Faltando mais de 500 dias para as eleições, o que se sabe é que Lula e Bolsonaro não estavam errados ao elegerem um ao outro como adversários preferenciais e mirar no centro até a sua aniquilação. Alexandre Borges para a Gazeta do Povo:
Em
menos de uma semana, nada menos que cinco institutos de pesquisa
(Datafolha, PoderData 360, Atlas, Paraná e XP/Ipespe) divulgaram
resultados de seus levantamentos mais recentes sobre a eleição de 2022,
rejeição, popularidade do governo e muito mais. Os números são tão
discrepantes que é natural que você se sinta confuso. Ou cheio de
certezas, o que pode ser ainda mais complicado.
Para
entender o que há de relevante no que foi noticiado, é preciso olhar
com atenção o que há de comum, o que está nas entrelinhas e o que está
apenas sugerido nos dados. Dá trabalho, mas vale a pena como balizador
do "humor do povo", como diria Edmund Burke, e como farol para o que
pode estar por vir.
O
mais importante (e menos surpreendente) do que vimos nas pesquisas é
que os dois políticos que mais fazem campanha no país são, vejam vocês,
os que lideram as pesquisas: Lula e Bolsonaro. Juntos, representam
praticamente dois terços das preferências do eleitorado brasileiro,
deixando a chamada terceira via lutando pelas sobras. É um país dividido
e não há sinais de que vai mudar num futuro próximo.
Lula
e Bolsonaro apelam para brasis totalmente diferentes. O ex-presidiário é
popular entre mulheres nordestinas de baixa escolaridade e renda. O
atual presidente vence entre homens do sul e sudeste com alta
escolaridade e renda. Lula é o presidente preferido do Brasil que luta
por comida, água, saúde, educação, transporte, auxílios emergenciais e
programas assistencialistas. Bolsonaro lidera entre tios do zap,
empresários, profissionais liberais e lavajatistas que não dependem do
estado e se sentem roubados por ele, não possuem lá muita empatia pelo
próximo, se pautam politicamente por questões morais e de costumes,
acham que bandido bom é bandido morto e associam o petismo à corrupção,
bandalheira, identitarismo e falta de patriotismo. Até aqui, novamente,
nada de novo.
A
coisa esquenta quando vamos aos números. Para o Datafolha, Lula é o
preferido de 41% dos brasileiros contra 23% de Bolsonaro, uma diferença
de 18 pontos. Para o Atlas, Lula teria 33,2% das preferências e estaria
atrás de Bolsonaro, com 37%. Lula tem entre 29% e 32% nos institutos
restantes, enquanto Bolsonaro vai de 29% a 32,7%, ou seja, um empate
técnico. São pesquisas feitas na mesma época e, em tese, com os mesmos
eleitores.
Em
relação ao primeiro turno, os institutos concordam em discordar, mesmo
que haja uma certa convergência para Lula e Bolsonaro na faixa dos 30%
para cada um e apenas o Datafolha é, literalmente, um ponto fora da
curva. O resultado do instituto ligado ao Grupo Folha é o primeiro
divulgado após as decisões favoráveis do STF que recolocam o petista no
jogo. As redes sociais bolsonaristas já estão tratando o Datafolha como
Judas em sábado de aleluia.
Já
no segundo turno, a maioria dá, com maior ou menor margem, vantagem
para Lula, que só perde no Paraná Pesquisas (JB 42,5% x 39,8% Lula) e
tem um empate técnico no XP/Ipespe (Lula 42% x 40% JB). O que explica
esse padrão é a dificuldade de Bolsonaro de atrair eleitores fora da sua
bolha de adoradores.
O
presidente é um político que apela fortemente para um segmento
específico de público e entrega a ele um pacote ideológico de porteira
fechada, o que é ferozmente defendido por seu exército virtual que
espalha narrativas próprias ou copiadas de veículos alugados ou
comentaristas e blogueiros cooptados. É possível, para esse eleitor,
fechar-se um universo paralelo com "verdades" cuidadosamente fabricadas
para ele pela poderosa máquina de propaganda bolsonarista, radicalizando
e isolando esse segmento cada vez mais.
Em
ciência política, a estratégia bolsonarista é conhecida como bonding,
ou a construção vertical de um conjunto fanático de apoiadores que têm
como missão constranger o resto da população a aceitar sua agenda
política. A alternativa é o bridging, ou a política dos acordos em busca
do mínimo denominador comum entre a maioria da população, o que
pressupõe a negociação e abrir mão de pautas impopulares em nome da
união nacional, o que está longe de animar o bolsonarismo.
O
resultado é um candidato com sólida votação no primeiro turno mas com
sérias dificuldades em ampliar seu eleitorado entre eleitores de
adversários derrotados, como se viu nas eleições presidenciais francesas
de 2017 em que Macron, que ficou praticamente empatado com Marine Le
Pen na primeira rodada e disparou na disputa final, conquistando
eleitores que iam da centro-direita à extrema-esquerda.
O
bonding é uma estratégia arriscada porque conta com a fragilidade dos
adversários para que seus eleitores consigam fazer com que, mesmo alvos
de perseguições, difamações e todo tipo de ataque, os outros respirem
fundo e aceitem votar no antigo inimigo por considerar um "mal menor".
Em
resumo, o que dizem as últimas pesquisas: Lula e Bolsonaro continuam,
desde o final de 2016, dividindo o Brasil. Para crescer, Lula precisa
convencer as classes médias e altas urbanas que não ressuscitará, no
terceiro mandato, as práticas que o levaram a ser preso. Bolsonaro tem
que convencer os pobres brasileiros que não é um monstro genocida,
desprovido de empatia ou preocupação real com seus problemas. Ele conta
com a caneta presidencial, o Centrão e seus franco-atiradores na
imprensa amestrada.
Já
os candidatos da terceira via precisam reinventar suas táticas, buscar a
união de candidaturas em nome de um nome de consenso e, para ontem,
quebrar a prisão mental que faz com que as únicas opções de voto estejam
entre dois candidatos tão divisivos e responsáveis por um sentimento
legítimo de repulsa de quem não vota naturalmente neles. Os "centristas"
começam em franca desvantagem e precisam suar muito para compensar o
tempo perdido até agora.
Em
tempos de pandemia, toda previsão é arriscada. Num país que registra,
até o momento, a incrível marca de 428 mil cadáveres por covid-19, o
eleitor está fragilizado, assustado, e mais aberto do que o normal para
alternativas. Faltando mais de 500 dias para as eleições, o que se sabe é
que Lula e Bolsonaro não estavam errados ao elegerem um ao outro como
adversários preferenciais e mirar no centro até a sua aniquilação,
criando um Fla x Flu político no país em que ambos são os principais
beneficiários.

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