quinta-feira, 22 de junho de 2017

Impunidade nos partidos é símbolo da crise política, dizem cientistas políticos


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Charge do Clauro (Arquivo Google)
Mariana Timóteo da Costa e Sérgio Roxo
O Globo
A impunidade nos partidos, identificada pela constatação de que PP, PT, PMDB e PSDB têm quase cem investigados na Lava-Jato mas só abriram processos disciplinares em dois casos, é reveladora da crise do sistema político. Os cientistas políticos Fernando Abrucio, da FGV de São Paulo, e Carlos Melo, do Insper, avaliam que há um clima de ‘é assim mesmo’ na sociedade que colabora para o fortalecimento de oligarquias dentro das legendas
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ABRUCIO: ‘PARTIDOS CRIARAM OLIGARQUIAS’

Os partidos pouco fazem em relação aos seus filiados citados na Lava-Jato. Por que isto ocorre?
Se houvesse um desvio de conduta individual, sobretudo PT e PSDB, acho que esses partidos levariam adiante (alguma tomada de providência), como o PT fez no caso do André Vargas e do Delcídio (do Amaral). Mas o que está em jogo hoje é um conjunto de ações que não foram individuais, foram ações que envolveram financiamento para os partidos, que envolveram financiamento de campanhas, com envolvimento de toda cúpula partidária, o que dificulta muito que haja alguma punição.
No caso do Aécio ele foi candidato à Presidência e presidente do partido…
E isso não é à toa. Acho que em todos esses episódios teria que se punir a cúpula partidária. E se você olhar bem a cúpula partidária dos principais partidos é praticamente a mesma há 20 anos. Tem pequenas mudanças, mas o fato é que os grandes partidos se fecharam e criaram fortes oligarquias internas que dificultam outros grupos dentro do partido a acessar a cúpula partidária.
E qual o modelo ideal de partidos ao qual ainda não chegamos?
A democracia intrapartidária é muito pequena. Os partidos quase não mudam sua composição de diretórios nacionais, os caras ficam na direção de partido por décadas. (Michel) Temer ficou no PMDB, Rui Falcão no PT. Precisa aumentar a democracia interna, porque aí se tem mais competição e mais controle sobre a cúpula partidária. Os grandes partidos ingleses, por exemplo, quando têm uma grande crise, eles derrubam a cúpula partidária. Vai tentar fazer isso no Brasil! A renovação do comando é baixa, não consegue haver espaço para que minorias questionem, isso mudaria toda a posição em relação a punições. O caso do PSDB agora é impressionante, grande parte da base quer deixar o governo, mas a cúpula não quer, porque a cúpula fez uma aliança de vida ou morte com o PMDB. Chegamos a um ponto que, se não houver renovação dos partidos, eles serão renovados pelos eleitores. O custo para o PSDB por essa manutenção no governo Temer é alto demais. Acho que o FH já percebeu esse desastre. A cúpula dos partidos brasileiros não quer sair do poder, está esperando o eleitor tirar ela de lá.
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MELO: ‘NÃO DÁ PARA SAIR POR AÍ EXPULSANDO’

Por que é tão difícil partidos punirem malfeitos?
Os casos de corrupção não são só individuais, envolvem financiamento de campanha. Um político não tem poder para indicar um diretor de estatal sozinho, um partido tem poder porque ele tem uma bancada, que vai defender milhares de interesses diferentes. É claro que a corrupção tem nome e sobrenome, mas muitas das vezes essas pessoas operam em nome do partido, ainda que tenham enriquecido pessoalmente, existe uma distribuição que passa pela cúpula do partido e pelas eleições.
Há saída para esta crise?
O país precisa fazer reformas, a relação das empresas com o Estado precisa ser revista, você precisa ter uma reforma política, precisa discutir novamente o financiamento de campanha, não dá para simplesmente sair por aí só prendendo e expulsando indivíduos. É claro que eles têm que ser presos, mas precisa também haver reforma que mexa com a a estrutura partidária, que mexa com os partidos e mude a concepção de campanha eleitoral. Isso aí o sistema não está muito interessado em fazer. Não é só o sistema eleitoral que precisa ser envolvido nessas reformas, não apenas o TSE. A Receita Federal que acompanha movimentações financeiras também precisa agir, a mudança passa por toda uma estrutura. A solução precisa ser sistêmica, não apenas individual.
Como dar uma solução sistêmica se os partidos são comandados, há anos, pelas mesmas pessoas?
Quando a sociedade acha que a política é coisa de malandros, a malandragem agradece. Está faltando sociedade aí, estamos olhando para tudo isso embasbacados, achando que é assim mesmo. Mas a sociedade pode transformar as coisas; os partidos políticos ficaram com medo das manifestações de 2013, com as manifestações pelo impeachment. Por que agora a população se cala? Não sei responder a isso. Só sei que quem vota não é o Aécio, o Lula ou a Dilma, quem vota são as pessoas. Esse sistema é resultado do voto. A sociedade precisa parir novas lideranças. Se essas lideranças serão mais parecidas com Emmanuel Macron (presidente francês, que criou um movimento novo) ou Donald Trump (que chegou ao poder via um partido tradicional), é do jogo. Se a coisa continuar sendo um problema de desajuste só entre os políticos, vamos continuar na crise.
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