Paulinho Gogó, personagem de Maurício Manfrini, diz que a arte brasileira de contar vantagem deveria virar Patrimônio da Humanidade. Paulo Polzonoff Jr. para a Gazeta do Povo:
Qualquer
sociólogo de botequim sabe e atesta com firma reconhecida: brasileiro
adora contar vantagem. Qualquer tipo de vantagem. Vantagem amorosa,
vantagem financeira, vantagem profissional, vantagem automotiva,
vantagem política e, agora, vantagem sanitária. E, se der para botar aí
um cadinho de vantagem moral no meio disso tudo, tanto melhor.
Um
dos meios peculiares que o brasileiro usa para contar vantagem é o
“acesso exclusivo à informação privilegiada, não, privilegiadíssima, mas
fica só entre nós dois, mermão”. Dia desses, por exemplo, o Uber me
contou que o tio do primo do amigo do namorado da veterinária do
cachorro dele contou que “o governo” está aplicando aguinha nas pessoas e
dizendo que é vacina. “Mas fica só entre nós dois, mermão!”, disse.
“Mas
você pretende se vacinar?”, perguntei a ele, que logo em seguida disse
que foi vacinado não uma nem duas, mas cinco vezes! “Só por garantia,
né? Tem uns parça amigo meu que me arranjaram vacina por quinhentão. Foi
caro, mas valeu a pena. Se o senhor quiser tenho o telefone deles aqui
comigo. Mas fica só entre nós dois”, disse.
O
hábito brasileiro de contar vantagem tem algo de irritantemente cômico,
mas é preocupante em tempos de pandemia. Afinal, e ainda que a intenção
tenha sido as melhores, imagina, eu só queria te manter bem-informado,
neste caso quem conta um conto não só acrescenta um ponto como também
espalha o pânico.
Repara.
Depois de um ano e centenas de milhares de mortos, eu mesmo conheço uma
pessoa de 105 anos que pegou Covid-19 e não teve nada e um jovem atleta
de 29, tão novo, com um futuro brilhante pela frente, coitado, que
pegou e morreu. A Margarete, você não tem noção, vive aí pra cima e pra
baixo com aquele joelho podre dela, não sossega o facho, e até agora
nada de pegar o micróbio. Já o Fabião, lembra dele?, tava enfurnado
dentro de casa há um ano, pegou e empacotou. Comorbidade? Ele tava assim
meio gordinho, mas fora isso nada.
Outra
forma peculiar que o brasileiro usa para contar vantagem é demonstrando
sua incrível capacidade de ligar pontos sem absolutamente nenhuma
conexão entre si. Em qualquer situação, da política à pandemia, há
sempre interesses ocultos, motivações espúrias, lógicas nunca antes
aventadas pelos mais perspicazes filósofos, mas garantidas pelo
brasileiro, subtipo típico. Aquele de calção caído e chinelo havaiana,
se você preferir.
Na
praia, conversando com o vendedor de caipirinha, fiquei sabendo, por
exemplo, que a onda mais recente de Covid é culpa dos Estados Unidos que
“tá (sic) injetando o negócio nas pessoas só porque o Bolsonaro não
quis comprar as vacinas deles”. Três caipirinhas mais tarde, porém, ele
já estava dizendo (ou eu estava ouvindo) que “não tem esse negócio de
Covid nem nada. O senhor é jornalista? Então o senhor sabe muito bem que
é tudo invenção da mídia pro Lula voltar e a gente ser obrigado a
assistir novela feminista da Globo”.
A
tudo isso reajo com riso. Menos em se tratando de vantagem moral. Aí
essa vaidade brejeira do brasileiro típico perde a graça e se transforma
só num ridículo repugnante. “Não aguento mais me despedir dos amigos
queridos. Só hoje foram cinco”, diz o cara aqui ao meu lado na loja da
Apple. Quase vomito.
Contar
vantagem não é, para o brasileiro, apenas um lazer. É uma verdadeira
necessidade. É seu oxigênio. Daí também porque vivemos tempos de
exaltação. Imagina um país com 200 milhões de pessoas, do médico ao
catador de latinhas, do taxista meio tantã ao influencer totalmente
tantã, cada qual contando sua vantagenzinha. Só para provar para si
mesmo que está vivendo algo especial – o que o torna, aparentemente, um
escolhido por Deus.
Tire
a vantagem fantasiosa do brasileiro típico, essa que lhe confere alguma
estatura no amor, na profissão, na política e até no hospital, e dê-lhe
apenas a realidade às vezes cruel e às vezes tediosa. Aposto R$10 como
você o verá cair no chão, sufocado com a própria pequenez e
irrelevância. Só para vê-lo se levantar logo em seguida e partir para
cima do interlocutor, todo machinho. Tá pensando o quê? Brasileiro não é
russo, não, e não vai dar uma de mosca-morta só porque o Universo é
indiferente a ele.

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