado a lado não imaginam enterrar seus mortos juntos.
A
comoção nacional com o heroísmo de socorristas que arriscam tudo para
tirar sobreviventes que pareciam condenados a uma horrível morte lenta
vai passar – e a raiva vai aumentar. Erdogan sabe disso muito bem.
Postado há 3 days ago por Orlando Tambosi

Nenhum comentário:
Postar um comentário