BLOG ORLANDO TAMBOSI
A necessidade de recuperar o apoio dos produtores de petróleo para a cruzada das democracias liberais contra a Rússia obrigou Biden a contradizer-se perante uma das assembleias menos liberais do Globo. Jaime Nogueira Pinto para o Observador:
Para
uma potência nem sempre é fácil harmonizar ideologia (as convicções e
princípios dominantes das suas instituições políticas) e razão de Estado
(os seus interesses nacionais).
Viu-se
isso durante a Segunda Guerra Mundial, quando dois Estados ideológicos,
a União Soviética de Estaline e o Terceiro Reich hitleriano, se
enfrentaram numa luta sem quartel: curiosamente, o enfrentamento viera
depois de um pacto de não-agressão que escandalizara muitos militantes e
simpatizantes de ambos os lados – o Pacto Ribentrop-Molotov. Isto em
Agosto de 1939, nas vésperas da invasão da Polónia.
Hitler,
traumatizado pela memória da guerra em duas frentes, queria estar
tranquilo a Leste para enfrentar os ocidentais; Estaline esperava que a
luta entre as “potências capitalistas” as enfraquecesse e que, no final,
a Rússia comunista pudesse ser o árbitro do poder na Europa. Mas em
Junho de 1941, Hitler sucumbira à convicção de que a URSS, “governada
por judeus”, era o grande inimigo do povo alemão. Numa época em que
Estaline já eliminara a maioria dos “velhos judeus bolcheviques”, não
era um juízo muito acertado, mas Hitler achava que sim, tal como também
achava que os Estados Unidos eram por eles comandados (apesar de ainda
não se admitirem judeus nos clubes restritos de Washington).
Esta
política ideológica anti-semita levara o Führer a abrir a porta à
derrota, ao invadir a Rússia, rejeitando o apoio dos ucranianos
anticomunistas, prontos a marchar sobre Moscovo para vingar os horrores
sofridos na fome induzida do Holodomor. Ao contrário, Estaline, com a
Rússia ameaçada de derrota, metera o internacionalismo proletário na
gaveta para apelar ao patriotismo dos russos na defesa da pátria
invadida.
A cruzada das democracias liberais
São
contradições de conveniência que não perdem a actualidade, como bem o
demonstrou o Presidente norte-americano na sua recente viagem ao Médio
Oriente com visita ao Reino Saudita, que Biden, quando candidato,
definira como “Estado pária”.
Nada
de mais diferente, em termos de valores e cultura, que a monarquia
teocrática saudita – um Estado com o nome de uma família – e a república
americana inspirada nas Luzes do século XVIII. No entanto, os Estados
Unidos e o Reino saudita eram velhos aliados desde que F.D. Roosevelt
negociara com o rei Saud uma aliança de interesses. Como quase sempre em
quase todo o mundo, comandava então a Realpolitik – e o deserto
guardava grandes tesouros energéticos.
Com
alguns atritos e problemas, este entendimento entre Rihad e Washington
durou e perdurou, apesar da aliança americana com Israel. E os sauditas
foram decisivos para o fim da URSS, servindo de banqueiros dos
interesses americanos em algumas guerras quentes da Guerra Fria – do
Afeganistão à África Subsaariana – e inundando os mercados de petróleo
barato, num tempo em que Moscovo vivia da exportação de crude. De resto,
a vitória do Ocidente deveu-se em grande parte a alianças com Estados
muito pouco liberais e democráticos, como a Arábia Saudita e a China.
O homem forte de Rihad
O
actual homem forte da Arábia Saudita é o príncipe herdeiro Mohamed bin
Salman, de 36 anos, filho do rei Salman. O Rei tem 86 anos, está doente e
Mohamed bin Salman é o poder de facto. Em 2018, no consulado saudita em
Istambul, o escritor e jornalista dissidente Jamal Khashoggi foi
assassinado e esquartejado. Biden, na campanha eleitoral de 2020,
qualificou a Arábia Saudita de “Estado pária”, interrompendo a política
de aproximação de Trump. E, já na sua presidência, num relatório de 11
de Fevereiro de 2021, os serviços de inteligência norte-americanos
tinham identificado Mohamed bin Salman como mandante da morte de
Khashoggi, colunista do Washington Post e residente nos Estados Unidos.
Ao
evocar razões ideológicas no conflito com Moscovo, insistindo na
cruzada das “democracias liberais” contra o “eixo do mal” das
“autocracias iliberais” para enfrentar uma Rússia que não parece muito
abalada pelas sanções, Biden tenta repetir a política da Administração
Reagan, incitando os sauditas e o Médio Oriente em geral a produzir mais
petróleo para atirar para baixo os preços.
Na
viagem da semana passada, o Presidente garantiu aos líderes do Conselho
do Golfo – Arábia Saudita, Qatar, Kuwait, Bahrein, Omã e Emirados
Árabes Unidos – e aos responsáveis do Egipto, do Iraque e da Jordânia
que os Estados Unidos não iam abandonar a região à China, à Rússia e ao
Irão. O Presidente americano apelou então aos líderes presentes que
liberalizassem e democratizassem os seus países, permitindo que os
cidadãos os criticassem sem medo de punições ou represálias. Entre os
representantes ali reunidos havia sete monarcas autoritários, o general
Abdel Fattah el-Sisi do Egipto que, perante ameaça dos Irmãos
Muçulmanos, dera um golpe de Estado e substituíra o presidente eleito
com a bênção dos Estados Unidos e de outras democracias aliadas, e o
primeiro-ministro iraquiano. Não seriam a assembleia mais liberal do
Globo.
