domingo, 4 de junho de 2017

Esquecido império do cacau reativa “turismo do chocolate”.

O DEFENSOR
A cidade de Ilhéus guarda um importante acervo da história do país na qual o cacau, que perdeu espaço por pragas agrícolas, descuido e secas, volta a ser um instrumento da população para recuperar o selo do “turismo do chocolate” e reescrever a obra de Jorge Amado.
O objetivo da população é “reacender” o cultivo da “fruta dos deuses” na região, trabalhando com a recuperação histórica de locais como o Rio do Braço, primeiro distrito de Ilhéus e antiga estação de trem da região, por onde circulava o cacau entre os anos 1920 e 1930.
O lugar está em ruínas e a seca de 2016 afetou os cacaueiros que ainda tinham plantações ali.
Com o propósito de recuperar o espaço como patrimônio histórico e cultural, o empresário Lucas Kruschewsky lidera um projeto para a restauração do Rio do Braço.
“O Rio do Braço é o primeiro distrito de Ilhéus, importantíssimo. Foi cenário de novela, de filme, está nas páginas de Jorge Amado e por isso o trabalho é de resgate cultural e histórico”, explicou à Agência Efe o empresário e ativista.
A primeira atividade foi transformar as ruínas do galpão central por onde chegava o cacau em um restaurante de comida típica, para atrair primeiro os residentes dos arredores e, logo depois, os turistas.
Segundo Kruschewsky só desta maneira será possível “envolver” a população para propor uma restauração coletiva e voluntária na área e, como consequência, recuperar a vontade dos jovens produtores em plantar cacau e produzir o que se classifica como chocolate de origem, aquele com maior concentração da semente.
“Os melhores produtores de chocolate são os europeus, mas eles não tem nenhuma árvore de cacau plantada. Por isso, além de internacionalizar a cultura do cacau, o objetivo é valorizar o que nós temos, o nosso chocolate de qualidade e saudável”, destacou.
Ilhéus é reconhecida como a “rota do chocolate”, mas nas últimas décadas esta valorização caiu e os produtores estão tentando retomar a marca do chocolate baiano como o melhor do Brasil, podendo ser comparado com os famosos suíços, já que se utiliza pelo menos 30% a mais de cacau na composição.
Essa porcentagem ou superior garante a diferença do chocolate industrial e o de origem.
A cidade continua explorando o comércio de produtos derivados do cacau, entre eles artesanatos, produtos de beleza e higiene, além da própria gastronomia que foi reforçada com a tradução a vários idiomas de “Gabriela”, uma das obras célebres de Jorge Amado (1912-2001).
Para a população existe um sentimento de gratidão ao autor por ter imortalizado Ilhéus para o mundo.
“Se não fosse Jorge Amado, talvez a nossa história das fazendas de cacau e as nossas belezas naturais que estão tão esquecidas pelo poder público também seria uma rota ignorada pelos turistas”, comentou à Efe a professora aposentada Ana Maria Oliveira.
Com o mais extenso litoral da Bahia, conhecido como Costa do Cacau, o município é um dos primeiros do Brasil, fundado em 1536, e conserva na arquitetura do centro da cidade as marcas da era colonial portuguesa, como a estátua da poetisa grega Safo, usada em barcos pelos portugueses entre 1924 e 1927.
A estátua é a única da poetisa na América do Sul e Safo é registrada na história como a primeira mulher a lutar pelos direitos de gênero, como contou o guia turístico Aloísio Souza.
As fachadas das casas também mantêm as iniciais dos “barões do cacau”, como eram chamados os ‘coronéis’ e uma delas se transformou na Casa de Cultura e Museu Jorge Amado, onde a história da cidade está retratada pela coleção de objetos cedidos pela família do autor.
Das páginas dos livros aos panfletos de itinerários turísticos, Ilhéus passa por uma fase de transição entre o ‘coronelismo’ das décadas de 1920 e 1930 e a tentativa de ser um ponto de parada de turistas brasileiros e latinos, especialmente após a abertura de um aeroporto na cidade.
Pensando nisto, muitos resorts instalados ali, como o Cana Brava, surgiram de moradias familiares que se transformaram em um motor para impulsionar um turismo mais barato no Nordeste, com foco nas famílias de novas regiões.
O diretor do Cana Brava, Rafael do Espírito Santo, faz parte de um grupo de empresários que ‘vende’ o conceito do chamado “turismo do chocolate”.
O turismo da cidade é o resultado histórico das gerações de cacaueiros, que no ecossistema da Mata Atlântica passaram por 20 anos sem exportar à Europa e deixaram aos filhos e netos o cuidado e a preservação da cultura do cacau.
“Sinceramente, nunca comi nada tão bom como o cacau”, declarou à Efe o pequeno Bento, de sete anos, que cresce entre as fazendas e as histórias dos extintos ‘coronéis’ contados pelos seus avôs.

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