A Arábia Saudita está propondo uma utopia urbana em escala jamais vista. Dagomir Marquezi para a revista Oeste:
Cidades
são concêntricas por natureza. Desde o início das civilizações, elas
nasceram a partir de um ponto e “incharam”. São Paulo é um exemplo
típico. Começou em 1554 com um colégio jesuíta, descrito pelo padre José
de Anchieta como “uma paupérrima e estreitíssima casinha”. Ao redor do
Pátio do Colégio, formaram-se habitações, vias, serviços, bairros e o
que era uma casinha estreita virou um aglomerado metropolitano de 39
municípios, 21,5 milhões de habitantes e 7.946 quilômetros quadrados,
maior que 33 países do mundo.
Cidades
são expansões caóticas de uma “semente”. Mesmo uma cidade planejada
como Brasília foi construída ao redor da burocracia federal e se
expandiu naturalmente em subúrbios e cidades-satélites. Nova York nasceu
de um posto de comércio de peles na Ilha de Manhattan. Londres surgiu
de um posto avançado do Império Romano às margens do Rio Tâmisa. Moscou
começou como um ponto de encontro de dois nobres russos. Tóquio já foi
apenas uma aldeia de pescadores.
O
desafio a essa lógica milenar surgiu agora de um lugar surpreendente: a
Arábia Saudita. O governo do príncipe Mohammed bin Salman (mais
conhecido como MBS) anunciou a construção de um conceito urbano
completamente novo: The Line, a cidade-linha. The Line quebra o
princípio da cidade concêntrica. Seus habitantes deverão habitar módulos
ligados por uma linha reta de 170 quilômetros. Por que a reta? Por ser o
caminho mais próximo entre dois pontos. O projeto foi pensado por
urbanistas e arquitetos de vários países. O início das obras está
anunciado para os próximos meses.
The
Line foi desde o início bombardeada pela imprensa mais à esquerda. É
difícil mesmo defender uma iniciativa que vem de um governo despótico,
de um país onde as mulheres lutam pelos mais básicos direitos e o
homossexualismo é proibido por lei. Na Arábia Saudita, a rigidez
religiosa gerou Osama bin Laden e 15 dos 19 terroristas que participaram
do atentado de 11 de setembro de 2001.
O
jornalista Robert F. Worth, do The New York Times, lembrou que esse é o
país onde “clérigos barbudos dominam as cortes e os condenados são
rotineiramente decapitados pela espada em público”. Worth acusa o
príncipe Mohammed bin Salman de disfarçar o atraso do país com medidas
espetaculares e inúteis. E lembra que MBS é acusado de ter mandado matar
e esquartejar o jornalista Jamal Khashoggi no consulado saudita em
Istambul.
The
Line seria então apenas um delírio bilionário destinado a apagar as
mazelas da realeza saudita? Apenas um blefe para arrecadar dinheiro de
investidores incautos?
Pode
ser. Mas chega o momento de separar uma grande ideia de suas
implicações políticas. Ninguém gosta de lembrar que o conceito original
do nosso querido Volkswagen sedã foi encomendado pelo próprio Adolf
Hitler. E nem por isso deixou de ser uma grande sacada, que sobreviveu
por décadas ao regime nazista e se espalhou pelo mundo como um carro
resistente e barato. O nazismo se foi. O Fusca ficou.
Máquinas produtoras de nuvens para fazer chover e até uma lua artificial
The
Line pretende acomodar uma comunidade cosmopolita de até 1 milhão de
habitantes na região de Tabuk, no noroeste do país, próximo à Jordânia,
Israel e Egito. A linha reta atravessaria quatro ecossistemas: a costa
do Mar Vermelho, o deserto da Península Arábica, as montanhas de Jabal
al-Lawz (onde chega a nevar no inverno) e o vale rochoso mais a leste.
Segundo
o plano, a linha de 170 quilômetros vai ter basicamente três “andares”.
Na superfície, ficam as residências, jardins, escolas, lojas, tudo a
cinco minutos de caminhada. Nenhum veículo, nenhuma fábrica, nenhum fio
pendurado, nada que polua. Ou seja, um grande calçadão. No primeiro
“subsolo”, localizam-se os serviços e a infraestrutura da cidade (numa
ideia que parece inspirada pela Disney World). No segundo subsolo (“a
espinha dorsal”), estão os meios de transporte, incluindo um veículo
ainda não definido ultrarrápido, capaz de atravessar a cidade de ponta a
ponta em 20 minutos.
