Antigamente o brasileiro era um povo cordial, mas agora, só pra imitar os americanos, resolvemos copiar a violência deles. Agamenon Mendes Pedreira para a revista Crusoé:
Eu
estava aqui, quieto no meu canto quando vi invadir a Rua da Amargura
(onde fica estacionado meu Dodge Dart 73, enferrujado) uma horda de
repórteres da Globo que tinham sido despedidos.
A
Globo aproveitou o Coelhinho da Páscoa para entubar uma avantajada
cenoura orgânica em vários jornalistas com mais de um século de empresa.
A Globo alega “corte de custos” para as traumáticas demissões. Se for
verdade acho que, se vivo fosse, o companheiro jornalista Roberto
Marinho também teria sido vitimado por este cruel “passaralho” que
sobrevoa a empresa.
As
pobres criaturas de imprensa desempregadas já saíram do prédio atacando
os transeuntes em busca de algum dinheiro, uma roupa velha, um
microfone usado e, principalmente um “furo”, não necessariamente
jornalístico, enfim, algo para comer.
Os
pobres jornalistas (uma redundância em si) famélicos chegaram até a
arrombar a minha residência, mas ao depararem com o miserê, se
penalizaram comigo e até me deram alguns Vales Refeição que tinham
recebido antes de ganharem o Vale Demissão das mãos do Ali Kamel, o
único jornalista arabo-caucasiano que sobrou na emissora.
Agora
esses “coleguinhas” mortos-vivos vão ficar rondando a minha vizinhança
feito uns zumbis, aumentando a concorrência e disputando emprego com os
mendigos, camelôs e vagabundos do pedaço. E o que é pior: não adianta
“chamar a Globo” para fazer uma reportagem-denúncia porque não sobrou
ninguém para contar nenhuma história.
A
Rede Globo vive um momento de crise e penúria generalizada, contrataram
o Sebastião Salgado para diretor de fotografia. A Globo está vivendo
das doações do Criança Esperança, de contribuições para o Médicos Sem
Fronteiras, venda de jornais velhos, garrafas usadas e outros programas
(de TV) de inclusão social.
A
fim de refrescar a cabeça, resolvi dar uma olhada no noticiário na
Globonews. Só que não tinha mais ninguém apresentando as notícias, todos
tinham ido pra rua. Os fatos mais importantes do dia eram lidos pela
Alexa, numa mesa de botequim. Até o cenário tinha sido despedido! A
robô, com seu tom monótono, desfiou uma série de tragédias, chacinas e
violências e eu, de saco cheio, decidi mudar de canal. Podia ser assim
na vida real: quando você não aguentasse mais a realidade, era só
apertar um botão e trocar de país. Aí você saía do Brasil e ia, por
exemplo, pra Suíça. Acontece que isso não ia dar certo também, nunca iam
aceitar um pobretão como eu na helvética terra da limonada, do
chocolate, do canivete, do relógio cuco e do Ovomaltine. Lá só moram
endinheirados abonados em seus confortáveis e luxuosos cofres com vista
para os Alpes.
Tá
ruim pra todo mundo, mas pra mim e para a Globo, tá pior. Até o Trump
está em cana! Nesse ponto, o Brasil está na frente dos estadunidenses da
América do Norte. Nós já tivemos presidente na cadeia muito antes deles
e até mesmo uma presidenta cross-dresser. Quem sabe um dia vamos ter
uma presidenta mulher e, de preferência, do sexo feminino.
Antigamente
o brasileiro era um povo cordial, mas agora, só pra imitar os
americanos, resolvemos copiar a violência deles. Como se a nossa boa e
velha violência moleque, malemolente, de raiz, não fosse suficiente para
saciar os mais baixos instintos dos psicopatas brazucas. Além do
hambúrguer e da cerveja, o Brasil está copiando a violência artesanal
dos EUA e, o que é pior, em reais! Quem tem as respostas para estas
questões indagadoras? Cartas, digo, e-mails para a redação. O problema é
que não tem mais ninguém alfabetizado na redação, todos que sabiam ler
foram despedidos.
Agamenon Mendes Pedreira é pacifista faixa preta
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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