Rio
de Janeiro, 14 de abril de 2023 – No Dia Mundial da Doença de Chagas, o
Instituto Nacional de Cardiologia (INC), órgão do Ministério da Saúde,
alerta para o risco de uma possível retomada da transmissão residencial
da doença, ocasionada pelo desmatamento e má qualidade das residências,
principalmente nas áreas de expansão agropecuária na Amazônia.
A Doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi,
que infecta humanos por meio da picada do barbeiro. O inseto, que
originalmente habita áreas de mata, também é encontrado em casas de pau a
pique com revestimento de barro (casas de taipa).
Em
2006, o Brasil recebeu o certificado de eliminação da transmissão
vetorial domiciliar da Doença de Chagas, graças a melhorias nas
condições de habitação da população. A transmissão residencial não
cessou complemente, mas chegou a nível tão baixo que foi considerada
estatisticamente eliminada.
Atualmente, a
principal forma de transmissão da Doença de Chagas é por via oral,
quando se ingere alimentos – como açaí e caldo de cana – infectados com
ovos do inseto barbeiro.
Estima-se que existam
entre dois e três milhões de brasileiros infectados com a Doença de
Chagas. Esse total tende a cair, caso a transmissão residencial não seja
retomada.
“Nos últimos anos, dois fenômenos
causam preocupação: o empobrecimento da população e o desmatamento dos
diversos biomas brasileiros”, afirma o Dr. Bernardo Rangel Tura, médico e
pesquisador do Observatório de Saúde Cardiovascular do INC. “O
desmatamento desloca a população dos insetos de seu habitat
próprio para o ambiente urbano, em especial para casas de taipa próximas
das matas e florestas, que são, na maior parte das vezes, residências
das populações mais pobres”.
O pesquisador
avaliou dados de incidência da doença em regiões de florestas desmatadas
na Amazônia. A conclusão é que a cada 10 km² de desmatamento, há em
média dois novos casos de Doença de Chagas (veja gráfico anexo).
No
Brasil, no período de 2018 a 2021, ocorreram 140.789 internações de
pacientes com diagnósticos de Doença de Chagas e 16.826 pessoas tiveram a
doença como causa básica de morte – em geral, associada ao
desenvolvimento de insuficiência cardíaca.
Descoberta
pelo sanitarista brasileiro Carlos Chagas em 1909, a Doença de Chagas é
classificada como negligenciada pela Organização Pan-Americana da Saúde
(Opas), pela falta de investimento em pesquisas, prevenção e políticas
públicas.
A principal explicação para a falta de
investimentos é o fato que de a Doença de Chagas é endêmica em
populações de baixa renda. O INC acompanha há mais de 15 anos um grupo
de pacientes portadores da doença na sua forma crônica, que reflete o
quadro epidemiológico atual da doença em grandes centros urbanos. 60%
desses pacientes vivem com uma renda familiar de até dois salários
mínimos e 67% tem até dois anos de escolaridade.
O
Brasil conseguiu um grande avanço com a eliminação estatística da
transmissão residencial, mas os retrocessos nos últimos anos colocam em
risco essa conquista.
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