"Aliás: quem é Joaquim
Barbosa? O que pensa? O indivíduo se filiou a antigo satélite petista, o
que algo deveria comunicar; mas há quem julgue normal — saudável —
pensar que poderia ser o DEM, ou qualquer outro, e então lhe cobrar
posição sobre reforma da Previdência. Esse é o lugar utilitário em que
se encontra a atividade política; esse em que ser desprezada não é
somente vantagem, mas informação suficiente. Flanando acima dessa
coisinha de partido, Barbosa não é apenas uma incógnita; mas uma
atraente: um desconhecido absoluto que pontua perto de 10% em pesquisa".
Artigo de Carlos Andreazza, via O Globo:
Marina Silva resolveu
falar. Engana-se, contudo, quem pensa que o faz estimulada pelos bons
números da última pesquisa Datafolha. Nada disso. Em condições normais
de pressão sobre o establishment, com o tabuleiro engessado conforme
vinha, seus índices ascendentes revalidariam a tática da moita. Mas,
então, houve o fato novo, que plantou incerteza e que elucida o
despertar da eloquência. Marina ressurgiu — de maneira loquaz inédita
para seus padrões — como resposta ao efeito Joaquim Barbosa,
desencadeado pelo mesmo levantamento de intenção de votos e que projeta
carga sobre uma base de eleitores que considerava propriedade sua.
Ela pode se fingir de
não política, pode passar a existência vivendo de política
criminalizando a política, pode até enganar assim; mas é profissional e
fareja o que a ameaça eleitoralmente. Sabe, pois, que tipo de entidade
teria embocadura para engolir uma veterana cuja identidade histórica é
estar acima da política: um outsider cuja identidade, virgem, é estar
acima da política. A farsa fresca prevalece. Fado do PSB, mais uma vez
cavalo à possível aventura contra a democracia representativa: um
partido, rachado talvez em quatro, incapaz de entregar o que promete,
entregando-se, no entanto, a uma experiência em que a melhor hipótese
para si é ser instrumentalizado por um projeto individual de poder até o
fim do mandato. Que os pessebistas não se empolguem sobre as chances de
governar. Barbosa apenas precisa de uma sigla para se eleger. E nem
aqueles que lhe a oferecem sabem quem o sujeito é.
Aliás: quem é Joaquim
Barbosa? O que pensa? O indivíduo se filiou a antigo satélite petista, o
que algo deveria comunicar; mas há quem julgue normal — saudável —
pensar que poderia ser o DEM, ou qualquer outro, e então lhe cobrar
posição sobre reforma da Previdência. Esse é o lugar utilitário em que
se encontra a atividade política; esse em que ser desprezada não é
somente vantagem, mas informação suficiente. Flanando acima dessa
coisinha de partido, Barbosa não é apenas uma incógnita; mas uma
atraente: um desconhecido absoluto que pontua perto de 10% em pesquisa.
Que eleitor é esse, o que assim se dá? Será um antilulista, satisfeito
com a memória sobre o trabalho do relator do mensalão em 2012? Em caso
positivo, manteria sua intenção se lembrado da declaração pública do
sujeito, de 2016, contra o impeachment de Dilma Rousseff, que chamou de
espetáculo patético e de processo tabajara?
O advento Barbosa,
erguido sobre a desinformação, já confundiu o jogo de todos os
pré-candidatos competitivos a presidente, mobilizando reações que outra
coisa não fazem que evidenciar o potencial de desordem no sistema
contido na candidatura do ex-ministro do Supremo. Vencida a especulação
Huck, acomodara-se a ideia de que o establishment expeliria facilmente
qualquer ousado, qualquer forasteiro que intentasse concorrer. Aí está o
desafiante da vez. O mais ensaboado possível. José Dirceu percebeu
rápido. Chega a ser engraçada, porém, sua incapacidade de mapear o
risco. Ciro Gomes também reagiu. Quando diz que é preciso “esperar a
consistência de Barbosa”, expõe somente apreensão sobre qual discurso, e
com que tom, o outro apresentará; sob qual forma tentará comunicar o
apelo inegável do que representa.
A ser mesmo
candidato, Barbosa — associado ao combate à corrupção, mas com perfil
eleitoralmente percebido como moderado — seria entrave a Jair Bolsonaro,
para cuja estagnação no último levantamento Datafolha talvez seja
resposta: ou o deputado encontrou um teto, ou teve seu crescimento
comido pela presença da novidade. É preciso pensar no personagem Joaquim
Barbosa — um Bolsonaro sem rejeição — tentando desconstruí-lo, tentando
criticá-lo sob a gramática político-eleitoral. É exercício dificílimo.
Quais fraquezas suas poderiam ser exploradas de modo a lhe tirar votos?
Chame-o, com razão, com base em suas manifestações públicas, de
autoritário — seu histórico no STF autoriza essa adjetivação. Explique
na rua, porém, em que consistiria isso — personalista, centralizador,
intransigente, impositivo, indisposto a negociar com políticos, avesso à
ideia de partidos — e veja as pessoas reagirem a tal conjunto como um
pacote de virtudes, motivos mais do que bastantes para votar no homem.
Barbosa talvez seja,
afinal, o perfil modelar do gosto brasileiro atual. Não é um elogio. Mas
a constatação do que seriam desejo e destino — quiçá a transformar
Bolsonaro, um livro aberto, em saudade. Se otimista: o que nele hoje
consiste em vigor eleitoral consistiria, uma vez eleito, na fraqueza
para governar, na inviabilidade da atividade política, na
impossibilidade crônica de administrar — na sombra de um impeachment. Se
pessimista: o que nele hoje consiste em vigor eleitoral consistiria,
uma vez eleito, na ascensão administrativa do já influente modelo
jacobino de lidar com adversários e adversidades, e na formalização do
governo do partido do sistema judicial — a naturalmente poder prescindir
do Parlamento e, pois, da política.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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