É um erro depositar fé na democracia como sistema justo e equitativo. Na condição de instrumento, ela depende de homens imperfeitos para ser posta em uso. Bruno Garschagen para a Oeste:
Democracia
é instrumento. Vai produzir resultados positivos ou negativos a
depender de quem a utiliza e de como a utiliza. Não é, portanto, um
mecanismo capaz de garantir resultados positivos, mas uma combinação de
elementos que nem sempre podem ser conciliados ou até mesmo realizados.
Suas falhas e fragilidades geram, muitas vezes, desilusão e frustração. A
cada vez que o resultado eleitoral não é o esperado, a democracia é
questionada e sua morte é decretada.
Essa
posição apocalíptica, que volta e meia retorna ao debate, advém de uma
constatação incômoda: a democracia não pode garantir de forma absoluta
determinados resultados eleitorais, nem controlar os que representam as
instituições políticas, nem preservar as liberdades. Talvez resida aqui
seu principal problema: a democracia não tem mecanismos de defesa contra
indivíduos ou projetos de poder autoritários ou totalitários.
A
discussão a respeito da democracia vem de longa data. Heródoto, em sua
História, apresentou a definição clássica segundo a qual a
democracia é o regime comandado pela maioria. Essa concepção está
datada porque o mecanismo foi sofisticado, as formas de captura da
política foram ampliadas e os perigos são representados pela tirania da
maioria, mas também pela tirania da minoria — ambas inimigas das
liberdades.
A
experiência da democracia ateniense, cuja natureza política era
completamente distinta da democracia contemporânea, mostrou que existem
condições e contingências incontroláveis que são responsáveis pela
desordem política. Foi por isso que Tucídides, em História da Guerra
do Peloponeso, afirmou que a democracia exige cuidados permanentes dos
cidadãos. Um dos mais importantes era alçar ao poder uma elite
política que fosse orientada pelas virtudes, que combinasse
inteligência e prudência para a tomada de decisões que beneficiassem a
sociedade e evitassem prejuízos a parcelas da população.
A
posição idealista de Tucídides era comum à época, mas esbarrava sempre
na política como era e não como deveria ser. Sendo o poder político
atribuído aos representantes por delegação dos cidadãos, o filósofo
Platão, que era grande crítico da democracia, alertou para os riscos da
representação política. Ele observou que era impossível a um indivíduo
incapaz de se orientar pela inteligência escolher um representante que
subordinasse a excelência da atividade política ao saber, ao
conhecimento, à busca pela verdade.
Desde
a experiência grega, a democracia foi sendo transformada e adaptada aos
desafios do momento histórico. Essa condição irreversível para
desenvolver-se foi apontada por Alexis de Tocqueville em Democracia na
América como parte de sua natureza. As mudanças realizadas ao longo da
história foram, por isso, uma tentativa das sociedades de preservar a
existência de um instrumento que parecia ser melhor que as alternativas
políticas disponíveis.
Nenhuma
dessas experiências concretas conseguiu corrigir o problema central da
democracia que eu já mencionei, questão essa que desperta um desejo
equivocado por um regime forte e cria condições para o surgimento de
líderes e governos autoritários.
Parte
dessas preocupações está embutida na frase mais célebre sobre
democracia dita por Winston S. Churchill, num discurso proferido em 11
de novembro de 1947, na Câmara dos Comuns do Parlamento britânico.
Representando o Partido Conservador, Churchill era o líder da oposição
ao governo do primeiro-ministro Clement Attlee, do Partido Trabalhista.
Debatia-se no Parlamento um projeto de lei que pretendia aumentar os
poderes do governo de Attlee. Vendo naquilo um risco para as liberdades
do povo britânico, Churchill reagiu e disse a frase que entraria para a
história:
“Nenhum governo em tempos de paz jamais teve tal poder arbitrário sobre as vidas e os atos do povo britânico e nenhum governo nunca fracassou tanto em enfrentar diariamente as suas dificuldades práticas. No entanto, o honorável cavalheiro e os seus colegas estão ávidos por mais poder. Nenhum outro governo jamais aliou tão apaixonado desejo pelo poder com uma impotência incurável ao exercê-lo”.[…]“Toda essa ideia de um punhado de homens que toma conta da máquina do Estado, tendo a prerrogativa de forçar as pessoas a fazer o que convém ao seu partido, aos seus interesses pessoais ou às suas doutrinas, é completamente contrária a qualquer concepção da democracia ocidental remanescente.”[…]“Muitas formas de governo foram e serão tentadas neste mundo de pecados e de infortúnios. Ninguém acha que a democracia seja perfeita ou onisciente. De fato, diz-se que a democracia é a pior forma de governo com exceção de todas as outras que foram tentadas ao longo do tempo; mas existe o amplo sentimento em nosso país de que o povo deve governar, governar continuamente, e que a opinião pública, manifestada em todos os meios constitucionais, deve moldar, orientar e controlar as ações dos ministros, que são os seus servos, não os seus senhores.”
