BLOG ORLANDO TAMBOSI
Yoshua Bengio, Yann LeCun e Geoffrey Hinton mantiveram posições distintas sobre a ‘carta anti-IA’. Reportagem do Estadão:
A carta que pede uma pausa por seis meses no desenvolvimento de inteligência artificial (IA) reuniu nomes como o bilionário Elon Musk e o historiador Yuval Noah Harari
- atualmente, o documento proposto pelo instituto Future of Life já
conta com mais de 10 mil assinaturas. Apesar do apoio de parte da
comunidade de especialistas em IA, a iniciativa não foi capaz de unir
aqueles que são considerados os “pais da inteligência artificial
moderna”.
Ganhadores
do Prêmio Turing de 2018, reconhecimento máximo na área da computação,
os pesquisadores de IA Yann LeCun, Geoffrey Hinton e Yoshua Bengio
mantiveram posições bem distintas sobre o conteúdo do documento
divulgado na semana passada. A cisão chama a atenção, pois o trabalho do
trio em aprendizado profundo (deep learning) e redes neurais (neural
network) é considerado pedra fundamental para o avanço da IA nos dias
atuais.
Professor
da Universidade de Montreal, no Canadá, e diretor científico do
Instituto de IA de Quebec, Yoshua Bengio, 59, apoia integralmente a
iniciativa, da qual é um dos principais signatários. Em seu site,
ele explica o porquê fez parte da carta: “Ultrapassamos um ponto
crítico: as máquinas podem conversar com a gente agora e fingem ser
seres humanos. Esse pode poder ser usado para fins políticos ao custo da
democracia. O desenvolvimento de ferramentas cada vez mais poderosas
aumenta o risco de concentração de poder”.
Sobre
o tom da carta, criticada por ser alarmista, Bengio diz: “Ninguém, nem
mesmo os principais especialistas em IA, incluindo aqueles que
desenvolveram os modelos gigantes de IA, tem certeza de que essas
ferramentas poderosas não poderão ser usadas de formas que seriam
catastróficas para a sociedade”.
Em
outro trecho, ele fala sobre a visão distópica da tecnologia: “Já
existe literatura que documenta os malefícios atuais que uma regulação
ajudaria a minimizar, de violação à dignidade humana ao uso militar de
IA”, escreve no site.
Devemos ter medo de inteligência artificial?
Em
oposição diretamente oposta está Yann LeCun, 62, professor na
Universidade de Nova York e responsável pelas pesquisas em IA do Facebook.
Após a divulgação da carta, ele se tornou bastante ativo no Twitter
para defender que não é necessário pausar o desenvolvimento da
tecnologia e que o tom da iniciativa gera terror e pouco entendimento da
tecnologia.
Crítico do ChatGPT,
considerado por ele pouco inovador em termos tecnológicos, LeCun afirma
que é uma ficção a existência de uma inteligência artificial geral
(AGI), sistema onisciente e sabe-tudo com suposta capacidade humana.
Portanto, esse medo não deveria estar no centro das preocupações das
pessoas.
“Toda
tecnologia é desenvolvida da mesma maneira: você cria um protótipo,
testa em pequena escala, faz implantação limitada, conserta os
problemas, torna mais seguro e implementa de forma mais ampla. Nesse
ponto, governos regulam e estabelecem padrões de segurança. A única
razão pela qual as pessoas estão hiperventilando sobre os riscos da IA é
o mito da ‘decolagem bruta’: a ideia de que, a partir do momento em que
você liga um sistema superinteligente, a humanidade está condenada.
Isso é absurdamente estúpido e baseado em uma completa falta de
entendimento de como tudo funciona”, escreveu.
O
principal argumento de LeCun é que os sistemas ainda são limitados e
todo o desenvolvimento será acompanhado de limites para que o sistema
não se torne hostil à sociedade. Ele se tornou bastante crítico de quem
vem fazendo barulho com cenários distópicos - uma posição pouco
informada, segundo ele. “O pessimismo com IA está rapidamente se
tornando indistinguível de uma religião apocalíptica”, critica.
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LeCun vê como infundado o medo por sistemas de IA
Alinhamento de interesses
Um
dos principais pontos de discórdia entre Bengio e LeCun é a questão de
“alinhamento dos sistemas”, ou seja, garantir que sistemas de IA sempre
atendam aos interesses humanos.
Em
um debate no Facebook, Bengio afirmou: “O desafio é se podemos lidar
com o problema do valor do ‘desalinhamento’. Não sei se conseguimos
fazer isso, mas também parece razoável que possamos fazer isso no
futuro”, disse. Ou seja, não é possível ter total certeza de que podemos
ter sistemas sempre alinhados com os interesses humanos - para ele,
99,9% de possibilidade é o suficiente para lhe deixar desconfortável.
Sobre
isso, LeCun afirmou: “Alguém teria que ser inacreditavelmente estúpido
para construir objetivos abertos em uma máquina superinteligente”. Para o
pesquisador, além de uma realidade distante, máquinas superinteligentes
sempre serão desenvolvidas para servir humanos. E, caso algo saia do
controle, um segundo sistema de neutralização sempre teria vantagem em
relação ao primeiro sistema.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi
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