André Brant/Hoje em Dia
Luciene reclama da demora para obter vaga de internação para a mãe
Problema crônico, a escassez de leitos em Belo Horizonte não contará
com o tão esperado reforço da rede privada. Dos 18 projetos de ampliação
e construção de novos hospitais na capital, anunciados em 2013, só dois
estão em execução e um aguarda aprovação da prefeitura. Das 2.800 vagas
de internação previstas no ano passado, apenas 670, cerca de 75% a
menos, serão criadas.
Segundo a Associação dos Hospitais de Minas Gerais (AHMG), a redução se
deve à lei 10.630, sancionada em julho de 2013. A norma alterou o uso e
ocupação do solo de BH e criou restrições às unidades de saúde. “Antes
de a lei ser votada, havia toda uma expectativa com relação à expansão
dos hospitais. Porém, o texto aprovado sofreu várias modificações e
inviabilizou os projetos”, aponta a coordenadora da comissão técnica de
infraestrutura e meio ambiente da AHMG, Renata Miari.
A principal restrição, explica a técnica, é a obrigatoriedade de se
oferecer o serviço de pediatria nos hospitais. Outro ponto polêmico
seria o potencial construtivo das edificações. Apesar de a lei permitir
ampliações, o mesmo não poderia ocorrer de forma vertical.
Belo Horizonte conta com 10.222 leitos, sendo 6.106 do Sistema Único de
Saúde (SUS) e 4.116 da rede privada. O número seria suficiente para
atender a toda população da capital. Porém, a cidade está sobrecarregada
porque concentra os atendimentos de alta complexidade. “Cerca de 50%
dos leitos existentes são ocupados por pacientes do interior, da região
metropolitana ou do interior”, destaca Renata Miari.
Necessidade
“O governo, de forma geral, acha que consegue, com os hospitais
públicos, prestar atendimento de qualidade ao cidadão, mas isso é
impossível. As administrações públicas se desfazem dos hospitais
privados. Hoje, grande parte das pessoas atendidas pelo SUS conta com as
unidades de saúde privadas”, afirma Robson Dias Cunha, que durante 35
anos atuou como consultor e administrador de hospitais em BH, como
Prontocor e Santo Ivo.
As alterações na lei obrigaram readequações no hospital Hilton Rocha,
no bairro Mangabeiras, região Centro-Sul. O edifício foi comprado pelo
grupo Oncomed, que pretende ampliar as instalações para criar o primeiro
centro oncológico de tratamento, diagnóstico e prevenção contra o
câncer de Minas Gerais. “Foram necessárias várias mudanças”, afirma o
diretor da Oncomed, Amândio Fernandes.
Entre os projetos remanescentes está a ampliação do hospital Unimed, no
bairro Santa Efigênia, na regional Leste. O projeto está em fase de
fundação e contenção do terreno. Após a conclusão dos trabalhos, 350
novos leitos serão gerados, mais que dobrando a capacidade de
atendimento atual.
Falta de vagas prejudica atendimento
A incapacidade da rede pública da capital de absorver a demanda local,
e de pacientes do restante do estado, gera transtornos aos usuários do
SUS. Internada na UPA Barreiro com problemas cardíacos, a aposentada
Luiza Petrina de Melo, de 72 anos, aguardava, desde a última
terça-feira, uma transferência.
A família foi à UPA duas vezes, mas a mulher só foi internada na
segunda consulta. Antes, os parentes tiveram que levá-la a um
cardiologista particular e desembolsar R$ 250. “Voltamos à UPA com um
atestado indicando, com urgência, a colocação de um marca-passo. Ela
está sendo bem cuidada na UPA, mas precisa da cirurgia e não pode fica
lá”, conta a filha de Luiza, a educadora Luciene Scognamill.
Na última sexta-feira, a Secretaria Municipal de Saúde informou que a
aposentada estava cadastrada na Central de Internação como prioridade e
estaria sendo monitorada. “Por se tratar de uma paciente com problema
cardíaco, é necessário a transferência para leito de alta complexidade
em cardiologia”, informou a nota. Só neste ano, mais de 235 mil
internações foram realizadas em Belo Horizonte pela rede SUS.
Novos leitos
Sobre a redução dos leitos particulares, a secretaria municipal
informou que o projeto de lei que originou a lei 10.630 foi amplamente
discutido com a sociedade, por meio dos vereadores e representantes do
setor hospitalar.
Ainda segundo o órgão, está em construção o Hospital Metropolitano Dr.
Célio de Castro. Com 13 andares, serão oferecidos 439 leitos. Desde
2009, foram abertos 934 vagas na capital.
Reclamações crescem no sistema privado
A falta de leitos do SUS tem impacto direto na rede particular,
reforça a Associação dos Hospitais de Minas Gerais (AHMG). O poder
público se vê obrigado, muitas vezes por ações na Justiça, a recorrer à
iniciativa privada para internação dos pacientes. O déficit prejudica
diretamente os usuários dos planos de saúde, que têm como principal
reclamação a incapacidade de oferta da cobertura ideal.
Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as reclamações
referentes às operadoras aumentaram 20% em Minas, no primeiro semestre
deste ano. De janeiro a junho, foram 3.246 registros, contra 2.697 no
mesmo período de 2013.
A agência tem o objetivo de mediar os conflitos entre consumidores e
operadoras de planos de saúde. Em alguns casos, a comercialização dos
planos chega a ser suspensa. Os usuários podem reclamar pelo telefone
0800 701 9656, pelo site www.ans.gov.br ou em núcleos da ANS em 12
cidades brasileiras.
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