Os avanços russos aumentam o cardápio de opções ruins para a Ucrânia. Vilma Gryzinski:
Nós
somos os elfos e os russos são os orcs. Assim, recorrendo à mitologia
do Senhor dos Anéis, muitos ucranianos descrevem a guerra que os
vizinhos brutais impuseram a seu país. A referência aos hediondos orcs
pegou e virou uma designação comum para os soldados que bombardeiam,
matam, estupram, sequestram e saqueiam. Apesar da ingenuidade da
comparação, poucas vezes vimos, em nosso tempo histórico, uma luta tão
clara entre o bem e o mal. Infelizmente, a vida real não é um filme
hollywoodiano com final feliz garantido. Depois de quebrarem,
literalmente, a cara numa invasão mal planejada, mal municiada de
informações e mal executada, os orcs estão recuperando terreno e todo
mundo está vendo o resultado: um avanço sistemático, baseado no velho
conceito bélico de terra arrasada. Os ucranianos não têm elemento humano
nem poder de fogo para enfrentar o bombardeio arrasador que está
abrindo caminho ao avanço russo nas regiões separatistas. De sessenta a
100 combatentes ucranianos estão morrendo por dia e mais 500 ficando
feridos, segundo um balanço surpreendentemente franco feito por
Volodymyr Zelensky, o presidente que promete a vitória e a integridade
territorial da nação, mas sabe muito bem que em algum momento terá de
fazer concessões, mesmo que seja apenas para uma paz definida pela
ausência da guerra, ao contrário do que pregava Spinoza.
A
escola realista acredita que essa é a opção menos ruim para a Ucrânia. A
alternativa é ser sistematicamente arrasada e sofrer perdas humanas
devastadoras — para acabar cedendo do mesmo jeito no final. Já que não
tem como arrancar uma vitória a um inimigo maior e mais poderoso (além
de nuclearizado) e vai perder território mesmo, mais além das zonas sob
ocupação russa antes de 24 de fevereiro — o contrário seria uma
“fantasia”, ridicularizou o chanceler russo, Sergei Lavrov —, que evite
fazer isso quando estiver no fundo do poço. Henry Kissinger causou um
rebuliço tremendo ao defender esse espinhoso — e injusto — caminho.
“Espero que os ucranianos mostrem tanta sabedoria quanto têm mostrado
heroísmo”, apelou, provocando Zelensky a fazer uma furiosa comparação:
“Parecia que ele não estava falando em Davos, mas em Munique” — palco da
trágica tentativa europeia de apaziguar a Alemanha nazista, mesmo
quando todas as evidências mostravam que nenhuma concessão deteria os
planos de conquista de Adolf Hitler.
Uma
escola que vem sendo chamada de maximalista advoga o oposto: poupar
Vladimir Putin de uma “humilhação”, como defende Emmanuel Macron, só vai
alimentar o troll — ou orc. Seus defensores são os “próximos da lista”:
países bálticos e Polônia, antigos integrantes, forçados, da esfera
russa. Também há uma corrente dentro do governo ucraniano que,
silenciosamente, defende concessões zero ao inimigo. Só pela força, a
única língua compreensível pelo vocabulário político russo, será
possível neutralizar o expansionismo putinista, argumentam. E Putin, em
vez de poupado, precisa ser humilhado.
As
próximas semanas vão mostrar para qual lado a Ucrânia será levada a
pender. Nenhum deles é fácil, mesmo para quem compreende a árida
sabedoria de Spinoza ao diagnosticar: “O máximo de liberdade a que um
ser humano pode aspirar é escolher a prisão na qual vai viver”.
Publicado em VEJA de 15 de junho de 2022, edição nº 2793
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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