A
crise de credibilidade dos Estados Unidos na região acentuou-se
simbolicamente quando Obama decretou uma linha vermelha que o sírio
Assad ultrapassou. Não lhe aconteceu o que quer que fosse e Putin salvou
o regime de Damasco. Trump conseguiu aproximar Israel dos Emirados e do
Bahrain e contribuiu para o discreto degelo entre os sauditas e Israel
que o “inimigo comum”, o Irão, estava já a causar.
A
posição de Biden não é fácil: a guerra da Ucrânia, o impasse no terreno
e as sanções ocidentais à Rússia parecem estar a deixar os
sancionadores, os países europeus, à beira de uma crise energética,
económica e social de graves consequências. Para encontrar alternativas,
numa altura em que são os próprios russos a cortar fornecimentos,
países como a Alemanha estão a pôr em causa a transição energética e a
reabrir centrais de carvão. Daí que Biden quisesse convencer os seus
interlocutores árabes da OPEC a intensificar a produção para fazer
baixar os preços. Mas na quinta-feira, 21 de Julho, a Bloomberg e a
Reuters noticiavam que os Estados Unidos não esperavam para já um
aumento de produção naqueles países e que o crude continuava acima dos
100 dólares.
Contradições
Além deste insucesso, o Presidente americano teve de mudar radicalmente de atitude em relação ao príncipe Salman.
Salman
começou por mostrar-se um autocrata reformista – liberalizando
espectáculos, cinemas, teatros e concertos e anunciando que o Reino
voltaria a “um Islão moderado, aberto ao mundo e a todas as religiões”,
com a autoridade da temida “polícia religiosa” restringida e as normas
de vestuário liberalizadas. Mais importante, fora a legislação sobre os
direitos das mulheres, que tinham passado a poder guiar e a protagonizar
sem tutela masculina uma série de actos jurídicos de família.
As
reformas de Mohamed bin Salman não eram total novidade – o anterior
rei, Abdullah, já abrira o direito de voto às mulheres e alargara a sua
esfera de acção. Só que, paralelamente a esta modernização, o Príncipe
intensificara a repressão das oposições, dos dissidentes e dos próprios
familiares, escalara a guerra no Iémen e teria mandado liquidar
Kashoggi.
Este
tipo de políticas não era novo entre os “déspotas esclarecidos”. Daí o
choque dos observadores com a informal saudação pandémica, o amistoso
“toque de punhos”, entre Biden e Mohamed bin Salman, que uns viram como
uma intimidade entre compinchas, outros como uma forma de Biden não
apertar a mão a Salman. (Segundo o New York Times, os jornalistas
americanos, ao contrário doa sauditas, não tiveram acesso a este
primeiro encontro e foram os serviços de informação sauditas que
divulgaram profusamente o filme e as fotografias do evento).
Fred
Ryan, do Washington Post, o jornal onde escrevia o desaparecido
Kashoggi, comentou que o fist bump fora pior que um aperto de mão, “ao
projectar um nível de intimidade e à-vontade” que dava a Mohamed bin
Salman a “injustificada redenção” que desesperadamente procurava.
Interrogado
pelos jornalistas, Biden afirmou que levantara o problema do
assassinato de Kashoggi no seu encontro com o Príncipe herdeiro, e que
Salman lhe dissera não ter sido pessoalmente responsável pelo crime,
retorquindo-lhe o Presidente que não acreditava nele. Mas o ministro dos
Negócios Estrangeiros saudita, Adel al Jubeir, contrariou a versão de
Biden, dizendo que o Presidente não falara do assunto com Mohamed bin
Salman e que se limitara a discorrer sobre direitos humanos em geral.
Segundo
Peter Baker (New York Times, 15 de Julho 2022), a noiva de Kashoggi, a
turca Hatice Lengiz, reagiu no twitter às notícias do encontro,
imaginando a reacção do noivo ao comportamento do Presidente
norte-americano: “É esta a responsabilização que Biden garantiu pelo meu
assassinato? O sangue das próximas vítimas de Mohamed bin Salman está
nas suas mãos”.
How true is that?
Numa
crónica para o New York Times intitulada “Biden says he confronted the
Saudi prince over Kashoggi. How true is that?”, Peter Baker conta ainda
que a Casa Branca confirmou a versão de Biden, dizendo que o ministro
saudita dos Negócios Estrangeiros mentira. No entanto, Baker não deixa
de referir a tendência de Biden para efabular – “Mr. Biden is by nature a
storyteller with a penchant for embellishment.” –, apresentando vários
exemplos de autoatribuição de frases corajosas em confronto com
ditadores, que testemunhas presenciais não confirmaram.
A
crer no relato do Presidente, em Moscovo, em 2011, quando era
vice-Presidente de Obama, Biden teria, por exemplo, dito a Putin: “Estou
a olhar para os seus olhos e não creio que você tenha alma”. Várias
testemunhas da conversa não se lembram de ouvir semelhante coisa. Também
em 1993, o então senador Biden teria dito ao líder sérvio Misolevic,
responsável de graves crimes de guerra, que o considerava um “damn war
criminal” que “deveria ser julgado como tal”. Biden contou-o em livro,
em 2007, mas nenhuma das pessoas presentes no encontro se lembra de ter
ouvido tal.
Histórias
como esta povoam a narrativa de um Presidente que tende a
autorretratar-se como um americano tranquilo a enfrentar os tiranos
deste mundo em nome dos valores do Ocidente.
Mas, how true is that?

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