Quando surge uma ameaça à unidade coletiva, basta acionar o “chamado da tribo” e seus membros, por pensarem como rebanho, agirão como um rebanho. Artigo de André Gonçalves Fernandes para a Gazeta do Povo:
Outro
dia desses, ouvi uma mulher dizendo ser “100% mãe: 97% devotada e 3%
egoísta”. Imediatamente, outra mulher (que não gostou, talvez, da
diferença enorme na equação) falou que ela renuncia “às mulheres para
cumprir seu papel materno, mas acima e em prejuízo de todas as outras
identidades femininas”.
Nesse
ponto, tive um tilt cerebral. Afinal, o que a dita cuja queria? A
inversão dos valores nas variáveis da equação? E, nesse caso, poderíamos
manter a veracidade da asserção “100% mãe”? Ou, sob outro ângulo, quem
gostaria de ter uma mãe 3% devotada e 97% egoísta?
Sabemos
bem o que está por detrás dessa antipatia por uma boa mãe: um feminismo
que perdeu seu norte e que, ao defender com liberdade de expressão o
que pensa ser o certo a fazer, ataca a liberdade de expressão de quem
não pensa igual dentro do mesmo sexo, anuncia uma “agressão sexual”
latente quando um homem senta no ônibus de pernas abertas e invade
igrejas com mulheres estultificadas gritando “mais ovários e menos
rosários!”
Nas
outras formas mais inteligentes de feminismo, as mulheres acentuam suas
legítimas demandas porque, até há pouco tempo, eram legal e
injustamente tratadas como desiguais. E as iniquidades ainda permanecem
em muitos campos da vida social.
Contudo,
aquilo que é mostrado como um sadio feminismo não vai além de um
“chamado da tribo”, como, de resto, podemos notar em muitos outros
“ismos”. É assim que Popper chama a irracionalidade do ser humano
primitivo, o qual descansa no recôndito mais profundo de todos os
civilizados e que nunca supera totalmente a saudade atávica daquele
mundo tradicional – a tribo –, em que o homem ainda era parte
inseparável da coletividade e onde se sentia seguro, porque subordinado
ao feiticeiro ancião ou ao cacique todo-poderoso, os quais tomavam todas
as decisões por ele.
Livre
de responsabilidades e submetido, como um animal, ao vai-e-vem da
manada, esse homem resta adormecido entre os que falam a mesma língua,
adoram os mesmos deuses, praticam os mesmos costumes, condenam o
diferente e odeiam o outro, o qual pode ser responsabilizado por todas
as calamidades que venham a assolar sua tribo.
Por
isso, quando surge uma ameaça à unidade coletiva, basta acionar o
“chamado da tribo” e seus membros, por pensarem como rebanho, agirão
como um rebanho. O feminismo acima ilustrado, hoje, é o exemplo mais
pronto e acabado dessa bovinidade intelectual, embora muitos outros
“ismos” se esforcem por superá-lo.
Todavia,
o “chamado da tribo”, qualquer que seja a tribo, não fica por aí. Em
todo esse processo de substituição do senso comum por um “não senso”
comum, boa parte da mídia exerce um papel destrutivamente ímpar. Na
Carta sobre o Humanismo, de 1947, Heidegger já havia escrito que “a
linguagem está a serviço da mediação dos canais de comunicação pelos
quais a objetivação se difunde como acesso uniforme de todos a tudo,
ultrapassando qualquer limite. É assim que a linguagem cairá sob a
ditadura da opinião pública: ela decidirá – antecipadamente – o que pode
ser compreensível e o que deve ser descartável como incompreensível”.
Sempre
é possível distinguir entre a “opinião pública real” e a “opinião
pública midiática”, na qual, hoje, devemos incluir as redes sociais,
pois o rótulo de influencer não é gratuito e nem inocente. Mas, muitas
vezes, a opinião pública midiática se insinua como opinião pública real e
a maioria silenciosa desta vê-se tolhida ilegitimamente, porque sua
régua é bem diferente daquela manejada pelos donos do poder midiático.
Então,
juntemos o “chamado da tribo” com a “opinião pública midiática” e o
resultado será um fenômeno explosivo: modos de vida e opiniões que
mereceriam o rótulo de “grosseiramente corretos” vão se fazendo
“culturalmente corretos”. E, nas redes sociais, o dado grosseiro, pelo
grau e alcance de difusão, torna-se um dado estúpido, sendo
materializado, por exemplo, pela viralização de hits, imagens e vídeos,
como se a própria difusão fosse um valor ou como se o meio fosse, em si
mesmo, a mensagem.
Muitos
usam o termo “ditadura” para caracterizar este fenômeno cultural.
Contudo, a ditadura implica num poder externo concentrado que força os
outros a fazer o que não querem, e o quadro atual pressupõe um certo
gosto e deleite na entrega de nossa liberdade individual. Por isso,
parece-me mais acertado dizer que se trata de uma “servidão voluntária”,
para usar a expressão de Étienne de la Boétie, escrita em meados do
século 16: “É o povo que escraviza e se suicida quando, podendo escolher
entre a servidão e a liberdade, ele prefere abandonar os direitos que
recebeu da natureza para carregar um jugo que lhe causa dano e o
brutaliza”.
Sempre
me recordo disso quando, em certas redes sociais, a celebridade,
voluntariamente, mostra-se seminua, abre sua intimidade do lar como se
estivesse num divã ou num confessionário, ou discorre sobre sua
privacidade sexual com requintes detalhistas, como se tudo isso tivesse
virado uma tremenda trivialidade. Talvez seja isso mesmo, porque esta
servidão voluntária faz os indivíduos desaparecerem numa massa anódina
e, para superar isso, é preciso mobilizar a concorrência por meio
daquilo que choca e chama a atenção, ainda que, como efeito, no dizer de
Taylor, reste o sufocamento da criatividade e o advento da
autoestultificação.
Até
porque a trivialidade propriamente dita não dá audiência: basta lembrar
que, nos últimos anos, só houve uma série televisiva com coragem para
enfrentar essa verdade. Chamava-se The Mind of the Married Man. Não teve
sucesso entre as massas, porque a turma preferia assistir às “Spice
Girls” de Sex and the City.
Este
quadro, marcado pelo amor à servidão voluntária, é desalentador, até
porque parece que a servidão nunca foi tão voluntária como no século 21.
Servidão e liberdade dependem de uma escolha clara e consciente, ainda
que nossa preguiça mental prefira permanecer na zona de conforto das
razões do “chamado da tribo” e da “opinião pública midiática”.
Como
efeito, o culturalmente correto, com o tempo, passa a ser monótono e o
“grosseiramente correto”, que o pressupõe, cristaliza-se numa regressão à
escravidão voluntária da ignorância que, como sabemos, bem depois da
liberdade, é a última coisa a se perder.
André
Gonçalves Fernandes, post Ph.D., é juiz de Direito,
professor-coordenador de Filosofia e Metodologia do Direito do CEU Law
School, pesquisador da Unicamp e professor-visitante da Universidade de
Navarra (Espanha).
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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