São só duas ou três décadas até achatar o efeito estufa. Via Observador, a crônica semanal de Alberto Gonçalves:
Percebe-se
logo que um assunto é sério quando a sua mais popular divulgadora é uma
adolescente sem desequilíbrios mentais e com notável assiduidade
escolar. Além disso, se o assunto não fosse sério não preocuparia
cabeças brilhantes do nosso tempo, como o eng. Guterres, o sr. Biden, o
sr. Johnson, o sr. Francisco que é Papa e o sr. Francisco que mora aqui
na rua e que, após ver uma fita na HBO e a capa da revista “Visão”,
passou a acreditar que a flatulência das vacas causará dilúvios bíblicos
em seis meses.
Pois
é, estou a falar do “aquecimento global”, que depois se dizia
“alterações climáticas”, que agora se diz “crise climática” e que
enquanto não muda novamente de nome andou a ser discutida a altíssimo
nível na cimeira do clima, em Glasgow. A ideia é simples: se não se
fizer alguma coisa, por exemplo cimeiras do clima, o mundo acabará não
tarda. Não brinco. “Eles” também não. A prova de que isto não é para
brincadeiras são os sucessivos avisos de que o mundo iria acabar em
2010, 2000, 1990 e por aí fora. Mesmo os Maias, os do México e não os do
Eça, não se enganaram quando previram o Apocalipse para 2012: o
calendário gregoriano é que não presta. Fosse o calendário competente,
não teria desapontado nas últimas décadas milhares de profetas do Juízo
Final, incluindo George Wald, um biólogo de Harvard que em 1970, por
ocasião do primeiro Dia da Terra, anunciou “o fim da civilização em 15
ou 30 anos”, caso não se tomassem “medidas urgentes”.
À
cautela, sou de opinião de que é preferível tomar as medidas urgentes
antes das restantes. Por isso, aplaudo a rapidez com que os diversos
líderes mundiais e regionais correram para a Escócia. O recurso a Airbus
e a longas comitivas automobilizadas não é hipocrisia nenhuma. Nunca
ouvi os guardiões do clima defenderem a interdição de aviões e carros
para toda a gente: apenas querem interditá-los à ralé, que por definição
não tem urgência para nada. Nesse sentido, só a má-fé justifica as
críticas à presidente da Comissão Europeia, que foi à cimeira deixar
alertas arrepiantes sobre o uso de combustíveis fósseis e pelos vistos
freta jactos privados para viagens de 47 (quarenta e sete) quilómetros. O
que os intriguistas se esquecem de explicar é que a sra. dona Úrsula
Vanderleia frequenta jactos privados por manifesta falta de uma rede de
jactos públicos. Naturalmente, o problema é o capitalismo.
O
capitalismo, seja sob que formas for, é que deve ser derrubado com
urgência. Antigamente, o problema era a exploração do homem pelo homem.
Hoje é a exploração do ambiente pelo homem. Vai-se a ver e a culpa é
sempre do homem, que teima em explorar sem escrúpulos tudo o que o
rodeia. Entre parêntesis, noto que utilizo “homem” no sentido
heteropatriarcal e misógino do termo – leia-se as mulheres integram a
pandilha. Parêntesis fechados, o essencial é eliminar o homem (e as
senhoras), ou no mínimo devolvê-lo (e a elas) de volta às cavernas. Ou
ao século XIV, vá.
A
esse respeito, estamos bem encaminhados. O objectivo é ir renunciando
progressivamente a cada avanço tecnológico dos últimos cem, duzentos ou
talvez quatrocentos anos. Não custa muito. Ao fim e ao cabo, basta-nos
abdicar do conforto, da riqueza, da saúde e genericamente do nível de
vida que, comparativamente aos modelos económicos e sociais anteriores, o
capitalismo comparativamente livre nos proporcionou. No fundo, não
precisamos de transporte privado, telemóvel privado, computador privado,
esquentador privado, laboratórios privados, produção privada, comércio
privado, habitação privada, família privada. Uma bicicleta (partilhada),
um abrigo (comunitário) e senhas de refeição (racionadas) chegam e
sobram para a nossa felicidade, a que acresce a comunhão com a natureza e
com as compotas de que o consumismo desvairado nos afastou. Os
irracionais luxos descritos acima reservam-se unicamente aos salvadores
que, em benefício do planeta, nos proíbem de aceder aos luxos.
Os
“lockdowns” da Covid foram um óptimo ensaio. Excepto ocasionais
resmungos, próprios de ignorantes, constatou-se que as pessoas se
resignam ao que calha, perdão, à defesa do bem comum. Se se resignaram a
empobrecer e a ficar malucas a pretexto de um vírus respiratório, não
se importarão de se desgraçar de vez para evitar o Armagedão ambiental
previsto para anteontem. Além de bom conselheiro, o medo é indispensável
à purificação das almas. Quem se fecha “duas ou três semanas” de modo a
“achatar a curva”, fecha-se a vida inteira para combater o efeito
estufa. O fundamental é salvaguardar as gerações futuras, que de certeza
agradecerão imenso por desfrutar de uma existência rica e preenchida
como a dos estilitas da velha Síria ou dos residentes da moderna
Venezuela. Para que, um hipotético dia, a humanidade não se arrisque a
rebentar com o mundo, rebenta-se já com a humanidade. Parece sensato.
A
terminar, reflictam nas palavras da pequena Greta, eloquentemente
berradas numa rua de Glasgow e dirigidas aos poderosos que não lhe
concederam o devido protagonismo na cimeira: “Enfiem a vossa crise
climática no [calão para ânus]”. E com urgência, por favor.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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