Uma rejeição consequente de radicalismos e extremismos implica que PS e PSOE a apliquem também à esquerda e viabilizem governos minoritários de, respectivamente, PSD e PP se estes vencerem as eleições. André Azevedo Alves para o Observador:
Desde
as respectivas transições para a democracia, tanto Espanha como
Portugal mantiveram até recentemente uma tradição e prática democrática
de ser o partido mais votado a constituir governo, mesmo em
circunstâncias nas quais o partido vencedor das eleições não logrou
obter uma maioria absoluta. Foi assim, por exemplo, com Felipe González
em 1993 e com José María Aznar em 1996 em Espanha e com António Guterres
em Portugal, que inclusivamente completou uma legislatura inteira
(entre 1995 e 1999) na liderança do governo sem maioria absoluta.
Esta
prática foi interrompida em 2015 com a sagacidade política de António
Costa e a disponibilidade de comunistas e bloquistas a possibilitarem ao
PS governar mesmo depois de ter perdido as eleições para Pedro Passos
Coelho. Algo de similar se passou à direita nos Açores, na sequência das
eleições regionais de 2020. Como salientei aqui,
a quebra da tradição de ser o partido mais votado a governar pode ser
vista como um alinhamento progressivo de Portugal (e também Espanha) no
sentido do que é mais normal no contexto de democracias liberais com
sistemas eleitorais proporcionais: é o bloco maioritário quem governa,
sendo menos relevante qual o partido mais votado.
É
uma lógica alternativa defensável e com total enquadramento
constitucional mas, para funcionar de forma democraticamente saudável
proporcionando a alternância, precisa de ter aplicação geral, tanto à
esquerda como à direita. Ora, aquilo a que assistimos em boa parte do
discurso político e mediático ibérico vai no sentido de a lógica de
blocos só dever poder funcionar para a esquerda. Ou seja, tanto PS em
Portugal como PSOE em Espanha podem governar com o apoio de quem
quiserem (incluindo partidos de esquerda radical e extrema-esquerda),
mas tanto PSD como PP devem estabelecer um “cordão sanitário”
relativamente a partidos de direita radical e extrema-direita.
A
tradição (abandonada) de ser o partido mais votado a constituir governo
permitia limitar o acesso dos extremos a influenciar a governação. A
lógica de blocos, mais conforme à natureza dos sistemas eleitorais
proporcionais, faz cair essa limitação, ainda que se possa argumentar
que gera (tanto à esquerda como à direita) pressões para que os extremos
se moderem com vista, precisamente, a influenciar a governação quando
integram o bloco maioritário. O problema é que se for aplicada uma
lógica assimétrica de cordões sanitários as dificuldades para que o
centro-direita aceda à governação aumentam exponencialmente, colocando
em causa a desejável alternância democrática.
Como bem salienta João Miguel Tavares:
“Para
afastar o Vox ou o Chega das imediações do poder, vale tudo. E quando
perguntamos como é possível estabelecer cordões sanitários à volta da
extrema-direita mas não da extrema-esquerda, argumentam que essa é uma
falsa equivalência. A extrema-direita é extremamente má. A
extrema-esquerda é talvez um pouco fogosa, mas essencialmente boazinha.”
Se
por um lado é compreensível, em virtude da história recente e do
contexto sociológico e mediático de ambos os países, a maior aversão
existente nas sociedades portuguesa e espanhola à direita radical e à
extrema-direita, a verdade é que a visão (comparativamente) benigna da
esquerda radical e da extrema-esquerda tem muito pouca sustentação.
Como
sustentar que é perfeitamente razoável e sustentável o PSOE negociar
entendimentos com os descendentes políticos do Podemos e do Batasuna ao
mesmo tempo que se afirma que qualquer entendimento do PP com o Vox
seria inaceitável? Como exigir que o PSD exclua em absoluto qualquer
possibilidade de negociação pós-eleitoral com o CH ao mesmo tempo que se
governou (e, presumivelmente, se está na disposição de voltar a
governar) com o apoio parlamentar de um partido que olha para Coreia do
Norte e Cuba como democracias e culpa a NATO pela invasão russa da
Ucrânia e de um outro que, além do seu notório radicalismo ideológico,
integrou membros das FP-25 como candidatos nas suas listas?
Combinar
a lógica de blocos com a exigência de aplicação assimétrica de cordões
sanitários é uma receita para a perpetuação no poder dos socialistas: em
nome da democracia, PS e PSOE governam quando ganham as eleições e
governam também quando as perdem (se necessário com a esquerda radical,
com a extrema-esquerda e até com herdeiros directos de organizações
terroristas que assassinaram inocentes em plena democracia) porque
qualquer forma de entendimento com a direita radical e a extrema-direita
é inaceitável.
Como bem questionou Miguel Poiares Maduro:
“Os
socialistas querem realmente afastar a extrema-direita do poder ou
usá-la para se perpetuar no poder (mesmo correndo o risco de lhes abrir
as portas do poder)? Cada vez parece mais ser a segunda hipótese.”
Uma
rejeição consequente de radicalismos e extremismos implica que PS e
PSOE a apliquem igualmente à esquerda e se disponibilizem para
viabilizar governos minoritários de, respectivamente, PSD e PP quando
estes vencerem as eleições. Enquanto tal não acontecer estamos no
domínio da mais pura – e irresponsável – hipocrisia política.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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