Abusos politicamente
corretos causam baixas entre seus próprios defensores; o último foi o
escritor holandês que despencou do topo do mundo literário, escreve
Vilma Gryzinski na coluna Mundialista:
Não está fácil ser de
esquerda pura e dura ultimamente. Se o renascimento da direita, desde
mundo civilizado até as nossas plagas, infundiu um novo ânimo a seus
antagonistas naturais, os autodenominados progressistas também se
entredevoram em disputas obscuras, no mundo acadêmico e outros nichos.
Feministas radicais
contra todo mundo que tenha cromossomo Y, outras feministas radicais
“contra” transgêneros – defendendo que ninguém pode se “tornar” mulher
sem passar pelo vale de lágrimas que enxergam na condição feminina – são
um dos desdobramentos mais curiosos dessas lutas internas.
“Quando homens com
grande poder econômico como o produtor Harvey Weinstein são os
abusadores, a coisa muda, disse ela. “Se você abre as pernas porque ele
diz ‘seja boazinha e te dou um papel num filme’, isso equivale a
consentir e agora é tarde demais para ficar reclamando”.
O #MeToo também
derrubou o fino, equilibrado e elegantemente progressista Ian Buruma,
escritor holandês radicado nos Estados Unidos, onde havia assumido a
direção do The New York Review of Books.
É o mais importante
jornal literário do mundo – só rivaliza com o inglês, sua ex-cria, em
nomes, temas e reações entre o pessoal que usa paletó com reforços de
couro nos cotovelos, o estereótipo do professor universitário/escritor
encastelado na academia.
Buruma caiu por três
motivos. Primeiro, achou que os casos de abuso não penalizados
criminalmente abriam um terreno instigante para discussão. Como é ser
acusado, perder o emprego, a carreira, a reputação?
Segundo, achou que a
discussão poderia ser travada em termos racionais e até provocativos,
entre adultos, esquecendo-se que o “autoritarismo liberal” é um fenômeno
em plena expansão.
Terceiro, fez tudo isso no momento em que os Estados Unidos estão mesmerizados com o caso de Brett Kavanaugh.
Nomeado por Donald
Trump para a Suprema Corte, estava a um passo da aprovação quando
apareceu uma psicóloga dizendo que, durante uma cervejada entre
adolescentes, foi agarrada e apalpada por ele num quarto escuro. Na
época, ela tinha 15 anos e ele, 17.
O caso não permite
dúvidas: Kavanaugh vai se ferrar. Qualquer questionamento à acusadora,
Christine Blasey Ford, será considerado uma prova irrefutável de
machismo. Os mais de trinta anos transcorridos desde e episódio
denunciado? Contextualização? Esclarecimentos?
À falta de uma reviravolta cinematográfica, nada será possível.
Quem está com Trump,
vai ter que enfiar a viola no saco para não parecer um misógino
hediondo. Quem está contra, já saboreia de canudinho a cabeça do juiz.
SELVAGEM DO SEXO
Buruma, obviamente, é
da turma contra Trump e acha, entre inúmeras outras definições
refinadas e chiques, que “a retórica fascista está se infiltrando de
volta”, num processo chamado de normalização.
Também já criticou as
atuais “erupções de hipermasculinidade”, entre as quais inclui gestos
que considera falsos de Trump, uma maneira de disfarçar um “homenzinho
branco assustado por ter perdido o controle”. E outros blablablás sobre
“machismo político” do tipo.
O que não o ajudou em
nada quando abriu espaço para Jian Gomeshi, um jornalista canadense de
origem iraniana, bonitão e bem sucedido, despachado para o Hades depois
de ser acusado por várias ex-namoradas de dar tapas, socos e mordidas
durante o sexo.
Como é praticamente
impossível – sem os procedimentos investigativos habituais – diferenciar
sexo selvagem de selvagem fazendo sexo, Gomeshi foi absolvido pela
justiça canadense. Num dos casos, fez um acordo de conciliação.
Nem é preciso dizer que Gomeshi também é da tribo progressista e fazia o maior sucesso num programa de entrevistas de televisão.
”Eu me tornei uma
hashtag”, era o título de seu artigo fatídico. Se passar por coitadinho
não pegou bem para ele. E pegou muito pior para Buruma, que ainda deu
uma entrevista defendendo sua decisão.
“É bem irônico: como
diretor do New York Review of Books, publiquei um número dedicado aos
perpetradores do tipo #MeToo que não haviam sido condenados pela
justiça, mas sim pelas redes sociais.”
“Agora, eu mesmo fui condenado pelo Twitter, sem o devido processo legal.”
Bye, bye, Buruma. O
escritor e ensaísta é um especialista em China e Japão – com duas
esposas nipônicas no currículo – e provavelmente vai sobreviver fora do
Olimpo literário onde estava há pouco tempo.
Talvez até descubra
as delícias secretas do pensamento não dominado pelas amarras mais
exageradas do politicamente correto, como aconteceu com a escritora
Lionel Shriver (mulher, apesar do nome de homem).
Ela cometeu a
loucura, do ponto de vista do universo da intelectualidade progressista,
de criticar a Penguin Random House por se comprometer que até 2025
todos os livros publicados refletiriam a composição populacional da
Grã-Bretanha, “levando-se em conta etnia, gênero, sexualidade,
mobilidade social e deficiências”.
TURBA DIGITAL
Shriver, americana
radicada em Londres e autora do livro que virou filme Precisamos Falar
sobre o Kevin, acha que a editora deveria publicar os melhores livros
que estivessem a seu alcance, não estabelecer cotas.
“A Random Penguin
House não considera mais que sua raison d’être é a aquisição e
disseminação de bons livros. Em lugar disso, pretende espelhar as
porcentagens das minorias no Reino Unido com precisão estatística.”
Para piorar a
situação, ela também disse que o manuscrito de “um transgênero gay
caribenho que abandonou a escola aos sete anos” seria publicado quer
fosse ou não “um monte de papel reciclado tedioso, incoerente e
confuso”.
Foi massacrada.
Agora, transformou-se em provocadora profissional. Seu último artigo na
Spectator diz que a questão dos transgêneros tomou o lugar da causa
homossexual como bandeira.
Vê muitas pessoas
ansiosas, sussurrando que “talvez não seja certo dizer a crianças de
três ou quatro anos que têm que ‘decidir’ a qual gênero pertencem, numa
idade em que sequer compreendem o que é gênero”.
Ou que talvez operações de mudança de sexo não sejam invariavelmente “a cura para problemas que sobrevivem intatos à cirurgia”.
Pode ser até que exista um contexto social induzindo a disseminação dos casos de transgêneros?
Nossa, se Lionel Shriver continuar assim vai acabar acreditando na “ideologia de gêneros”. Um perigo.
Talvez até, quem
sabe, Ian Buruma, entre para a turma dos que preferem estudar, conhecer e
escrever sobre situações complexas, com todas as nuances, sem medo das
fogueiras da turba digital.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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