Ela vai crescendo aos poucos e precisa ser debelada antes que seja tarde demais. Artigo de Simon Schwartzman para o Estadão:
Um
tema importante, mas pouco estudado nas ciências sociais, é o das
causas e efeitos da cleptocracia, termo de origem grega que significa,
literalmente, governo de ladrões. Em todos os regimes políticos,
democráticos ou autoritários, os governantes e seus apoiadores se
beneficiam de seus cargos. Mas o que marca a cleptocracia é a pilhagem
sistemática dos recursos públicos em benefício dos governantes e seus
familiares, atropelando as instituições ou manipulando-as a seu favor.
Os cleptocratas têm muito pouco apoio na sociedade, no entanto,
conseguem se manter por longo tempo no poder. Como isso é possível?
Cerca
de 20 anos atrás, Daron Acemoglu, economista de origem turca que ficou
famoso por combinar a análise econômica com a história e as ciências
políticas, tratou de responder a essa pergunta, que é mais atual do que
nunca, sobretudo no Brasil (*). Ele tomou como exemplo os casos extremos
do Congo, com Joseph Mobutu, e da República Dominicana, com Rafael
Trujillo, que governaram por décadas e arruinaram seus países, mas o
modelo que desenvolveu é de aplicação muito mais ampla.
O
que permite que a cleptocracia se estabeleça e se mantenha, diz
Acemoglu, é a debilidade das instituições de um país. “Quando as
instituições são fortes”, diz ele, “os cidadãos punem os políticos
retirando-os do poder; quando as instituições são fracas, os políticos
punem os cidadãos que não os apoiam. Quando as instituições são fortes,
os políticos competem pelo apoio e endosso de grupos de interesse;
quando as instituições são fracas, os políticos criam e controlam os
grupos de interesse. Quando as instituições são fortes, os cidadãos
exigem direitos; quando as instituições são fracas, os cidadãos imploram
por favores”.
Na
cleptocracia todos perdem, exceto os cleptocratas, mas os diferentes
setores da sociedade não conseguem se organizar para tirá-los do poder
porque eles usam a conhecida tática de dividir para reinar. Pensemos em
dois partidos que poderiam unir-se para derrotar os cleptocratas na
próxima eleição. Antes que se juntem, o governo chama um deles, oferece
vantagens e benefícios e ameaça punir quem ficar contra. Entre o medo e a
ganância, o apoio é dado e o governo se mantém. No dia a dia, a técnica
funciona trocando constantemente ministros e altos funcionários,
provocando insegurança e fazendo as autoridades serem leais aos
governantes, e não às responsabilidades e aos fins das instituições em
que trabalham.
Existem
algumas condições para que esse jogo de dividir para reinar tenha
sucesso. A primeira é quando os setores mais organizados da sociedade só
conseguem pensar no curto prazo, porque não acreditam na estabilidade
das instituições políticas e econômicas. Entre o ganho imediato de um
privilégio concedido ou bom negócio feito hoje com o governo e um ganho
futuro de uma eventual vitória eleitoral e a economia prosperando,
apostam no ganho imediato. O segundo é quando os governantes conseguem
concentrar recursos significativos em suas mãos, seja porque recebem
ajuda internacional, ou porque se beneficiam dos lucros da exportação de
alguns produtos de grande valor, ou porque podem canalizar para si o
dinheiro de impostos, ou emitir dinheiro novo. O terceiro é quando a
economia é pouco produtiva, o que faz que os benefícios vindos dos
favores do governo sejam muito mais valorizados do que os da atividade
econômica e profissional independente. O último é quando os diferentes
grupos de interesse na sociedade são igualmente débeis em sua capacidade
de se organizar e mobilizar recursos, o que faz que nenhum deles seja
capaz, sozinho, de desafiar e ganhar numa disputa com os tecnocratas.
Existem
outros dois fatores que contribuem para a permanência das
cleptocracias. Um é quando o poder político está concentrado numa
pessoa, mais do que num cargo ou numa instituição. Com isso, em eventual
conflito entre os interesses do governante e as regras institucionais,
prevalecem os primeiros. O outro é quando a sociedade é muito desigual,
permitindo que um pequeno grupo mantenha seus privilégios, cooptando
parte dos setores mais pobres distribuindo migalhas.
Para
os que conseguem acompanhar, Acemoglu e seus colaboradores apresentam
um modelo matemático que mostra de forma precisa como a cleptocracia
funciona e se mantém. Aqui basta dizer que uma consequência grave da
cleptocracia é o ataque permanente às instituições existentes, não só do
Executivo, mas também do Judiciário e do Legislativo, que acabam por
perder legitimidade e autonomia. O resultado é a desorganização da
economia, o empobrecimento da sociedade e o aumento da insegurança,
fatores que, por sua vez, facilitam a permanência dos cleptocratas no
poder. Mobutu, Trujillo, Stroessner e tantos outros mostram que quando a
cleptocracia domina é muito difícil se livrar dela. Mas ela pode ser
entendida também como uma doença que vai crescendo aos poucos e precisa
ser debelada antes que seja tarde demais.
(*)
Acemoglu, Daron, Thierry Verdier e James A. Robinson. Kleptocracy and
divide-and-rule: A model of personal rule. Journal of the European
Economic Association, 2 (2-3), pp 162-92, 2004.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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