BLOG ORLANDO TAMBOSI
Duas cidades futuristas de estontear o mais ambicioso visionário são os projetos que o dono do poder - e do petróleo - quer deixar como marca. Vilma Gryzinski:
Mohammed Bin Salman
pensa grande. Aliás, enorme. Aliás, como ninguém mais no mundo, nem os
chineses, com 3,1 trilhão de dólares no cofre para abrir caminho à
hegemonia que almejam ter como superpotência mundial.
Joias como as que viraram questão política no Brasil
são menos do que um grão de areia no deserto infinito da península
arábica, com um mar de petróleo por baixo para fazer amigos, influenciar
pessoas e bancar planos literalmente faraônicos.
E, de passagem, alterar as regras do jogo geopolítico mundial?
Não
é impossível. Seus últimos movimentos — aproximação com o Irã,
reatamento com a Síria e possível fim da guerra no Iêmen — indicam um
plano bem pensado para “mudar de lado”, ou escantear os americanos.
O
príncipe que já age, há anos, como rei está na maior intimidade com a
China. Com a Rússia também. Para o presidente Joe Biden, que incidiu em
falta de pragmatismo ao prometer transformar a Arábia Saudita em “pária
internacional” por causa do assassinato e esquartejamento do dissidente
Jamal Khashoggi, só desaforos disfarçados com sorrisos falsos e
salamaleques idem.
A
decisão saudita de cortar a produção de petróleo, seguida por toda a
Opep, foi um presentão para Vladimir Putin. Os preços vão subir e os
aliados americanos que bufam para bancar a substituição do fornecimento
russo vão sofrer mais ainda. O barril a 100 dólares é dado como certo.
Um aumento de apenas um dólar no barril significa mais 2,7 bilhões nos
cofres de Putin em um ano.
O
príncipe de 37 anos, universalmente chamado pelas iniciais, MBS, sabe
que a bonança um dia vai acabar e pensa num legado pós-petróleo, obras
gigantescas que transformariam a Arábia Saudita, um país inteiramente
fechado até muito pouco tempo atrás, num imã de atração para turistas,
estrangeiros e aventureiros em geral.
Um
dos projetos é chamado de Mukaab, um cubo gigantesco de 400 metros de
largura por 400 de altura, em Riad, a capital onde até recentemente
mulheres eram atacadas pela polícia religiosa se deixassem entrever o
mais mínimo pedaço de pele por baixo dos dois véus negros encobrindo
totalmente o corpo e o rosto.
O
projeto é simplesmente estonteante. O cubo decorado por arabescos — em
que outro lugar poderiam ser mais adequados? — evoca a Kaaba, a pedra
negra em torno da qual muçulmanos do mundo inteiro circulam durante a
obrigatória peregrinação a Meca.
Numa
realidade virtual criada por Inteligência Artificial, moradores e
visitantes terão paisagens constantemente cambiantes envolvendo 104 mil
unidades residenciais, nove mil quartos de hotel e 980 mil metros
quadrados de espaços comerciais. Tudo isso pronto até 2030 — e mesmo os
mais incrédulos reconhecem que MBS tem bala na agulha para bancar a
quantidade fenomenal de trabalhadores estrangeiros que construirão sua
pirâmide negra, no sentido de obra faraônica.
Também
já está em construção uma obra muito maior, um megacidade litorânea com
170 quilômetros de extensão. A horizontalidade do projeto faz jus ao
nome, The Line, a linha, sem automóveis, com construções orgânicas e o
que de melhor o dinheiro pode comprar e até o que as pessoas comuns mal
podem imaginar, incluindo uma muralha espelhada de 500 metros de
comprimento. Tudo com o que a Arábia Saudita não tem: muita água,
vegetação luxuriante e até uma estação de esqui.
A
grande questão é quem vai ocupar isso tudo. A Arábia Saudita tem 36
milhões de habitantes, dos quais treze milhões são estrangeiros que
ocupam todas as posições consideradas inferiores demais para os ricos
cidadãos locais. Criado com base num ramo ultrafundamentalista do Islã, o
reino só admitia a entrada desses trabalhadores, com contrato assinado,
e dos peregrinos a Meca e Medina, as duas cidades santas onde viveu o
profeta Maomé.
A
abertura promovida por Bin Salman, contrabalançada por um controle
político maior ainda, como se isso fosse possível, não mudou princípios
longamente arraigados que encaram as mulheres como inferiores a serem
restritas em público e privado e os estrangeiros não muçulmanos como
infiéis suspeitos. Fazer festivais de música, permitir a convivência em
público entre homens e mulheres e outros arroubos de liberdade não são
iniciativas que mudarão facilmente a mentalidade dos sauditas — e o
modo, muitas vezes preconceituoso, como são vistos do exterior.
O
príncipe certamente foi inspirado pelos “primos” de Dubai, um minúsculo
emirado, igualmente privilegiado pela geologia, que conseguiu se
transformar em destino turístico, com obras grandiosas e uma relativa
condescendência com os hábitos ocidentais em espaços designados. Decidiu
fazer mais e melhor. Umas dez mil vezes melhor.
Será
bem sucedido? São planos sustentáveis ou produto da ambição que o poder
total alimenta, com obras fadadas ao abandono de houver uma mudança na
cúpula, digamos, produzida pelos inconformados com a abertura?
Provavelmente
ninguém mais do que MBS tem em mente o assassinato do rei Faissal,
baleado numa audiência palaciana em 1975 por um sobrinho, revoltado com
novidades como a televisão e outras modernizações (o assassino foi
condenado e decapitado em praça pública; um castigo que MBS não só
manteve como incentivou, com uma média de 129 execuções por ano).
As
pirâmides do Egito têm um histórico de 4 500 anos para comprovar sua
continuidade como uma das maravilhas do mundo. O príncipe saudita quer
tudo para ontem.
A
megacidade no deserto vai custar 500 bilhões de dólares — e nós todos,
submetidos às regras mundiais do preço do petróleo, vamos pagar.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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