Um
projeto desse tamanho não se faz por caridade. A Arábia Saudita está
observando a rápida ascensão dos veículos elétricos. Sabe que sua única
grande riqueza, o petróleo, está valendo cada vez menos no mercado
internacional. (Chegou a US$ 140 o barril em 2008 e hoje está valendo ao
redor de US$ 50.) Precisa urgentemente diversificar suas fontes de
renda. Segundo a revista Architectural Digest, o governo saudita espera
gerar 380 mil empregos com The Line e acrescentar US$ 48 bilhões ao PIB.
A
Linha é apenas parte de um plano maior: o Neom — neologismo que junta o
grego (“novo”) com o árabe (“futuro”). Com o Neom, o país pretende
criar uma versão local do Vale do Silício no deserto, incorporando
cidades, centros de pesquisa, institutos de educação e atrações
turísticas. Entre estas, uma versão do Jurassic Park com
dinossauros-robôs. E também um centro de gastronomia onde, ao contrário
do resto do país, bebidas alcoólicas serão autorizadas. Estão previstos
táxis voadores, máquinas produtoras de nuvens para fazer chover no
deserto, e até uma lua artificial gigante movida por drones.
O
Wall Street Journal teve acesso a um relatório confidencial de 2.300
páginas que menciona entre outras coisas um centro de pesquisa genética
(o Projeto Apollo), visando a “um novo modo de vida do nascimento à
morte, em busca de mutações genéticas para incrementar a força humana e
sua inteligência”. Parece a origem do Capitão América, 80 anos depois da
ficção em quadrinhos.
Neom
seria mais que uma cidade, quase uma espécie de Estado
semi-independente, buscando pontos de interesse comum com os vizinhos
Egito e Israel. Os sauditas pretendem criar uma ponte sobre o Mar
Vermelho ligando a cidade ao território egípcio e atrair empresas
israelenses de alta tecnologia. Os dois países ainda não se manifestaram
oficialmente a respeito. Mas uma iniciativa de colaboração pacífica no
Oriente Médio é sempre mais que bem-vinda.
Segundo
os planos, todas as fontes de energia de Neom serão renováveis, à base
de sol, vento e hidrogênio. Qualquer forma de atividade econômica está
sujeita a emissão zero de carbono. O objetivo é preservar 95% dos
sistemas ecológicos. Está previsto também o uso massivo de inteligência
artificial em toda a comunidade, o que faria a Arábia Saudita ficar um
pouco parecida com a Estônia.
Existem
queixas sobre o projeto. A tribo Huwaitat teria de ser realocada do
deserto. Vinte mil pessoas teriam de se mudar até o ano que vem. (O
governo promete que elas serão “generosamente” recompensadas.) Muitos
sauditas consideram que, antes de pensar num projeto de US$ 500 bilhões,
MBS deveria dar um trato nas cidades atuais, consideradas sujas e
malconservadas. Pegou mal também o fato de o próprio príncipe ser o
garoto-propaganda do vídeo promocional do projeto.

Esse
detalhe esconde uma ironia. Se a fala de MBS tivesse saído da boca de
uma Greta Thunberg ou de um Leonardo DiCaprio, seria aplaudida de pé na
reunião de Davos ou pela plateia do Oscar. (“Em 2050, 1 bilhão de
pessoas serão desalojadas por causa do efeito do aumento do gás
carbônico e do nível do mar. Noventa por cento das pessoas respiram ar
poluído. Por que devemos sacrificar a saúde em prol do desenvolvimento?
Por quetemos de perder 1 milhão de pessoas por ano em acidentes de
trânsito?”) Tendo sido do príncipe, a declaração foi desprezada como
oportunista.
Com
esse espetacular projeto utópico, o governo saudita do príncipe
Mohammed bin Salman deveria então ser perdoado de seus erros e crimes?
Claro que não. Mas vamos ver o copo meio cheio.
Os
sauditas estão direcionando seus esforços para um ousado futuro de
soluções a alguns dos problemas mais urgentes do mundo. O projeto é
marcado pelo uso de tecnologia limpa e pelo bem-estar de seus
habitantes. Está ajudando a tirar a Arábia Saudita de seu isolamento
medieval, chamando (e pagando muito bem) especialistas de vários países.
Com isso, torna o país fechado mais cosmopolita, menos fanático e mais
livre. Apesar da evidente má vontade de parte da imprensa internacional
(como The New York Times, The Economist e The Guardian), a Arábia
Saudita está propondo uma utopia urbana em escala jamais vista.
Aparentemente está pedindo ajuda internacional para ser modernizada.
Só
para efeito de comparação, pense no regime do vizinho Irã, cuja maior
atividade é financiar terroristas. E que tem como “projeto utópico”
jogar bombas nucleares em Israel.



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