Por um instante, me transformo novamente em Rebeca para tentar entender se há honra na vitória de um trans sobre “pessoas com vagina”. A crônica de Paulo Polzonoff para a Gazeta:
Dizem
para a gente sempre tentar se colocar no lugar do outro. É um bom
conselho e o que faço neste texto. Respiro fundo, fecho os olhos, conto
até três e, quando dou por mim, sou um menino que se diz menina e que,
por acaso, gosta de praticar esportes e competir. Talvez eu sofra de
disforia de gênero. Talvez eu esteja apenas tentando provar a
superioridade da tecnologia e da razão sobre a natureza humana. Talvez.
Só
sei que, de uma hora para outra, e apenas para poder escrever este
texto, volto ao papel de Rebeca. E peço que me respeitem. Porque, na
condição de transgênero, sou essencialmente vítima de uma sociedade que
ainda não se percebeu escrava de seus corpos. Sou, ainda, a vanguarda de
uma tecnocracia e hedonismo levados às últimas consequências. Mas nem
convém entrar nesses assuntos agora.
O
fato é que gosto de competir. Sou boa de corrida. Digo, sou mais ou
menos de corrida. Minto, sou péssima de corrida. Ou melhor, era. Sempre
chegava em último lugar contra meus adversários homens. Não que eu não
me esforçasse nos treinamentos. Obedecia ao técnico e dava 110% de mim.
Meu azar é que os outros eram melhores.
Na
condição de Rebeca, contudo, me foi permitido competir como pessoa com
vagina, contra pessoas com vagina. E lá fui eu para a pista de
atletismo. Preparar, apontar, fogo. Saio em disparada, não mais como um
Charlie Brown querendo chamar a atenção da Menina Ruiva e seguindo reto
na curva. E sim como uma Rebeca, na plenitude de sua transgeneridade,
competindo com seres femininos. Como uma igual, ainda que inegavelmente
melhor do que as pessoas com vagina.
Venço.
Com folga. Sendo sincera, e sem querer humilhar ninguém, longe de mim,
eu poderia dar duas voltas na pista e ainda assim chegar em primeiro.
Você vai dizer que é por causa da testosterona, da composição
ósseo-muscular, sei lá. Ao que responderei simplesmente: me respeite.
Porque, se decidi que sou Rebeca até o fim do texto, serei Rebeca até o
fim do texto. Ou até o intertítulo, o que vier primeiro.
Aí
eu, que neste experimento de imaginação tenho meus 16 anos, chego em
casa. Meus pais brancos, de classe média e vergonhosamente cis me
esperam na porta. Eles me aceitam como trans. Alguma coisa a ver com
"odiar o pecado, e não o pecador" – qualquer coisa assim que os
cisfascistas ensinam. Mas, desde que anunciei minha transição, meus pais
foram categóricos: nada de trapaça nos esportes.
Minha
mãe tem um chinelo na mão. Assim que ela vê as medalhas chacoalhando no
meu pescoço, sai em disparada. É nessa hora que provo que sou mesmo boa
de corrida.
Trapaceiro e oportunista
Saio
do transe retórico para dizer que, na condição ultraopressora de homem
branco, hétero e cis, o que mais me impressiona no interminável debate
sobre a presença dos transgêneros nos esportes femininos é a ausência de
uma palavrinha: honra. Que uns confundem com orgulho e outros com
vaidade, mas que, no sentido que tento empregar aqui, tem mais a ver com
um conjunto de valores que me permitem viver uma vida justa e honesta.
Em
outras palavras, e deixando de lado a questão sexual do fenômeno, me
pergunto o que leva uma pessoa que se identifica com o sexo oposto, por
doença (CID 10 - F64) ou ideologia, a celebrar uma vitória no esporte
feminino. Mesmo sabendo das diferenças óbvias na anatomia. Mesmo olhando
de cima as companheiras de time.
Veja
o caso de Cece Telfer, corredor jamaicano-americano que abandonou as
competições masculinas e 20 anos como Craig para quebrar várias recordes
no circuito universitário. Será que, ao alcançar a linha de chegada
vários metros à frente da segunda colocada, ele se sente de fato
vitorioso? Vitorioso com "v" maiúsculo? Será que, ao subir no ponto mais
alto do pódio, ele se sente verdadeiramente recompensado por seus
treinamentos e pela vida regrada que se exige de um atleta? Será que ele
se considera digno daquela medalha dourada no pescoço?
Será
que não passa por sua cabeça cheia de hormônios que suas vitórias são
apenas um teatro de vanguarda encenado num mundo caótico, confuso e
perturbado? Um mundo onde a palavra “honra” e todos os conceitos que a
orbitam perderam o valor, reduzindo o ser humano a um ser subjugado por
antiquíssimas construções sociais? Um mundo onde, veja só, palavras
simples, como "homem" e "mulher", viraram motivo de debate, quando não
de ódio.
Sei
que há muito mais em jogo do que a “mera” ideia de que a natureza
humana é uma construção social decorrente de séculos de opressão. Há
bolsas de estudo, patrocínios e a própria sedução da fama, por exemplo.
Mas onde fica a honra e o legado no mítico “longo prazo”? Ou será que
essa geração não consegue entender que o tempo cobra seu preço não só
sobre o corpo físico, mas também sobre as escolhas morais que fazemos ao
longo da vida?
Não.
Não há coragem nenhuma no que Cece Telfer está fazendo com suas
adversárias com vagina. Não há bravura ou inteligência em seu corrompido
senso de oportunidade. Não há superação dos próprios limites nem
qualquer outro clichê esportivo do tipo. A rigor, não há nem vitória,
porque tudo não passa de uma trapaça socialmente aceitável – por alguns.
Sobretudo
não há honra. Aquela sensação de encher os pulmões de ar, fechar os
olhos e, na condução de Paulo ou Rebeca, saber-se temporariamente digno
dos louros da vitória.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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