Preso a conspirações fantasmagóricas, Bolsonaro aumenta o número de inimigos. William Waack para o Estadão:
O
novo ministro da Defesa é um general que passou os últimos dois anos
pelos gabinetes e corredores do lugar mais estranho do Brasil: o Palácio
do Planalto. É o hábitat de seres vivos que, por sua vez, são dominados
por fantasmas criados por eles mesmos. Por vezes parece efeito da
ingestão de algum bagulho muito doido.
O
general discursou com o jeito de quem não sabe qual é a “punchline” de
um texto escrito a muitas mãos. Mas, ao exigir que se “respeite o
projeto escolhido pela maioria”, o novo ministro da Defesa repetiu a
confusão fundamental dos fantasmas que habitam cabeças no palácio. O
verdadeiro respeito devido é à Constituição, à qual tem de estar
subordinado qualquer projeto de qualquer maioria.
Talvez
por ter sido assessor do presidente do Judiciário, seu antecessor no
cargo não se arriscou a insinuar em público o que o novo ministro da
Defesa disse de maneira mal disfarçada: que o STF
é a causa de desequilíbrio entre os poderes. De fato, é impossível
fugir à constatação da judicialização da política e da politização do
STF, mas o fantasma que falou pela boca do general abordava outro
aspecto.
Reiterava
a noção de que o STF não deixa governar pois teria se aliado a uma
fantástica conspiração de corruptos, comunistas, bagunceiros e
perdedores que não querem respeitar o projeto escolhido por uma maioria.
Pode-se debater se o tal projeto escolhido pela maioria consistia em
consolidar o poder do Centrão,
explodir a dívida pública, manter a economia estagnada e transformar o
País em pária internacional do ponto de vista da política ambiental e de
saúde pública, mas isso seria ampliar demais o foco.
Os
fantasmas do palácio sussurram que os problemas para governar são
sempre causados por outros, apesar da explicação para os evidentes
fracassos do governo ao enfrentar economia e pandemia constar dos textos
lidos por quem passou por boas academias militares. Ali se aprende que
não se governa com eficiência se faltam planejamento, estratégia,
definição de objetivos, rumos e meios – para não falar da incapacidade
de liderança e da subordinação de tudo ao objetivo político da
reeleição.
Também
não se sabe ao certo se fazia parte do projeto escolhido pela maioria
comprar brigas por toda parte, mas é a ordem que os ocupantes do palácio
parecem ter recebido dos fantasmas. O conflito mais recente é
particularmente perigoso: Bolsonaro
foi avisado pessoalmente por um governador amigo (por quanto tempo
ainda?) de que acabou criando 23 opositores entre os 27 chefes dos
Executivos estaduais. É uma massa política que não se deve negligenciar.
A
gota d’água para transformar os últimos governadores amigos em inimigos
foi a “esperteza” de utilizar a ambição por uma cadeira vitalícia no
STF por parte de ocupantes de altíssimos cargos do MPF
para convertê-los à narrativa palaciana de que o governo federal tudo
fez no combate à pandemia. Onde houve desastre foi culpa dos
governadores e prefeitos – portanto CPI e Ministério Público neles – que
desviaram verbas e recursos da Saúde (além de decretar medidas
restritivas) em busca de armas na conspiração contra o projeto escolhido
pela maioria.
Neste
ponto seria injusto atribuir falta de visão do bem público e do
interesse da coletividade exclusivamente a Bolsonaro, dominado ou não
por seus fantasmas. Esse desinteresse pelo bem comum já era a
característica primordial de forças políticas do Centrão, as que hoje
estão no poder. É também a de ministros do STF tomando decisões
“exóticas” levando em consideração apenas seus interesses ou simpatias
políticas imediatas. Característica agora exibida de forma escancarada
pelos integrantes da cúpula do MPF que, esfalfando-se por chegar a cargo
no STF, ajudam a desmoralizar a instituição.
Quanto ao “projeto” a ser defendido, qualquer que seja, está se dissipando junto com a maioria.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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