domingo, 2 de julho de 2017

Na guerra do gás, EUA e Arábia Saudita “demonizam” o antigo aliado Qatar


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Charge do Latuff (site A Mancha Verde)
F.William Engdahl
New Eastern Outlook
Aconteceu na primavera passada: o Qatar iniciou conversações com o Irã em busca de um acordo sobre a exploração do megacampo de gás partilhado entre os dois países (South Pars-North Dome). O Qatar levantou a moratória que impedia a exploração do campo e deu início a discussões com o Irã sobre o desenvolvimento conjunto, acionado pelos dois países. Já se sabe que Qatar e Irã chegaram a um acordo para a construção conjunta de um gasoduto Qatar-Irã, do Irã até o Mediterrâneo ou até a Turquia, que também levará gás até a Europa. Em troca, o Qatar comprometeu-se a pôr fim ao apoio que dá ao terrorismo na Síria – golpe terrível nos planos Trump-sauditas para balcanizar uma Síria hoje destruída e controlar os fluxos de gás da região.
Para evitar essa catástrofe geopolítica, Washington, Riad e Telavive uniram-se para culpar Irã e Qatar pelo terrorismo mudnial, embora, por ironia, Qatar seja sede das mais importantes bases do Pentágono em todo o Oriente Médio.
APOIO AO TERRORISMO – O secretário da Defesa dos EUA chegou a declarar que o Irã seria o “maior patrocinador estatal de terrorismo”, e o crime atribuído ao Qatar seria financiar o Hamás, a Al-Qaeda e o ISIS. Talvez até fosse verdade em passado recente. Mas hoje o Qatar busca objetivos diferentes.
Ao mesmo tempo, Washington convenientemente minimizou o papel da Arábia Saudita, que sabidamente canalizou bilhões de dólares em anos recentes para construir redes de terroristas jihadistas fanáticos de Cabul à China, da Bósnia-Herzegovina ao Kosovo e Síria e até o Irã e a Rússia.
Como as mais recentes estratégias dos neoconservadores em Washington, a demonização de Qatar-Teerã e as sanções estão saindo pela culatra. O Irã respondeu imediatamente com ofertas emergenciais de alimentos e outros itens de primeira necessidade para quebrar o bloqueio ao Qatar.
E A CHINA? – Em meio à crise, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, encontrou-se com o ministro de Relações Exteriores do Qatar em Moscou, enquanto a Marinha da China iniciava exercícios navais conjuntos Irã-China, no hiper estratégico Estreito de Ormuz. Detalhe: o Estreito de Ormuz, entre Omã e Irã na abertura do Golfo Persa para o Mar de Omã, é inegavelmente o gargalo de trânsito por mar mais estratégico do mundo, por onde passam mais de 35% de todo o petróleo embarcado para a China e outros mercados mundiais.
O Irã é candidato à admissão como membro da Organização de Cooperação de Xangai, agora que as sanções de EUA e União Europeia foram semilevantadas; é já é participante estratégico convidado na Iniciativa Cinturão e Estrada, da China, antes chamada “Novas Rotas Econômicas da Seda”, de longe o mais impressionante projeto de infraestrutura do mundo para criar vínculos econômicos entre todos os estados da Eurásia, incluindo o Oriente Médio.
SEM USAR O DÓLAR – O Qatar também não é estranho nem para a China nem para a Rússia. Em 2015 o Qatar foi oficialmente reconhecido pelo Banco do Povo da China como o primeiro centro do Oriente Médio a aceitar transações e fazer compensação em moeda chinesa, o yuan, agora também já admitido pelo FMI como moeda oficial da cesta de moedas da instituição, grande impulso na direção de a moeda chinesa ser aceita internacionalmente.
O status do yuan como moeda que pode ser objeto de compensação permite que empresas qataris transacionem com a China (venda de gás natural, por exemplo) diretamente em renminbi. O Qatar já exporta quantidades significativas de gás natural liquefeito para a China.
MOEDA DE TROCA – Segundo matérias recentes de Amsterdã, o Qatar já está recebendo pagamento do gás que vende à China em yuan, não mais em dólares. Se for verdade, indica mudança tectônica no poder do dólar norte-americano, base financeira da capacidade dos EUA para fazer guerras pelo planeta e administrar déficit federal e dívida pública de mais de $19 trilhões. O Irã já recusa dólares pelo próprio petróleo e a Rússia vende gás à China ou em rublo ou em yuan. Se tudo isso se definir como mudança significativa a favor do comércio bilateral internacional em yuan ou em rublo russos e outras moedas ‘não dólar’, será o ocaso dos EUA como superpotência global.
Será que futuros historiadores que venham a analisar o Século terão de registrar, como data do ocaso dos EUA o ano de 2017 – quando Washington perdeu o controle sobre o “prêmio estratégico”, como Dick Cheney chamava o Oriente Médio rico em energia?
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