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No meio político, a condenação de Bolsonaro é vista como muito provável, o que, se acontecer, acarretará em sua inelegibilidade por oito anos. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:
O
primeiro compromisso oficial de Jair Bolsonaro no Brasil depois de seus
três meses de férias na Flórida foi prestar depoimento na Polícia
Federal por conta do caso das joias sauditas que recebeu de presente do
príncipe Mohammed bin Salman. O ex-presidente enfrenta acusações de que
teria tentado se apropriar delas ilegalmente para incorporar ao seu
patrimônio pessoal.
Dos
três conjuntos recebidos, dois estavam sob sua posse. O outro ficou
retido na alfândega do Aeroporto de Guarulhos, uma vez que foi
identificado na mochila de Marcos André Soeiro, assessor do então
ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque. Ao todo, o valor dos
bens é calculado em quase R$ 20 milhões. Segundo informações sobre o
teor de sua versão, Bolsonaro teria dito que só soube das joias apenas
no ano passado e que a operação de resgate, inclusive com participação
do 1° escalão de seu governo, foi feita para evitar uma crise
diplomática com a Arábia Saudita. É um estadista.
Nada
em sua oitiva para de pé. As investigações mostram que as tentativas
para pegar as joias começaram no próprio dia da apreensão e que se
seguiram, de forma infrutífera, até o final do mandato. Bento
Albuquerque em pessoa tentou obtê-las, num indisfarçável carteiraço.
Aparece em gravações dizendo que elas iriam para a primeira-dama. Se
havia preocupação sobre o destino dos presentes, por que todos eles não
foram imediatamente entregues ao acervo presidencial, com o
preenchimento dos formulários adequados? Isso foi exigido inclusive
pelos funcionários da Receita Federal. Muito pelo contrário, o que houve
foi a incontestável tentativa de entrar com eles no Brasil sem o
conhecimento da fiscalização.
Além
dos presentes árabes, Bolsonaro responde a investigações que tramitam
na Justiça Eleitoral e no Supremo Tribunal Federal. Uma penca de
inquéritos que vão desde sua possível participação estimulando atos
antidemocráticos até mesmo a difusão de informações falsas sobre as
urnas eletrônicas e vacinas. No Tribunal Superior Eleitoral, em breve
ele conhecerá o relatório do ministro Benedito Gonçalves, que vai se
posicionar se o ex-presidente cometeu irregularidade ao usar a estrutura
pública para atacar o sistema de votação do país em um encontro oficial
com embaixadores. No meio político, a condenação é vista como muito
provável, o que, se acontecer, acarretará em sua inelegibilidade por
oito anos.
No
caso do ataque às urnas eletrônicas, há fartura de provas. Toda a
materialidade foi produzida pelo próprio governante. A reunião com os
representantes de outros países ocorreu em pleno Palácio do Planalto.
Num sentido mais amplo, a instituição da Presidência foi
instrumentalizada para colocar em dúvida o próprio exercício da
democracia, questionando e acusando, sem provas, as demais instituições
de manipularem o resultado das eleições. E, o mais inacreditável, fez
isso investido do cargo que obteve pela via do voto nas urnas que
desacredita. É a definição mais pura de abuso de poder político.
Nesta
última semana, o ex-ministro Ciro Nogueira, que foi titular da Casa
Civil no governo de Bolsonaro, tratou de rifar o ex-chefe. Em entrevista
ao jornal O Globo, conjecturou sobre a possibilidade de o ex-presidente
não concorrer em 2026: "Vou ser muito franco: é mais fácil um Bolsonaro
injustiçado eleger um presidente do que ele próprio ganhar em 2026". Há
meios de se dizer como uma carta pode ser considerada fora do baralho. E
na linguagem do centrão é essa.
Nogueira
sabe que a situação de Bolsonaro vai se agravando, e nada, nem mesmo
uma prisão, pode ser descartada. Articulador nato, o senador do PP se
antecipa e vai preparando o terreno para manter o bolsonarismo de pé,
ainda que sem Bolsonaro. Tic tac tic tac tic tac...
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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