O protótipo do programa de governo petista é uma reedição revista e ampliada do desastre. Ubiratan Jorge Iorio para a revista Oeste:
No
último dia 6, o Partido dos Trabalhadores levou ao conhecimento do
público o protótipo de um programa para um eventual governo daquele que
se qualifica como a mais honesta de todas as almas. Intitulado
“Diretrizes para o programa de reconstrução do Brasil”, o documento
enumera as providências que, no seu entendimento, irão restaurar o país —
o mesmo que eles arrasaram com as políticas desastradas que perpetraram
entre 2003 e 2016. Na verdade, trata-se de uma reedição, revista e
ampliada, do desastre.
São
18 páginas que arremetem contra a lógica econômica, espancam princípios
morais e aplicam coças nas liberdades individuais e em que,
flagrantemente, revelam uma incapacidade inacreditável de não aprender
com todos os tipos de erros — os dos outros e os próprios, os
involuntários e os intencionais, os veniais e os capitais. E tudo isso
redigido com um cinismo impressionante e maculado de subterfúgios para
esconder o real propósito, que é o de completar o serviço interrompido
em 2016 pelo impeachment. O programa é uma demonstração inequívoca de
que o devaneio do socialismo não acabou.
O
texto, suportável para quem é dono de um razoável estoque de paciência,
enfeixa uma introdução e quatro blocos: desenvolvimento social e
garantia de direitos; desenvolvimento econômico e sustentabilidade
socioambiental e climática; defesa da democracia; e reconstrução do
Estado e da soberania. Não deixa de ser uma leitura recomendável,
principalmente para que se aprenda tudo o que não deve ser feito.
Mais do mesmo
O
estrupício começa a manifestar desprezo pela memória dos leitores no
segundo parágrafo da apresentação, em que estabelece como objetivo “a
criação de um projeto inovador e portador de futuro”, com vistas a
construir “um Brasil para todos os brasileiros e brasileiras”. Em
seguida, desfere a segunda rasteira, afirmando que a união das “forças
progressistas e democráticas” não é apenas para buscar a vitória na
eleição, mas reconstruir e transformar o Brasil: “Neste momento
histórico decisivo, conclamamos todas as forças sociais, políticas e
econômicas comprometidas com a democracia, com a soberania e com o
desenvolvimento a somarmos esforços para reconstruir o Brasil,
resgatando as forças, o otimismo e a esperança do povo brasileiro”.
Projeto
inovador ou hino ao atraso? Portador de futuro ou recondutor a um
passado fracassado? Forças progressistas e democráticas ou retrógradas e
autoritárias? Reconstrução e transformação do Brasil ou destruição da
reparação que vem sendo feita desde 2019? Desenvolvimento ou retorno aos
voos de galinha? Democracia com admiração por ditadores? Soberania com
adesão ao figurino globalista? Ora, parem de tergiversar e de subestimar
a inteligência dos eleitores! Em 13 anos no poder — que, somados aos
oito do então partido do seu patético pré-candidato a vice, perfazem
mais de duas décadas —, que inovações, futuro, progresso, contribuição
efetivamente positiva, soberania e desenvolvimento eles promoveram?
Não
há novidades no documento. Ele nada mais é do que a confirmação — em
tom menos raivoso e ligeiramente menos hostil ao português — do que o
candidato petista vem apregoando diariamente, em tom artificialmente
colérico, sempre em ambientes restritos a acólitos subservientes. O fato
é que as intenções listadas no documento são claríssimas e configuram a
rejeição a todo e qualquer respeito às liberdades individuais.
Venezuelização
Na
economia, prometem “um projeto nacional de desenvolvimento justo,
solidário, soberano e sustentável, superando o modelo neoliberal, que
levou o país ao atraso”. Entretanto, para tal, voltam ao discurso dos
anos 1950 de fortalecimento do mercado interno e falam em ressuscitar as
“capacidades estatais com potencial de gasto social” e fortalecer o
investimento público.
Para
superar o tal modelo neoliberal — que só existe em suas narrativas —,
propõem um conjunto de retrocessos, entre os quais: o fim do teto de
gastos; a implosão da reforma trabalhista; o fortalecimento dos
sindicatos; a revogação da autonomia do Banco Central; a reestatização
de empresas privatizadas pelo governo atual; a extinção do programa de
desestatização; a censura da internet e da mídia em geral, com os nomes
fantasia de “regulação”, “controle social”, “combate a fake news” e
“enfrentamento a discursos de ódio”; a tributação de “grandes fortunas”
(com exceção das próprias, naturalmente); a criação de novas estatais;
controles de preços considerados “estratégicos”; o restabelecimento do
papel dos bancos públicos como principais agentes de crédito; a adesão à
pauta ambientalista radical, com redução de emissões e transição
energética; o comprometimento com o autoritarismo da Agenda 2030 da ONU;
o retorno explícito à política externa de alianças com ditaduras de
esquerda da América Latina e do resto do mundo. Para completar, não
mencionam como pretendem cumprir algumas dessas promessas, aprovadas no
Parlamento e transformadas em leis.
Não
é necessário comentar os estragos que essas políticas econômicas
causariam ao país, uma vez que o leitor de Oeste está familiarizado com
todos os males que o intervencionismo acarreta. O que é realmente
espantoso é ainda existir quem dê crédito a tamanho monturo de
barbaridades. Tudo o que pretendem fazer agride a lógica econômica mais
elementar. Parece que enxergam o Estado como um médico sem princípios
éticos e autorizado a praticar a eutanásia da prosperidade.
Todavia,
a abertura da estrada para a “venezuelização” não se limita às
sugestões de medidas econômicas. Elas são apenas uma parte do projeto.
Há muitos outros perigos no programa, encobertos sub-repticiamente pela
manipulação da linguagem. Algumas de suas pautas são fartamente
conhecidas, como a introdução definitiva da ideologia de gênero goela
abaixo da população; o aparelhamento do Estado; o racismo fantasiado de
“dívida histórica”; o feminismo radical; a desconstrução dos valores
ocidentais, a começar pela família; a abolição da verdadeira história da
nossa nação, substituída por narrativas distorcidas; a bandidolatria,
com suas audiências de custódia, liberações de preços, visitas
“íntimas”, “saídas” e “furtos por necessidade”; a desmilitarização das
polícias; a radicalização do politicamente correto; o uso da linguagem
neutra; as práticas sindicalistas e outras aberrações.
Quem
duvida dessas intenções precisa olhar para a verdadeira eutanásia do
país que o chavismo-madurismo promoveu na Venezuela, em apenas duas
décadas; para a assustadora deterioração da economia e da sociedade da
Argentina, que o peronismo-kirchnerismo produziu em três anos; e para o
início do mesmo processo, que ora acontece no Chile do ultraesquerdista
Gabriel Boric.
É
dever moral e demonstração de amor aos descendentes e ao Brasil
mostrar, para quem ainda se ilude com as ideias defendidas no documento,
que no fim deste ano a escolha não será apenas entre dois candidatos,
um de “direita” e outro de “esquerda”. O galo vai cantar em um terreiro
muito maior, porque o que vai ser decidido pelos eleitores é se
valorizam de fato sua liberdade ou se vão aceitar ser escravizados por
uma ideologia desumana.
Esse
dever se estende às escolhas para deputados, senadores e governadores.
Os brasileiros precisam rejeitar toda e qualquer ideia contrária ao
livre exercício das liberdades individuais. Acreditar em “terceira via”,
nas condições atuais, além de ingenuidade ou oportunismo, é falta de
patriotismo. Certos liberais e conservadores metidos a espertos têm o
direito de não gostar do presidente, porém, prioritariamente, têm o
dever de zelar pelo futuro de seus filhos e netos e de amar o país em
que nasceram e vivem.
Se
as ideias coletivistas listadas no programa suicida saírem vitoriosas
das urnas — o que parece ser bem pouco provável, pois os eleitores
atualmente já não são mais idiotas teleguiados como no passado —, em
pouco tempo estaremos pareando com a Argentina e o Chile. E em viagem
rumo à Venezuela e a Cuba.
O Brasil não merece isso.

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