MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

terça-feira, 24 de abril de 2018

Em busca de (um) Barbosa


"Aliás: quem é Joaquim Barbosa? O que pensa? O indivíduo se filiou a antigo satélite petista, o que algo deveria comunicar; mas há quem julgue normal — saudável — pensar que poderia ser o DEM, ou qualquer outro, e então lhe cobrar posição sobre reforma da Previdência. Esse é o lugar utilitário em que se encontra a atividade política; esse em que ser desprezada não é somente vantagem, mas informação suficiente. Flanando acima dessa coisinha de partido, Barbosa não é apenas uma incógnita; mas uma atraente: um desconhecido absoluto que pontua perto de 10% em pesquisa". Artigo de Carlos Andreazza, via O Globo:


Marina Silva resolveu falar. Engana-se, contudo, quem pensa que o faz estimulada pelos bons números da última pesquisa Datafolha. Nada disso. Em condições normais de pressão sobre o establishment, com o tabuleiro engessado conforme vinha, seus índices ascendentes revalidariam a tática da moita. Mas, então, houve o fato novo, que plantou incerteza e que elucida o despertar da eloquência. Marina ressurgiu — de maneira loquaz inédita para seus padrões — como resposta ao efeito Joaquim Barbosa, desencadeado pelo mesmo levantamento de intenção de votos e que projeta carga sobre uma base de eleitores que considerava propriedade sua.

Ela pode se fingir de não política, pode passar a existência vivendo de política criminalizando a política, pode até enganar assim; mas é profissional e fareja o que a ameaça eleitoralmente. Sabe, pois, que tipo de entidade teria embocadura para engolir uma veterana cuja identidade histórica é estar acima da política: um outsider cuja identidade, virgem, é estar acima da política. A farsa fresca prevalece. Fado do PSB, mais uma vez cavalo à possível aventura contra a democracia representativa: um partido, rachado talvez em quatro, incapaz de entregar o que promete, entregando-se, no entanto, a uma experiência em que a melhor hipótese para si é ser instrumentalizado por um projeto individual de poder até o fim do mandato. Que os pessebistas não se empolguem sobre as chances de governar. Barbosa apenas precisa de uma sigla para se eleger. E nem aqueles que lhe a oferecem sabem quem o sujeito é.

Aliás: quem é Joaquim Barbosa? O que pensa? O indivíduo se filiou a antigo satélite petista, o que algo deveria comunicar; mas há quem julgue normal — saudável — pensar que poderia ser o DEM, ou qualquer outro, e então lhe cobrar posição sobre reforma da Previdência. Esse é o lugar utilitário em que se encontra a atividade política; esse em que ser desprezada não é somente vantagem, mas informação suficiente. Flanando acima dessa coisinha de partido, Barbosa não é apenas uma incógnita; mas uma atraente: um desconhecido absoluto que pontua perto de 10% em pesquisa. Que eleitor é esse, o que assim se dá? Será um antilulista, satisfeito com a memória sobre o trabalho do relator do mensalão em 2012? Em caso positivo, manteria sua intenção se lembrado da declaração pública do sujeito, de 2016, contra o impeachment de Dilma Rousseff, que chamou de espetáculo patético e de processo tabajara?

O advento Barbosa, erguido sobre a desinformação, já confundiu o jogo de todos os pré-candidatos competitivos a presidente, mobilizando reações que outra coisa não fazem que evidenciar o potencial de desordem no sistema contido na candidatura do ex-ministro do Supremo. Vencida a especulação Huck, acomodara-se a ideia de que o establishment expeliria facilmente qualquer ousado, qualquer forasteiro que intentasse concorrer. Aí está o desafiante da vez. O mais ensaboado possível. José Dirceu percebeu rápido. Chega a ser engraçada, porém, sua incapacidade de mapear o risco. Ciro Gomes também reagiu. Quando diz que é preciso “esperar a consistência de Barbosa”, expõe somente apreensão sobre qual discurso, e com que tom, o outro apresentará; sob qual forma tentará comunicar o apelo inegável do que representa.

A ser mesmo candidato, Barbosa — associado ao combate à corrupção, mas com perfil eleitoralmente percebido como moderado — seria entrave a Jair Bolsonaro, para cuja estagnação no último levantamento Datafolha talvez seja resposta: ou o deputado encontrou um teto, ou teve seu crescimento comido pela presença da novidade. É preciso pensar no personagem Joaquim Barbosa — um Bolsonaro sem rejeição — tentando desconstruí-lo, tentando criticá-lo sob a gramática político-eleitoral. É exercício dificílimo. Quais fraquezas suas poderiam ser exploradas de modo a lhe tirar votos? Chame-o, com razão, com base em suas manifestações públicas, de autoritário — seu histórico no STF autoriza essa adjetivação. Explique na rua, porém, em que consistiria isso — personalista, centralizador, intransigente, impositivo, indisposto a negociar com políticos, avesso à ideia de partidos — e veja as pessoas reagirem a tal conjunto como um pacote de virtudes, motivos mais do que bastantes para votar no homem.

Barbosa talvez seja, afinal, o perfil modelar do gosto brasileiro atual. Não é um elogio. Mas a constatação do que seriam desejo e destino — quiçá a transformar Bolsonaro, um livro aberto, em saudade. Se otimista: o que nele hoje consiste em vigor eleitoral consistiria, uma vez eleito, na fraqueza para governar, na inviabilidade da atividade política, na impossibilidade crônica de administrar — na sombra de um impeachment. Se pessimista: o que nele hoje consiste em vigor eleitoral consistiria, uma vez eleito, na ascensão administrativa do já influente modelo jacobino de lidar com adversários e adversidades, e na formalização do governo do partido do sistema judicial — a naturalmente poder prescindir do Parlamento e, pois, da política.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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