Na relação tensa e conflituosa entre público e imprensa, alguém precisa dar o primeiro passo e, de alguma forma, propor uma trégua.
Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:
Ontem
houve uma enorme manifestação de apoio ao presidente Jair Bolsonaro no
Rio de Janeiro, com centenas ou até milhares ou até dezenas de milhares
de motociclistas. Até aí, tudo bem. Faz parte da democracia e, como já
escrevi neste espaço, o bolsonarismo é um movimento legítimo, com
demandas legítimas que precisam ser, no mínimo, ouvidas com respeito.
Mas
tinha um repórter da CNN no meio do caminho. No meio do caminho tinha
um repórter da CNN. Mais especificamente Pedro Duran. Que foi alvo de
hostilidades por parte dos manifestantes e precisou sair escoltado pela
polícia. “Lixo! Lixo! Lixo”, gritavam os apoiadores do presidente.
Assim
que as imagens começaram a circular pelas redes sociais, o mundo se
dividiu entre os que odeiam abertamente a imprensa e os que também a
odeiam, mas por oportunismo disfarçam e hoje posam de democratas. Entre
esses últimos, estão alguns jornalistas que se esquecem de todo o
esforço lulista para cercear a liberdade de expressão e transformar a
imprensa no braço propagandístico do PT.
O
fato é que, deixando de lado os arroubos autoritários de uns e outros, a
população em geral não gosta de imprensa. Têm até aversão a ela. E
expressa essa aversão por meio do desprezo. A tal ponto que, para
alguns, uma notícia distribuída anonimamente por WhatsApp às vezes tem
mais credibilidade do que a notícia com o selo jornalístico de
qualidade, isto é, que passou por um processo de apuração.
Mais
do que apontar o espírito obviamente antidemocrático de certos grupos
ou sair por aí chamando o leitor, espectador e ouvinte de ignorante (ou
pior, fascista), acho que vale a pena tentar entender de onde surgiu
tamanho ruído. Um ruído tão alto e incômodo que, aos poucos, vai minando
nossa capacidade de conversar e, por consequência, transforma a relação
entre o emissor e receptor da mensagem numa relação de força. Isto é,
numa guerra.
Intenção
Claro
que compreender esse fenômeno exige tempo, além de um bocado de
humildade e de honestidade intelectual – insumos bastante escassos no
debate público. E este texto tampouco pretende tratar de todos os
aspectos do anti-imprensismo. Que, só para não dizerem que não falei,
para mim tem mais a ver com uma profunda crise de confiança em todas as
instituições democráticas do que com uma birrinha específica entre
imprensa e público.
Um
aspecto que quero ressaltar aqui, a fim de que comecemos a tentar
entender essa dinâmica em franca deterioração, está na “intenção”. Isto
é, no que motiva os jornalistas a se levantarem todos os dias para levar
ao leitor, ouvinte e espectador notícias e análises. Há não muito
tempo, essas intenções eram claras e virtuosas: retratar a realidade e
fiscalizar o Estado a fim de aprimorar a sociedade e garantir liberdade.
Hoje
a intenção é outra: transformar a realidade e fiscalizar o Estado a fim
de construir um mundo novo, assentado sobre outras bases que não a da
tradição judaico-cristã. Em termos mais palpáveis, minar a própria
democracia mantendo um estado permanente de tensão entre sociedade e
Estado. E os leitores percebem isso e se revoltam.
Exemplo
dessas intenções tortas (que muitos de nós aprendemos na faculdade) é
aquilo que, na falta de termo melhor ou mais interessante, chamo aqui de
“jardinismo”, em homenagem a Lauro Jardim - aquele que quase derrubou o
ex-presidente Michel Temer. Todos querem ser jardinistas hoje em dia.
Todos estão ávidos por encontrar um escândalo capaz de instaurar o caos
e, de lambuja, derrubar Bolsonaro.
E
para quê? Há realmente alguma virtude nisso? Ou será que estamos só
viciados em escândalos e mergulhados até o pescoço num poço de
ressentimento que nos faz buscar a eliminação do outro, em vez de
gastarmos nossas energias na construção de um ambiente mais harmônico –
ou no mínimo menos belicoso?
Não
que o jornalismo investigativo não tenha o seu valor. Longe disso. O
jardinismo, repare bem, não é todo o jornalismo investigativo; é apenas
uma vertente revolucionária daquele mesmo jornalismo investigativo que,
antigamente, se dizia preocupado com o tal “bem comum”.
A
aversão de bolsonaristas, portanto, talvez esteja nessa percepção de
que a imprensa se deixou marginalizar e hoje não busca mais a construção
de uma sociedade melhor, e sim a destruição “de tudo o que há de errado
por aí” e a substituição dessa realidade por outra, utópica e
invariavelmente à esquerda. O que também ajuda a explicar por que a
defesa da liberdade deixou de ser um objetivo de parte da imprensa.
Oposição inteligente
A
realidade posta é esta: Jair Bolsonaro é o atual presidente do Brasil e
foi eleito democraticamente para um mandato de quatro anos, dos quais
restam um ano e meio. Ele acredita que esse negócio de liturgia do cargo
é frescura e fala o que quer. Sua retórica é para lá de questionável,
tanto estética quanto eticamente, mas há uma parcela considerável da
população que gosta disso e o vê como autêntico e simples. De origem
militar, Bolsonaro gosta de conflito e vê na força um instrumento
legítimo de persuasão.
Lidar
com essa realidade não significa se conformar com ela. Mas não se
conformar com a realidade não significa chamar o presidente de genocida e
seus apoiadores de fascistas. Não significa se opor agressiva e
desesperadamente a qualquer declaração estúpida de Bolsonaro. Não
significa chafurdar na burocracia em busca do mais novo escândalo que
porá fim ao atual governo. Não significa substituir argumentos por
insultos.
É
preciso fiscalizar, questionar e até se opor, mas sem jamais
menosprezar a inteligência do público, que se viu insultado ao longo das
últimas décadas e agora está compreensivelmente revoltado. É preciso
encontrar uma forma de firmar uma trégua. De recuperar a credibilidade.
De voltar ao tempo em que repórteres eram vistos como instrumentos que
davam forma às demandas populares, e não como militantes partidários.
Há
uma diferença entre oposição e antagonismo. Quando o saudoso Millôr
Fernandes disse que “imprensa é oposição; o resto é armazém de secos e
molhados”, ele não tinha em mente essa oposição que apela à
irracionalidade, ao sentimentalismo e ao medo para, o tempo todo,
confrontar o leitor, espectador e ouvinte. Ele tinha em mente a oposição
inteligente e intelectualmente honesta, que se reconhecia também
passível de erros e que não se vendia por trinta dinheiros ou cem mil
likes a nenhum dos dois extremos do espectro político.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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