O
fato de a democracia ter se convertido em valor político inegociável
criou uma situação nova e dramática: ideologias políticas que utilizaram
seus mecanismos para instituir projetos que eram antidemocráticos e
antiliberais. Desde o início do século 20, não foram poucos os exemplos
de democracias que foram corroídas ou destruídas com o uso de seus
instrumentos formais e em nome de concepções antiliberais de
“liberdade”.
Se,
por um lado, importantes teóricos da democracia, como Robert Dahl e
Larry Diamond, parecem vê-la como sinônimo de liberdade, existe uma
tradição de crítica à democracia, tanto no campo liberal quanto no
conservador. Todos os críticos sabiam que a idealização ou a avaliação
acrítica de um instrumento político poderia abrir espaço para uma
tirania democrática, fosse ela representada por uma maioria ou por uma
minoria.
Esse
foi um dos pontos discutidos pelos federalistas na formação dos Estados
Unidos: impedir que as facções dominassem a política. Como definiu
Alexander Hamilton no “Federalista nº 10”, usando o pseudônimo Publius, a
facção era formada por “certo número de cidadãos, quer correspondam a
uma maioria ou a uma minoria, unidos e movidos por algum impulso comum,
de paixão ou de interesse, adverso aos direitos dos demais cidadãos ou
aos interesses permanentes e coletivos da comunidade” (Os Artigos
Federalistas – 1787-1788, Nova Fronteira, 1993).
Outro
Pai Fundador dos Estados Unidos, o advogado John Adams, fez um
diagnóstico preciso da democracia numa carta datada de 17 de dezembro de
1814 e endereçada ao filósofo e político John Taylor:
“Lembre-se,
a democracia não dura muito tempo. Logo se desgasta, se esgota e se
destrói. Não houve democracia que não tenha se suicidado. É inútil dizer
que a democracia é menos enganosa, menos soberba, menos egoísta, menos
ambiciosa ou menos avarenta do que a Aristocracia ou a Monarquia. De
fato, não foi menos em nenhum momento da História. Mas essas paixões que
a constituem são semelhantes em todos os homens sob quaisquer formas de
governo, que, quando não limitado, produz resultados similares, como
fraude, violência e crueldade”.
Não
existem formas de governo puras nem perfeitas. Todas as atualmente em
vigor misturam partes de modelos já testados. A confusão se estabelece
quando há conflitos entre partes de sistemas que se tentou combinar. A
situação é ainda mais grave quando se adota ou se impõe uma forma de
governo completamente estranha à cultura política local. É o caso do
Brasil.
Geralmente,
a democracia é celebrada por algo que ela não é, que não pode entregar,
que não tem condições de assegurar. Por si só, a democracia não é capaz
de garantir que os melhores ascendam ao poder, que o eleitor seja
racional, que os poderes políticos sejam limitados e controlados, que as
liberdades sejam respeitadas.
É
um erro, portanto, depositar fé na democracia como sistema justo,
equitativo, quiçá perfeito. Não é, jamais será. Até porque, sendo
instrumento, depende de homens imperfeitos para ser posta em uso. Por
essa razão, a democracia não tem capacidade de resolver todos os
problemas políticos. E os incentivos que ela produz criam mais questões
do que soluções.
O
corolário dessa impossibilidade se manifesta na população por meio de
uma espécie de cansaço da democracia e das elites políticas. A cada vez
que a democracia não entrega aquilo que se desejou, emergem desilusão e
ressentimento, péssimas opções e escolhas políticas seguidos do anúncio
de sua morte com caudalosos e celebrados obituários. Os mais recentes e
influentes são Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel
Ziblatt, e O Povo contra a Democracia, de Yascha Mounk.
A
maneira mais adequada de lidar com a democracia é não alimentar ilusões
a seu respeito. Muito menos idealizar a política, políticos, formas e
regime de governo. Só assim é possível corrigir o que dá para ser
corrigido e controlar as consequências negativas de seus vícios
insanáveis. Pelo menos até que consigamos desenvolver um novo modelo que
seja menos ruim do que todos os outros que foram tentados ao longo do
tempo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário