MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

19,9% dos moradores de Salvador vivem sem saneamento básico


por
Albenísio Fonseca
Publicada em TRIBUNA DA BAHIA
O esgotamento sanitário em Salvador é inexistente para cerca de 600 mil habitantes. O contingente corresponde a 19,9% da população que não dispõe de cobertura do sistema sanitário e, portanto, não conta com destinação adequada do seu esgoto, no universo de 3 milhões de habitantes da capital.
O total correspondente à população de Feira de Santana, segunda maior cidade do Estado, que conta com 610 mil habitantes, com base em estimativa do IBGE para 2014.
Conforme dados da Embasa-Empresa de Águas e Saneamento da Bahia, 80,1% da população da cidade seria contemplada pelos serviços adequados de coleta do esgotamento sanitário.
Conforme Eduardo Topazio, coordenador de Monitoramento e Recursos Ambientais Hídricos do Inema-Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, órgão do Governo Estadual, o percentual “pode ser ainda maior, na medida em que parte dos 80% sob cobertura do esgotamento tem lançado seus esgotos no sistema de captação pluvial ou diretamente sobre trechos dos rios da cidade”.
A propósito e com base no relatório do monitoramento de 2013, 80% dos rios de Salvador estão comprometidos pela canalização de esgotos.
Isso, na realidade, quanto ao que resta dos rios, tendo em vista que boa parte desses mananciais foi encoberto, ou “encapsulado”, como frisa Topazio, salientando que “sobraram apenas os de áreas periféricas”, dentre os quais o Ipitanga, que abastece a capital.
Concluindo um novo relatório, referente a 2014, o técnico do Inema adianta que “não serão encontradas grandes melhorias em relação ao ano anterior”. Ele vincula tal condição ao “processo histórico de negação dos nossos rios” e à “pressão urbana desencadeada pelo crescimento desordenado e sem o devido controle de uso do solo”.
Se “parte da culpa pode ser atribuída aos entes públicos”, outra “à própria falta de civilidade da população”, avalia.
Topazio exemplificou com o “caso do Dique do Tororó, inteiramente saneado há uma década e recentemente constatado sob contaminação por canalizações clandestinas de esgotos residenciais, conforme a Embasa pode verificar”. Para o técnico, somente “há pouco mais de 20 anos é que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente – na gestão de Juca Ferreira – se deu conta da inexistência de um cadastro da rede de drenagem pluvial na cidade”.
A falta de saneamento básico tem acarretado vários problemas à população, pois a proliferação de doenças por veiculação hídrica é gerada através dos esgotos que correm a céu aberto e também pela poluição dos mananciais.
Além disso, outros impactos causados, como a poluição do solo e do ar como também a escassez dos recursos naturais, são decorrentes do crescimento desordenado de Salvador, seja face ao aumento do consumismo pela população, seja pela busca do desenvolvimento sem garantir a sobrevivência destes mananciais para as gerações futuras.
Tratamento
- As pessoas jogam muito lixo nas ruas e, com as chuvas, ele é escoado para o sistema de captação pluvial, levando a Embasa a efetuar todo um serviço extra, procedendo a um serviço de limpeza desses resíduos sólidos, para o qual, inclusive, não é remunerada. Como se trata de uma empresa pública, efetua essa atividade tendo em vista o benefício social. Ele observa, além do mais, não se tratar apenas do lixo sólido, “mas o que este gera de atração de insetos e roedores, com suas fezes e urinas sendo canalizadas para os rios ou para as praias”.
Topazio destaca, ainda, que “a maior alteração na qualidade da água das praias é decorrente do lixo conduzido pelas chuvas”.
Do mesmo modo, a assessoria da Embasa considera “a expansão da cidade como o fator que tem inviabilizado a universalização da cobertura do esgotamento sanitário”.
Em compensação, ainda segundo assessores da empresa, “todo o esgoto captado é canalizado para estações, com 100% de tratamento e lançado ao mar através dos emissários submarinos do Rio Vermelho – a 2,35 km da praia e sob uma vazão de 8,3 mil litros por segundo, todos os dias, em regime de 24 horas – e de Jaguaribe (a 3,4 km do litoral, sob vazão de 3,67 mil litros por segundo).
Conceito do sistema ambiental
É preciso considerar que o sistema de saneamento ambiental não se restringe apenas aos esgotos. O conceito ou, mais que esse, a atividade em si envolve ainda abastecimento de água, coleta e disposição do lixo, além de controle de animais e insetos, saneamento de alimentos, escolas, locais de trabalho, de lazer e habitações.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pelo menos 100 mil soteropolitanos têm um esgoto a céu aberto como vizinho. Entre as 27 capitais pesquisadas pelo IBGE para o Censo 2010, Salvador apresentou o 14º maior número de habitantes a conviver com esgoto a céu aberto no entorno do domicílio.
O coordenador de informações do instituto, Joilton Rodrigues, em declarações à Tribuna, à época, considerava que a situação “não é das piores”, se comparada com outras grandes cidades nordestinas. Recife, capital pernambucana, tem o dobro: são 200 mil habitantes a conviver diretamente com o esgoto.
Mas Salvador está bem pior do que Belo Horizonte, onde são cerca de 29 mil pessoas morando ao lado de esgotos e distante do grau de civilização atingido por Goiânia (GO) e Vitória (ES), onde o IBGE não contabilizou nenhum habitante nessa degradante situação.
Tal cenário tem ligação direta com índices relacionados à saúde pública. Nos últimos quatro anos, houve uma morte por leptospirose a cada bimestre na capital. Foram oito óbitos em 2011, e três em 2012 – um no bairro de Doron, em abril, e outro, em junho, no Nordeste de Amaralina, além de um rapaz que caiu no canal poluído do Rio Vale do Paraguari, em Periperi, em setembro.
Em 2012, dos 10.546 imóveis inspecionados, que passaram por desratização, por equipes de controle de zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), em 12% (1.265) foi constatada a presença de ratos (o próprio roedor ou rastros deixados por ele) e em 18% (1.898) havia esgoto a céu aberto no entorno das moradias.

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