Resultados de estudos demonstram que custo emocional e financeiro para a saúde da população, durante e após a pandemia, é muito maior do que o custo das vidas perdidas. Fernando Reinach para o Estadão:
O Sars-CoV-2
mata entre 0,5% e 1% das pessoas que infecta. No Brasil já matou quase
350 mil pessoas, o que significa que já infectou entre 35 milhões e 70
milhões (13,2 milhões foram diagnosticados). Se o número de mortos é
inaceitável, o futuro dos que sobreviveram é ainda desafiador. Um estudo
publicado nesta semana demonstrou que 33% dos sobreviventes são
diagnosticados com doenças neurológicas e psiquiátricas nos seis meses
seguintes.
Caso
esse estudo, feito com 236.379 pessoas que se curaram da covid nos EUA,
seja representativo do que está ocorrendo no Brasil, por volta de 10
milhões de brasileiros já estão fadados a serem diagnosticados com
doenças neurológicas e psiquiátricas nos próximos meses.
O
estudo foi feito usando uma base de dados da TriNetX com os prontuários
eletrônicos de 81 milhões de pacientes nos EUA. Prontuários eletrônicos
nada mais são que as folhas de papel onde os médicos anotam os
diagnósticos, os medicamentos e os exames realizados em seus pacientes.
Guardados na forma digital, eles não revelam a identidade do paciente.
Os
cientistas localizaram no banco de dados da TriNetX todos os pacientes
que tiveram diagnóstico positivo de covid após 20 de janeiro de 2020 e
que ainda estavam vivos em 13 de dezembro. O estudo analisou o que
ocorreu com esses pacientes nos seis meses seguintes. Só foram incluídos
os com mais de 10 anos. Foram identificados 236.379 pacientes, sendo
190.077 não hospitalizados e 46.302 hospitalizados. Destes, 8.945 foram
internados em UTIs. Esses pacientes com covid foram comparados com um
grupo de 105.579 pacientes diagnosticados com influenza e outros 236.038
diagnosticados com qualquer tipo de infecção respiratória que nunca
tiveram covid.
A
comparação entre esses três grupos é importante pois os cientistas
tinham como objetivo determinar o risco adicional de o paciente ser
diagnosticado com doenças neurológicas ou psiquiátrica, comparado com
pessoas que não tiveram covid. Os resultados mostraram que 33,62% dos
pacientes diagnosticados com covid tiveram um diagnóstico de doença
neurológica ou psiquiátrica nos seis meses seguintes. Sendo esse número
38,73% nos pacientes internados e 46,42% nos que estiveram nas UTIs.
Mas
como os diagnósticos de doenças neurológicas e psiquiátricas podem
ocorrer também nas pessoas que não tiveram covid, o importante é saber
qual o risco adicional de ter um desses diagnósticos, nas pessoas que
tiveram covid, quando comparadas com os dois grupos controle. A
quantidade de resultados apresentados é enorme.
A
chance de uma pessoa que teve covid é 3,75 vezes maior de ter uma
hemorragia intracraniana, 2,82 vezes maior de ter um derrame isquêmico,
7,76 vezes maior de ter uma doença neuromuscular, 2,77 vezes de ter uma
doença psicótica e 1,55 vez de ter crises da ansiedade. A lista dos
possíveis diagnósticos inclui 22 doenças. Esses são os números para os
pacientes não hospitalizados. Eles aumentam entre os hospitalizados e
ainda mais entre os que foram à UTI. Por exemplo o risco de doenças
neuromusculares sobe de 7,76 vezes em pacientes não internados para
11,53 nos internados.
Esses
resultados demonstram que, para cada pessoa que a covid mata, 33
pessoas entre as que se curam terão diagnósticos de doenças
psiquiátricas ou neurológicas nos seis meses seguintes. Vale notar que
esse estudo só analisou doenças psiquiátricas e neurológicas. Isso
demonstra que o custo emocional e financeiro para a saúde da população,
durante e após a pandemia, é muito maior do que o custo das vidas
perdidas. Se você é contra o lockdown, contra máscaras e a favor de
medicamentos inúteis, pense nisso. Esses dados mostram quão importante é
se vacinar, praticar o distanciamento social e estancar o espalhamento
do vírus.
MAIS
INFORMAÇÕES: 6-MONTH NEUROLOGICAL AND PSYCHIATRIC OUTCOMES IN 236 379
SURVIVORS OF COVID-19: A RETROSPECTIVE COHORT STUDY USING ELECTRONIC
HEALTH RECORDS. LANCET PSYCHIATRY. HTTPS://DOI.ORG/10.1016/
S2215-0366(21)00084-5 (2021)
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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