Hebe
Bonafini é o nome dessa triste figura argentina, atualmente fugindo da
polícia. Sua ficha suja ultrapassa a de muitos bandidos profissionais:
desvio de verbas públicas, protetora de parricidas e por aí vai. Aos 87
anos, é fugitiva da justiça. Segue texto de Vilma Gryzinski (Veja.com):
O lenço
branco na cabeça evoca uma saga de coragem quase inconcebível, do tipo
que só mães desesperadas conseguem ter. Hebe de Bonafini foi uma dessas
mães, as que andavam pela Praça de Maio num silêncio que dizia tudo:
queriam saber de seus filhos, jovens militantes de esquerda devorados
pela máquina de triturar gente da ditadura argentina.
Ontem, no
mesmo lugar, quase trinta anos depois da caminhada pioneira das
mulheres que se tornariam conhecidas como Mães da Praça de Maio, Hebe
desafiou uma ordem judicial de detenção, por ter se recusado a prestar
depoimento num dos mais escandalosos casos de desvio de dinheiro público
da Argentina. Cercada de simpatizantes kirchneristas, subiu num
utilitário e furou o cerco policial.
Seria seu
último ato heróico se não fosse pelo degradante processo de corrupção
moral – para não falar na do tipo mais convencional – em que esta mulher
hoje com 87 anos afundou.
O caso
atual já vem de vários anos e envolve o desvio de verbas públicas, no
total d 50 milhões de dólares, destinadas à Fundação Mães da Praça de
Maio para a construção de casas populares.
O fato de
que uma instituição dedicada à defesa dos direitos humanos tenha
entrado no ramo da construção civil já demonstra as distorções da era
Kirchner. Mais incrível ainda são as pessoas de quem Hebe se cercou para
cuidar da fundação e, principalmente, das verbas: os irmãos Pablo e
Sergio Schoklender, assassinos dos próprios pais.
Em 29 de
maio de 1981, os dois estavam na sala do apartamento da família quando a
mãe acordou e os interrompeu. Pablo arrebentou a cabeça dela com uma
barra de ferro usada em musculação. Ainda estava viva quando Sergio a
estrangulou. Os irmãos discutiram se deviam também matar o pai, que
dormia, e concluíram que sim. Enrolaram os corpos em lençóis e sacos de
lixo e puseram no porta-malas do carro da família.
Com
dinheiro roubado dos pais, foram para um hotel de Mar del Plata, onde
Sergio chamou uma garota de programa. Acabaram presos, condenados e
transformados em celebridades carcerárias. Hebe os conheceu lá e os
recebeu, com empregos, quando terminaram a pena. Rapidamente, Sergio se
tornou o homem forte da fundação, provocando os previsíveis boatos.
Hebe de
Bonafini já havia se transformado numa esquerdista de paródia, do tipo
que usa palavrões para todos os que não pensam exatamente do mesmo jeito
e olhos profundamente fechados para todo o resto. Quando aconteceu o 11
de setembro, disse que brindava com champanhe. Amava Hugo Chávez e
recebeu de Néstor Kirchner e depois de Cristina o que mais queria: a
reabertura dos processos contra militares da ditadura.
Entre
outros, foi condenado a prisão perpétua o ex-capitão Alfredo Astiz,
conhecido como Anjo Louro. Infiltrado nas Mães da Praça de Maio como
parente de preso desaparecido, ele foi responsável pela captura, tortura
e morte da fundadora original, Azucena Villaflor, e outras mulheres do
grupo, incluindo duas freiras francesas cujo caso deu uma dimensão
internacional à barbárie argentina.
É
impossível falar de Astiz sem lembrar que, durante a Guerra das
Malvinas, ele comandava uma unidade da Marinha nas ilhas Georgias do
Sul, onde foi rendido e preso pelos ingleses.
Infelizmente,
também se tornou impossível falar nas mães que desafiaram a ditadura
sem evocar o histórico de Hebe de Bonafini, protetora de parricidas
corruptos e, inacreditavelmente, até de um general acusado de crimes
similares aos que tanto combateu, mas favorecido por ela porque Cristina
Kirchner o havia nomeado comandante do Exército.
A mulher que manchou com a desonra o lenço branco de uma causa nobre hoje é considerada fugitiva da justiça.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário