Não
se preocupe com o deputado Daniel Silveira: sua prisão não vai gerar
crise nenhuma. Seus colegas parlamentares até se preocupam, porque ali
não há muita gente isenta do medo de prisão, mas não vão entrar numa
briga pesada por um deputado de quem ninguém gosta, por sua antipatia e
falta de educação. O Supremo já mandou o recado a ele e ao pessoal do
Gabinete do Ódio: bateu, levou. As Forças Armadas receberam o recado e,
tirando um ou outro, não vão querer ficar lembrando a prepotência de
três anos atrás – aliás, o general Fernando Azevedo, ministro da Defesa,
já conversou com Toffoli, de quem foi assessor no Supremo. As linhas de
poder se entrelaçam, sempre. É aquilo que os ingleses chamam de
“establishment”.
E
Daniel Silveira? Não estão nem aí com ele, não. O tratamento que
recebeu ao ser preso foi vip: ninguém o mandou calar-se quando destratou
a policial civil que lhe exigiu a colocação de máscara, prenderam-no
numa sala e não numa cela. Mas entrou em cana, o que não esperava. Ao
abrir sua caixa de insultos, estava no lugar errado, na hora errada: foi
vítima de uma bala perdida quando o STF respondia a antiga provocação
do general Villas Boas. Ele imaginava que seria defendido por Bolsonaro.
Quem acredita em mitos não é bem defendido. Hércules, o herói grego,
era filho de Zeus, o deus dos deuses, o Mito Supremo. Mas ficou ao sol e
ao sereno, sem ajuda do Mito, e teve até de limpar estrebarias. Em
política, Daniel Silveira está cancelado.
Fumaça nos olhos
Para
Bolsonaro, o destempero mal educado de Daniel Silveira foi um presente:
a irritação com a falta de vacinas é grande e Bolsonaro está sendo
responsabilizado por isso (e não adianta tentar dividir a culpa com o
general Pesadelo porque foi ele que o nomeou e sustenta). Quem acha que a
vacina está demorando sabe quem é que não tomou as providências para
comprá-la. E os que já foram vacinados sabem que tomaram a CoronaVac, a
“vachina”, e não as que o Governo Federal diz que encomendou.
As
discussões sobre Daniel Pereira e a legalidade de sua prisão desviam o
foco da falta de vacinas. E, como o Gabinete do Ódio vai martelar o
assunto, fica mais fácil fugir do que é importante. De qualquer forma,
Bolsonaro enfrenta problemas: está descobrindo que o Centrão o apoia,
mas só vota com ele depois de negociar caso a caso. Haja milhões de
argumentos para convencer Suas Excelências!
Os reis da estrada
As
lideranças dos caminhoneiros, irritadas com o quarto aumento do óleo
diesel neste ano, ameaçam parar e bloquear as estradas. Bolsonaro zerou o
imposto federal que incide sobre o diesel para agradar os
caminhoneiros. Mas sabe que é pouco: o preço mundial do petróleo está
subindo (em grande parte pelo forte inverno americano, que exige
petróleo para aquecimento), o real despencou, e o resultado são os
aumentos. Bolsonaro diz que “vai acontecer alguma coisa” na Petrobras.
OK: pode dar um jeito de pedir que o presidente da empresa, Roberto
Castello Branco, vá embora. E daí? Quem assumir enfrentará o mesmo
problema: petróleo subindo, real caindo. Como segurar o preço na bomba? E
coisas como pneus, por que vão cair de preço?
Mundo novo
O
fato é que os grandes países se preparam para aposentar o caminhão a
diesel. Em pouco mais de dez anos, os caminhões deverão ter emissão
zero, movidos a hidrogênio, álcool, eletricidade. Baixar artificialmente
o preço do diesel vai retardar a opção por outros meios de transporte. O
que precisa ser feito é um plano que envolva a sobrevivência dos
caminhoneiros, e que os liberte dos financiamentos a longo prazo que os
sufocam. E de preferência sem projetos tipo BR do Mar, de estímulo à
navegação de cabotagem: parece ótimo, mas o plano é dar todo o
transporte naval de porto a porto a navios estrangeiros, sem deixar
lugar aos nacionais e sem abrir aos caminhoneiros a possibilidade de
atuar em percursos menores sem morrer de fome.
Onde está o dinheiro?
Com
a saída da Ford, autoridades de diversos Estados iniciaram o cerco a
outras empresas automobilísticas, para manter a arrecadação e evitar que
milhares de operários do setor fiquem desempregados. Boa parte dos
esforços é para atrair a CAOA, de Carlos Alberto de Oliveira Andrade,
que produz veículos projetados na China. Andrade deu sinal verde a
algumas das negociações, mas deixando claro que precisará de ajuda para
se instalar.
Tudo
muito bom, tudo muito bem, mas o Grupo CAOA é o maior devedor da Massa
Falida do Banco Santos – a soma dos bens do banco, administrados pela
Justiça, usados para pagar os credores. Em ótima reportagem, a Record
mostrou que a CAOA deve, há 15 anos (época da falência do banco), o
valor de R$ 1.685.931.000,00 – total informado pelo administrador
judicial da Massa Falida, Vânio Aguiar. Em primeira instância e no
Tribunal de Justiça de São Paulo, Andrade e esposa foram condenados, com
bens penhorados. Recorrem ao STJ, em Brasília.
Mais ajuda? E pagar a dívida antiga, nada?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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