O controle do mundo sunita passa pelo Cairo e Al-Sisi pode ser a última muralha; a última muralha do Egito e a nossa. Afonso Moura para o Observador:
Já
foi há mais de uma década. A Irmandade Muçulmana perdia o controlo do
Egipto depois da remoção de Mohamed Morsi. O general Al-Sisi liderou os
insurgidos e abriu uma nova época no país africano.
Poucos
perceberam a importância do evento, mas a sua ocorrência definiu os
anos vindouros, tanto no Mediterrâneo como na Europa. Depois da
destruição da Líbia um Egipto nas mãos da Irmandade Muçulmana teria tudo
para controlar o país vizinho. A Líbia teria sido uma plataforma ainda
mais perigosa para a segurança europeia. As descontroladas migrações
rumo à Europa teriam sido ainda maiores, ameaçando os frágeis
equilíbrios europeus.
Muitos
idealistas ficaram chocados em 2013. Aquilo que definiam como o
processo democrático do Egipto havia sido brutalmente estancado através
dum golpe de Estado. Muitos ignoram que radicais islâmicos, entre
outros, se escudam por detrás de noções como o “liberalismo” ou o
“Estado de Direito” com o intuito de as subverter por dentro; desejam
implementar sociedades que nunca poderiam ser consideradas liberais por
qualquer observador atento.
A
vitória de Al-Sisi foi uma derrota geopolítica para a Turquia. Muitos
pensam que a liderança do mundo sunita tem a Arábia Saudita como actor
primordial. Meca e Medina estão dentro das suas fronteiras, o país é
indiscutivelmente marcado pela herança islâmica – mais do que o Egipto
que se alicerça numa tradição mais antiga. Nós discordamos. Os actores
principais são a Turquia e o Egipto. Nos últimos anos a nova vaga de
islamização da Turquia só terá escapado aos mais distraídos, o Egipto
por sua vez é bem mais tolerante. O exército é por vezes a única força
que consegue domar o radicalismo islâmico…
Em
2020, aqui mesmo no [link para o meu artigo com o título Erdogan, Santa
Sofia e o retorno do Califado] Observador, havíamos alertado para o
sonho de Erdogan – a ressurreição do Califado. Sem a intromissão de
Al-Sisi esse sonho estaria muito mais consolidado. Al-Sisi não agiu
sozinho, muitos na sociedade egípcia aperceberam-se do perigo colocado
pelo radicalismo. Um deles foi o grande pensador Abdelrahim Ali. Mas Ali
sabia que a Irmandade Muçulmana é uma entidade tentacular, as suas
derrotas no Mediterrâneo Oriental não foram o seu fim, longe disso. O
seu livro Les pensées sataniques, l’Europe et le défi de l’Organisation
Internationale des Frères musulmans (em português: Os pensamentos
satânicos, a Europa e o desafio da Organização Internacional da
Irmandade Muçulmana) é um alerta que infelizmente não é suficientemente
conhecido. Ali, entrevistado em França, lamentou-se recentemente que o
espírito de resistência à Irmandade Muçulmana é quase inexistente no
Velho Continente. Esperemos que alguns dirigentes comecem a abrir os
olhos antes que seja tarde de mais. A Conferência Internacional
realizada recentemente em Roma é um bom sinal, mas certamente
insuficiente. Giorgia Meloni realizou à margem do evento um tête-à-tête
com o primeiro-ministro egípcio, algo que demonstra a perspicácia do
governo italiano.
Um
número considerável de progressistas europeus acolheu as acções da
Irmandade Muçulmana como algo de positivo. Fascinados pelo exotismo e
por pelas potencialidades do multiculturalismo, foram os idiotas úteis
dos lobos em pele de cordeiro.
A
próxima eleição para a presidência egípcia realizar-se-á no início de
2024. Por esse mundo fora as forças radicais – da Irmandade Muçulmana e
não só – preparam-se para infiltrar as opiniões públicas, principalmente
aquelas da Europa Ocidental. Será dito que o Egipto vive uma terrível
ditadura militar e que tudo tem que mudar na terra das pirâmides. Mas
estamos nós certos que a mudança seria para melhor?
Em
1517 a dinastia mameluca chegava ao fim. Selim I derrotou o seu último
líder – Tuman Bay II – e entrou triunfante no Cairo. Erdogan não se
importaria que a história se repetisse. O controlo do mundo sunita passa
pelo Cairo e Al-Sisi pode ser a última muralha; a última muralha do
Egipto e a nossa.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

Nenhum comentário:
Postar um comentário