MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

domingo, 11 de janeiro de 2015

Ciganos, heróis da resistência contra o preconceito


Clarissa Carvalhaes - Hoje em Dia


André Brant/Hoje em Dia
Segundo pesquisa realizada pelo IBGE (em 2011), existem 58 acampamentos ciganos em Minas Gerais
Segundo pesquisa realizada pelo IBGE (em 2011), existem 58 acampamentos ciganos em Minas Gerais

A história dos ciganos no Brasil se confunde com a própria história do país: o registro mais antigo da sua chegada é datado de 1574. Desde o século 18 era notável a presença dos Kalon em Minas – em tempo: os ciganos são divididos em três grandes grupos: os Sinti, os Rom e os Kalon. 
 
Especialmente em Belo Horizonte residem, há pelo menos 30 anos, dois grandes acampamentos. São quase 100 famílias que, contrariando o (pré)conceito de nômades, fixaram morada nos bairros São Gabriel e Belmonte (zona Nordeste da capital); e Céu Azul e Lagoa (ambos na região da Pampulha).
 
Lá, preservam manifestações culturais de sua gênese. Práticas que vão da organização dos acampamentos até a ornamentação das tendas. Das vestimentas coloridas à utilização de uma língua própria que mescla português com dialeto bem característico.
 
Para o cigano Kalon Carlos Amaral, de 45 anos, representante da comunidade que vive no São Gabriel, uma das principais demandas do grupo passa pela regularização dos acampamentos de forma a torná-los dotados de infraestrutura adequada para melhor qualidade de vida do seu povo.
 
“Ser nômade nunca foi uma opção, mas uma condição que por séculos nos foi imposta – éramos expulsos dos lugares por onde passávamos. Agora, o desafio é sermos tratados como qualquer pessoa – seja num posto de saúde, escola ou fila de banco. Não queremos benefícios, nós lutamos pela igualdade”, explica o líder.
 
O preconceito também é outra barreira. “Quando um cigano faz algo errado todos os outros pagam por ele. Tem gente que nunca falou comigo, mas me odeia só porque sou cigano. É o preconceito que fere a nossa alma”, afirma o cigano Kalon Ronan Oliveira, 29 anos.
 
Tradição nas festividades e no compromisso com o outro
 
Diante dos nossos olhos vive um povo que mantém tradições seculares, completamente diferentes dos costumes ocidentais. 
 
É estranho imaginar, por exemplo, que uma menina de 12 anos e um garoto de 14 estejam prontos para casar. No mundo cigano, no entanto, essa é a ordem natural das coisas, porque afinal, namoro não é permitido e para além disso, “tem sido assim ao longo dos séculos”, justifica Amaral.
 
Dentro de uma casa cigana também é somente o homem quem sustenta a família. “Nós pagamos todas as contas, até o tecido para as nossas mulheres fazerem seus vestidos, mas cabe a elas cuidar da casa, dos nossos filhos, da nossa família. Eu sinceramente acho que esse trabalho é mais difícil. Não serviria jamais para ser uma mulher”, brinca Ronan. 
 
Assim como todas as outras ciganas, Cristina do Amaral, de 27 anos, e esposa de Ronan, é quem tece a própria roupa. Renda por renda, lantejoula por lantejoula. À reportagem, ela exibe o armário, orgulhosa dos vestidos e saias rodadas repletas de cores e brilho. “Porque a vida precisa de cor, e o brilho atrai alegria”, explica a moça.
 
Os dentes de ouro também são vistos no sorriso dos ciganos – escolha para se fazerem ainda mais bonitos, garantem. 
 
Depois de três décadas vivendo em Belo Horizonte, somente agora as crianças, filhas de ciganos, começam a frequentar escolas. É como se só agora os ventos, finalmente, começassem a soprar para um nova direção. A maioria dos que têm mais de 30 anos é analfabeta.

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