Após dez anos de expansão, a indústria de automóveis vive uma nova realidade
por Samantha Maia
—
publicado CARTA CAPITAL
Flickr / Rodrigo Soldon

As vendas e a produção de automóveis despencaram, mas as montadoras não interromperam seus planos de investimento
A indústria de
automóveis, produto-símbolo da ascensão econômica nos últimos anos,
reduziu a marcha em 2014. De janeiro a julho, as vendas de veículos
caíram 8,6% em relação a 2013 e a produção declinou 17,4%. No segundo
semestre, a situação deve melhorar, como costuma ocorrer todos os anos.
As montadoras preveem uma queda de 10% na produção de 2014. O resultado
negativo ocorre depois de nove anos ininterruptos de crescimento e um de
estabilização.
“O boom de investimentos da nova
classe C já aconteceu. Todo mundo está agora com carnê para pagar e não
tem fôlego para novos gastos”, diz Ricardo Bacellar, diretor da KPMG,
sobre a redução do consumo. O setor bancário contribuiu com a queda ao
tornar-se mais rigoroso na concessão de crédito, depois de sofrer
prejuízos com inadimplência. Há dois anos não se oferecem financiamentos
de 60 meses sem entrada e os juros subiram. Como resultado das
restrições, o saldo da carteira de crédito do setor deve diminuir 5%
neste ano, apesar do crescimento da participação das financeiras ligadas
às montadoras. Esse grupo de instituições respondeu por 56% do total de
financiamentos em 2013, fatia ampliada para 65% em 2014. “Não há
prejuízo nos novos negócios, a inadimplência caiu. As condições de
financiamento dificilmente vão melhorar, porque há um processo de
limpeza nas carteiras dos bancos”, explica Décio Carbonari, presidente
da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras.
O cenário negativo reflete-se no mercado
de trabalho. Foram 6 mil postos fechados desde o começo do ano, além de 7
mil empregados atingidos por medidas como férias coletivas, suspensões
temporárias e paradas técnicas, segundo levantamento da agência
Autodata. As companhias estão preocupadas com o acúmulo de veículos nas
fábricas. O estoque mensal nos pátios das montadoras, de 375 mil
veículos em média, em 2013, suficientes para suprir as revendedoras por
36 dias, subiu para 387 mil unidades em março (48 dias) e caiu para 383
mil unidades em julho (39 dias), resultado da redução da produção diante
do esfriamento do mercado. Para o Sindipeças, entidade representativa
das indústrias de autopeças, o pé no freio continuará em 2015 e a
produção só retomará o nível do ano passado em 2016.
Apesar da conjuntura pouco animadora, as
montadoras programam um total de 75,8 bilhões de reais em investimentos
até 2017 para ampliar a produção em 27%, para 5,7 milhões de veículos
por ano, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos
Automotores. “Os investimentos não podem cessar. A proposta é qualificar
o produto nacional para exportar não só para a América do Sul, mas os
Estados Unidos e a Europa”, diz Milad Kalume Neto, gerente da Jato
Dynamics, consultoria do setor. O mercado nacional pode experimentar uma
recuperação a partir de 2016 com o início de um novo ciclo de
substituição de automóveis usados por novos no mercado interno e melhora
das condições macroeconômicas, mas é importante apostar em outros
mercados, avalia Kalume Neto.
A visão de longo
prazo da indústria automotiva brasileira incorpora a tendência mundial
de crescimento do setor. “Em 2020, economias emergentes como China,
Brasil, Leste Europeu, Oriente Médio e América do Sul representarão mais
de 50% do mercado global de veículos leves”, prevê Michael Robinet,
diretor da IHS Automotive, uma das principais consultorias mundiais de
setores industriais.
A Fiat Chrysler, líder de mercado no
Brasil, mantém seu plano de investimento de 15 bilhões de reais entre
2013 e 2016. Segundo o presidente para a América Latina, Cledorvino
Belini, o desempenho fraco do ano não muda a expectativa da companhia.
“Mesmo que o mercado automobilístico esteja transitoriamente retraído, a
empresa vê um potencial de expansão muito animador para os próximos
anos. O Brasil se destaca com um mercado interno forte, com 200 milhões
de habitantes e uma classe média em crescimento.” Na avaliação do
executivo, a retração das vendas é resultado das pressões inflacionárias
iniciadas no ano passado e seu impacto na confiança do consumidor,
somadas à redução no ritmo da liberação de crédito. Na segunda-feira 11,
a Fiat em Betim (MG) iniciou uma interrupção de dez dias na produção
para reduzir em 10 mil veículos a produção do mês.
Quando a Toyota do
Brasil anunciou, em 2009, o investimento em uma nova fábrica em
Sorocaba, no interior de São Paulo, visava ampliar sua participação no
mercado brasileiro no longo prazo, explica o gerente Ricardo Bastos.
Hoje a empresa opera a plena capacidade nas quatro unidades instaladas
no País e espera manter neste ano o patamar de produção de 2013, de 176
mil veículos. “No fim do ano passado, previmos uma desaceleração, em
parte como consequência do próprio crescimento do setor nos últimos seis
anos, período em que dobrou de tamanho e agora passa por uma fase de
estabilização”, diz o executivo. A companhia acredita na abertura de
novos negócios, voltados para a exportação. “É um trabalho em sincronia
com o Inovar-Auto, o programa federal para incentivar a produção
nacional, pois não se pode depender apenas do mercado interno.”
No curto prazo, a Anfavea acredita
existir um conjunto de fatores capazes de impulsionar as vendas no
segundo semestre. Entre as medidas mais importantes estão a definição
das taxas de financiamento de caminhões, ônibus e máquinas agrícolas
pelo Programa de Sustentação do Investimento, do BNDES, no começo do ano
e a assinatura, em julho, do acordo automotivo com a Argentina, depois
de um ano de comércio travado. Somam-se o conjunto de medidas recentes
do Banco Central para aumentar a liquidez no mercado e a manutenção das
alíquotas de IPI reduzidas. A dinamização do setor depende ainda da
recuperação do crescimento da economia e do aumento da competitividade
das montadoras a partir dos investimentos realizados em expansão e
modernização.
Neste ano, as montadoras receberam mais
recursos do exterior do que remeteram às suas matrizes. Segundo dados do
Banco Central, os aportes estrangeiros no setor no primeiro semestre
deste ano, de 1,3 bilhão de dólares, foram 52% superiores àqueles do
mesmo período de 2013. As remessas de lucro foram 61% menores nos
primeiros seis meses do ano (616 milhões de dólares) em comparação aos
valores remetidos às matrizes de janeiro a junho de 2013. “Houve uma
mudança de tendência. Hoje os lucros são investidos no Brasil e as
empresas estão otimistas por se verem em condições de cumprir o seu
papel”, comenta Bacellar.
As decisões acompanham o movimento da
indústria automobilística mundial. “O momento atual caracteriza-se por
um aumento drástico da intensidade da concorrência. O investimento no
progresso técnico é uma arma decisiva das montadoras e ocorre a taxas
sem precedentes. Em setores de menor lucratividade como a indústria
automobilística, a competição é tão intensa que a as empresas ousam não
cortar seus investimentos”, diz o economista Peter Nolan, da
Universidade de Cambrige, em seu livro Chinese Firms, Global Firms: Industrial Policy in the Era of Globalization,
de 2014. Mais do que otimismo, a aposta das fabricantes de veículos no
Brasil reflete o alinhamento estratégico mundial do setor.
*Reportagem publicada originalmente na edição 813 de CartaCapital, com o título "Redução de marcha"
Nenhum comentário:
Postar um comentário