É possível medir a profundidade do seu sono
Há quem acredite passar a noite acordado, quando as ondas cerebrais mostram o contrário. Fernando Reinach para o Estadão:
Quando alguém nos acorda podemos ter dois sentimentos: ou achamos que estávamos dormindo profundamente ou que estávamos em um sono leve. É nossa percepção subjetiva de como estávamos dormindo. Por outro lado, temos a medida objetiva da profundidade do sono.
Usando
eletrodos colocados em nossa cabeça faz décadas que os cientistas
descobriram que durante a noite a profundidade do sono varia. No início
da noite o cérebro diminui muito sua atividade, e as ondas medidas com
os equipamentos indicam pouca atividade. Nessa fase do sono não sonhamos
e nossos olhos não se mexem por baixo das pálpebras. É o chamado sono
NREM (non rapid eye movement). Com o passar do tempo o cérebro se torna
mais ativo, nosso globo ocular se mexe sob a pálpebra, e começamos a
sonhar. Esse segundo tipo de sono se chama REM (rapid eye movement).
Observando uma pessoa dormindo podemos descobrir se a pessoa está em REM
ou NREM, basta olhar se o globo ocular está se movendo. Além disso,
existem pessoas que acreditam que passam a noite acordadas quando as
medidas mostram que elas dormem normalmente. Elas sofrem de má percepção
do sono (deve ser horrível).
Até
agora se acreditava que a percepção subjetiva do estado em que estamos
ao ser acordados correspondia às medidas de atividade do cérebro. Sono
REM seria percebido como leve e sono NREM seria percebido como profundo.
Mas, como é comum em ciência, quando você investiga crenças com
experimentos, elas muitas vezes se mostram erradas.
Para
investigar se nossa percepção da profundidade do sono corresponde à
atividade cerebral, os cientistas colocaram eletrodos na cabeça de 20
pessoas que não possuíam distúrbios do sono e em 10 pessoas com má
percepção do sono (aquelas que acham que estão acordadas quando estão
dormindo). Durante a noite, cada uma dessas pessoas foi acordada pelos
cientistas e entrevistada. Elas respondiam se achavam que estavam em
sono profundo ou leve, se estavam sonhando e o que estavam sonhando. Aí
as pessoas voltavam a dormir e eram acordadas novamente mais tarde. Isso
foi feito 787 vezes com esses 30 voluntários. Como os cientistas
estavam registrando a atividade cerebral no momento que acordavam a
pessoa, foi possível relacionar o que a pessoa relatava sobre o próprio
sono ao que realmente estava acontecendo no cérebro. Os resultados
surpreenderam.
Nos
20 voluntários com padrão de sono normal, os cientistas descobriram que
a percepção subjetiva (o que a pessoa relata) é o oposto do que os
eletrodos medem. As pessoas que estavam em sono profundo (NREM)
relatavam que acordaram de um sono leve e as pessoas que estavam em REM
(sono leve com sonhos) relatavam que estavam dormindo profundamente. Ou
seja, nossa percepção do sono que estamos desfrutando é o inverso do que
as medidas objetivas da atividade cerebral indicam.
Já
os 10 voluntários que sofrem de má percepção do sono sempre relatam que
foram acordados de um sono leve, tanto faz o tipo de sono que estão
desfrutando. E, além disso, as ondas cerebrais de seus cérebros indicam
que eles têm ondas típicas do sono pesado (NREM) e elas estão espalhadas
por todo o cérebro.
Esses resultados mostram como nossa percepção da realidade é falha e podem ajudar a tratar distúrbios do sono.
Mais informações: Conscious experiences and high-density EEG patterns predicting subjective sleep depth. Curr. Biol.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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