André Brant/Hoje em Dia
Segundo pesquisa realizada pelo IBGE (em 2011), existem 58 acampamentos ciganos em Minas Gerais
A história dos ciganos no Brasil se confunde com a própria história do
país: o registro mais antigo da sua chegada é datado de 1574. Desde o
século 18 era notável a presença dos Kalon em Minas – em tempo: os
ciganos são divididos em três grandes grupos: os Sinti, os Rom e os
Kalon.
Especialmente em Belo Horizonte residem, há pelo menos 30 anos, dois
grandes acampamentos. São quase 100 famílias que, contrariando o
(pré)conceito de nômades, fixaram morada nos bairros São Gabriel e
Belmonte (zona Nordeste da capital); e Céu Azul e Lagoa (ambos na região
da Pampulha).
Lá, preservam manifestações culturais de sua gênese. Práticas que vão
da organização dos acampamentos até a ornamentação das tendas. Das
vestimentas coloridas à utilização de uma língua própria que mescla
português com dialeto bem característico.
Para o cigano Kalon Carlos Amaral, de 45 anos, representante da
comunidade que vive no São Gabriel, uma das principais demandas do grupo
passa pela regularização dos acampamentos de forma a torná-los dotados
de infraestrutura adequada para melhor qualidade de vida do seu povo.
“Ser nômade nunca foi uma opção, mas uma condição que por séculos nos
foi imposta – éramos expulsos dos lugares por onde passávamos. Agora, o
desafio é sermos tratados como qualquer pessoa – seja num posto de
saúde, escola ou fila de banco. Não queremos benefícios, nós lutamos
pela igualdade”, explica o líder.
O preconceito também é outra barreira. “Quando um cigano faz algo
errado todos os outros pagam por ele. Tem gente que nunca falou comigo,
mas me odeia só porque sou cigano. É o preconceito que fere a nossa
alma”, afirma o cigano Kalon Ronan Oliveira, 29 anos.
Tradição nas festividades e no compromisso com o outro
Diante dos nossos olhos vive um povo que mantém tradições seculares, completamente diferentes dos costumes ocidentais.
É estranho imaginar, por exemplo, que uma menina de 12 anos e um garoto
de 14 estejam prontos para casar. No mundo cigano, no entanto, essa é a
ordem natural das coisas, porque afinal, namoro não é permitido e para
além disso, “tem sido assim ao longo dos séculos”, justifica Amaral.
Dentro de uma casa cigana também é somente o homem quem sustenta a
família. “Nós pagamos todas as contas, até o tecido para as nossas
mulheres fazerem seus vestidos, mas cabe a elas cuidar da casa, dos
nossos filhos, da nossa família. Eu sinceramente acho que esse trabalho é
mais difícil. Não serviria jamais para ser uma mulher”, brinca Ronan.
Assim como todas as outras ciganas, Cristina do Amaral, de 27 anos, e
esposa de Ronan, é quem tece a própria roupa. Renda por renda,
lantejoula por lantejoula. À reportagem, ela exibe o armário, orgulhosa
dos vestidos e saias rodadas repletas de cores e brilho. “Porque a vida
precisa de cor, e o brilho atrai alegria”, explica a moça.
Os dentes de ouro também são vistos no sorriso dos ciganos – escolha para se fazerem ainda mais bonitos, garantem.
Depois de três décadas vivendo em Belo Horizonte, somente agora as
crianças, filhas de ciganos, começam a frequentar escolas. É como se só
agora os ventos, finalmente, começassem a soprar para um nova direção. A
maioria dos que têm mais de 30 anos é analfabeta.
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