Por imperativos eleitoreiros, Bolsonaro e seus aliados intensificam investida contra leis e dispositivos que dificultam a pilhagem do Estado e a destruição das contas públicas. Editorial do Estadão:
O
presidente Jair Bolsonaro e seus aliados no Congresso intensificaram
sua ofensiva contra o conjunto de leis e dispositivos que dificultam a
pilhagem do Estado e a destruição das contas públicas. Para os
propósitos eleitoreiros dos bolsonaristas, essa cidadela republicana,
responsável pela estabilidade da economia e pela redução da corrupção,
tem de ser arruinada. O motivo é óbvio: onde há regras que limitam
gastos públicos e que impõem boa governança em estatais, há pouco espaço
para gastança populista e para o aparelhamento corrupto de empresas que
devem servir ao País, e não ao grupo que está temporariamente no poder.
O
alvo mais recente dessa ofensiva é a Lei das Estatais, um dos maiores
marcos aprovados pelo Legislativo dos últimos anos. Meses após o
impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o Congresso conseguiu
elaborar um conjunto de normas que representaram o resgate da moralidade
e estabeleceram padrões civilizados de governança nas empresas
públicas. O texto, sancionado em junho de 2016, consolidou princípios de
transparência, eficiência e boa gestão para as empresas públicas e
sociedades de economia mista. A lei estabeleceu regras para a escolha de
diretores e conselheiros, proibiu a indicação de dirigentes
partidários, ministros, sindicalistas e parlamentares e passou a exigir
comprovação de experiência prévia dos candidatos a cargos executivos.
Muito
se fala sobre a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências
e na necessidade de avaliação constante de seus resultados. No caso das
estatais, talvez não haja prova maior do sucesso dessa legislação do
que os balanços financeiros. A Petrobras, principal vítima do
intervencionismo estatal nos governos petistas, conseguiu rapidamente
reverter uma trajetória de perdas bilionárias e obteve lucros
expressivos. Surpreendentemente, isso se tornou um problema para a
classe política e tem servido como desculpa para questionar a jovem Lei
das Estatais.
Bolsonaro,
por exemplo, acusou a Petrobras de registrar um lucro “absurdo” e
sugeriu que o comando da empresa atua contra o País. Por isso, quer
colocar na direção da Petrobras um obediente apaniguado, embora esse
indicado não tenha experiência na área de petróleo, como exige a Lei das
Estatais. Ato contínuo, o presidente da Câmara, Arthur Lira, sugeriu ao
Executivo que envie uma Medida Provisória, com força de lei desde a
data de sua publicação, para alterar a Lei das Estatais.
Bolsonaro
elegeu a Petrobras como inimiga do País com o objetivo de mobilizar sua
base e, principalmente, desviar o foco do fracasso de seu governo. Para
o Centrão, no entanto, trata-se de uma imperdível oportunidade para
retomar o poder que o grupo tinha nas empresas públicas. Descoberto nos
governos petistas, o petrolão contou com a participação direta de
partidos como o PP de Lira. O presidente da Câmara afirmou que a mudança
na lei seria uma forma a assegurar “maior sinergia entre as estatais e o
governo do momento”, o que é a senha para a submissão das empresas aos
interesses políticos do governo, o exato oposto do que preconiza a Lei
das Estatais.
Assim
como o teto do ICMS para bens essenciais, mudar a Lei das Estatais não
derrubará os preços dos combustíveis, mas aumentará as chances de a
Petrobras voltar a ser saqueada pelo governo de turno e seus aliados.
Essa estratégia diversionista começa a ficar repetitiva – elevar os
benefícios do Auxílio Brasil para vulneráveis foi a desculpa para
destruir o teto de gastos e violar a Lei de Responsabilidade Fiscal, dar
calote nos precatórios da União, garantir recursos para o fundo
eleitoral e manter o pagamento integral das emendas de relator. Destruir
os pilares macroeconômicos teve resultados imediatos na bolsa, nos
juros e no valor da moeda, mas também para a população, ampliando a
corrosão do poder de compra das famílias. A intervenção na Petrobras
também terá efeitos trágicos – e já se sabe quais são eles. Se não for
impedido, o governo Bolsonaro deixará como legado a destruição do
aparato de proteção do Estado contra os cupins da República.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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