O pobre que não vota na esquerda estaria sobrepondo seu ideal imparcial de justiça a seus interesses egoístas — algo que não deveria ser criticado, mas sim aplaudido. Juan Ramón Rallo via Instituto Mises:
Quando
a esquerda não recebe o apoio eleitoral — ou mesmo espontâneo, como
passeatas de rua — daqueles indivíduos cujos interesses ela acredita
representar, ela rapidamente se entrega ao discurso arrogante e elitista
de que o pobre que não a apoia é "burro", "ignorante" e "alienado",
pois está indo contra seus próprios interesses.
A
lógica é simples: dado que a esquerda supostamente defende o aumento da
tributação sobre os ricos para repassar o dinheiro aos mais pobres —
tanto diretamente, via assistencialismo, quanto indiretamente, via
educação e saúde "públicas" —, então todo pobre, por definição, tem de
apoiar a esquerda, que seria composta por superiores seres abnegados e
salvadores.
É
claro que não é toda a esquerda que adota esta postura de desdém geral
pelos indivíduos que "não sabem votar", mas é recorrente encontrar estes
tipos nas redes sociais. (E isso é um fenômeno mundial: na Espanha, uma proeminente figura pública recentemente xingou os trabalhadores que não votam na esquerda espanhola).
Duas premissas discutíveis
Essa
afirmação de que um pobre de direita é um tolo — para colocar em tons
mais leves — parte de duas premissas extremamente discutíveis.
A
primeira premissa é a de que "ser de direita" — no caso, defender uma
política econômica que não atente contra a livre iniciativa — é
prejudicial para os pobres.
A
segunda premissa é a de que os pobres deveriam votar de acordo com seus
interesses diretos, e não de acordo com princípios morais gerais e
imparciais.
A primeira pergunta é: seria do interesse dos pobres atentar contra a livre iniciativa?
No
curto prazo, uma política de alta tributação e redistribuição até
poderia ser do seu interesse, pois o pobre ganharia renda imediata à
custa do confisco do capital que foi imobilizado pelo capitalista.
No longo prazo, porém, há o alto risco de que o capitalista espoliado deixe de reinvestir esse capital,
o que faria com que a economia se descapitalizasse e, consequentemente,
fossem reduzidos os investimentos, as contratações e, consequentemente,
os salários, o que prejudicaria acima de tudo o mais pobre, que
passaria a ter um menor padrão de vida.
Capital
e trabalho não são necessariamente fatores substitutivos e
concorrentes. Ao contrário: eles se complementam e cooperam para se
enriquecer mutuamente. Trabalho e capital não são inimigos; são aliados.
Já
a segunda premissa acaba se revelando a mais interessante, pois quem a
defende nem sequer se dá ao trabalho de analisar as implicações de sua
própria postura, a saber: dizer que um pobre tem de votar na esquerda
(porque seus interesses são defendidos pela esquerda) significa
equiparar moralidade e justiça a interesse próprio.
Ora,
seria possível que os pobres (ou qualquer outra pessoa de qualquer
classe social) agissem não exclusivamente por interesses materiais, mas
também por critérios mais gerais e abstratos de justiça e moralidade?
Para a esquerda, é impossível.
Imagine
um pobre que tenha a opção de roubar a carteira de seu vizinho mais
rico sem que ninguém possa descobrir, ou mesmo suspeitar. Deveria este
pobre efetuar o roubo? Fazê-lo, sem dúvidas, seria uma demonstração de
seu interesse próprio: seu bem-estar material aumentaria à custa do de
seu vizinho mais rico.
Consequentemente,
se justiça e moralidade forem sinônimos de interesse pessoal — como
afirma a esquerda para o caso eleitoral dos pobres —, então devemos
concluir que sim, este pobre deveria roubar a carteira do vizinho. Mais
ainda: se ele não o fizer, será um direitista tolo.
Entretanto,
tão logo constatamos que a questão da justiça e da moralidade não está
restrita a um estrito interesse material egoísta, deveria então resultar
de todo compreensível, e sensato, que este pobre declinará de roubar a
carteira do vizinho mais rico. Não é que ele seja um direitista tolo;
ele é simplesmente uma pessoa íntegra, honesta e justa para com seu
vizinho.
Exatamente
o mesmo raciocínio se aplica ao pobre que se opõe a espoliar, por meio
do estado, os empresários ou os ricos, mesmo quando este esbulho poderia
lhe redundar em um benefício social de curto prazo: quem se opõe a algo
que o beneficia porque acredita ser injusto não é um tolo direitista,
mas sim uma pessoa que coloca suas convicções à frente de seu interesse
próprio. Consequentemente, toda a sociedade está melhor por conviver com
uma pessoa íntegra e honesta.
Para concluir
É
claro que podemos debater se tais convicções são reais ou se, como
parece acreditar a esquerda, derivam de uma falsa consciência da
realidade ou de uma falsa "consciência de classe".
No entanto, mesmo nestes casos, o pobre que não vota na esquerda
estaria sobrepondo seu ideal imparcial de justiça a seus interesses
egoístas — algo que não deveria ser criticado, mas sim aplaudido.
Em
vez de insultar os pobres que não se mostram atraídos pela ideia de
esbulhar terceiros para repartir o botim, a esquerda deveria tentar
persuadi-los da superioridade de suas ideias e valores (os quais têm sido rechaçados).
O desdém, neste caso, diz muito mais a respeito do desdenhador do que do desdenhado.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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