MEDIÇÃO DE TERRA

MEDIÇÃO DE TERRA
MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 23 de julho de 2022

De tolo a tolo

 



Sim, voltei a ser um tolo bem-informado. Voltei a ser como todos nós, meus amigos. Via Crusoé, a crônica de Alexandre Soares Silva:


A melhor coisa de ter sido operado às pressas e quase morrido foi ter passado três semanas longe das tolices dos outros – das tolices de atores e políticos e jornalistas, e todo esse tipo de pessoa que costuma dar opiniões usando só um quarto do cérebro.

De vez em quando um enfermeiro, trocando o soro ou algo assim, me vinha com notícias do mundo de fora:

— Mataram o ex-primeiro ministro japonês!
— Um bolsonarista entrou numa festa e matou um petista!

E coisas charmosas desse tipo.

Uma madrugada pouco antes do nascer do sol, quando estava um tanto dopado, uma figura humana toda vestida de branco saiu da luz do corredor do hospital, deslizou até a minha cama, se curvou angelicamente sobre a minha figura conectada a vários tubos, sussurrou algo sobre a Anitta e desapareceu.

Mas essas coisas mal e mal impregnavam em mim. Foram, a rigor, três semanas de desintoxicação da tolice alheia. Obviamente mantive as minhas próprias tolices fermentando no seu habitat cerebral, mas do mesmo modo que (eu presumo) funciona com a flora intestinal, elas não sobrevivem muito bem sem trocas constantes com o mundo exterior — de modo que senti uma diminuição súbita e notável da minha própria tolice.

Saí do hospital um dos homens menos tolos que já existiram. E isso era visível à distância. Crianças que me viam passar na rua estranhavam o que viam e diziam em voz alta para as suas mães: “O que esse homem tem, maínha? É tão diferente!”, e as mães respondiam, assombradas: “Ah, meu filho! É um dos rostos menos tolos que já vi!”

Menos tolos, mas não um dos mais sábios. Uma coisa é não ser um tolo, mas não basta perder uns quilos de tolice para virar um sábio. Um homem, privado por três semanas da leitura das redes sociais e dos principais jornais do país, certamente está menos tolo — ele asfixiou a própria tolice, digamos.

Mas para ser sábio é preciso um esforço mais consistente. É preciso ler um livro ou outro e, quem sabe (mas não quero dar sugestões radicais demais), pensar um pouco de vez em quando. E eu não faço nada disso faz muito tempo.

Esse era o momento, pensei. Estava em repouso forçado? Bom, eu aproveitaria essas semanas de repouso forçado para fazer algo útil: daria os meus primeiros passos hesitantes e convalescentes pelo caminho da Sabedoria. Se eu tive que ser operado, estava convencido que era por falta de sabedoria: comi mal durante anos, não como um sábio, não como um Lao Tsé, mas como um reles Leo Jaime. Não mais, disse para mim mesmo — acabou! Essa crise iria servir para finalmente me pôr no caminho da sabedoria.

Não tinha nem mais dez minutos para perder no mundo dos não-sábios. Corri os olhos pela estante à minha frente. Por onde começaria a trilha da sabedoria perene? Pela República de Platão? É um livro pesado demais para apoiar na minha atribulada barriga. A Ética de Aristóteles? Tinha que tomar uma decisão rápida, antes que o desejo de ser sábio passasse (é o tipo de desejo que passa rápido comigo). Acabei decidindo pela lombada agradavelmente amarela de Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche.

Você pode fazer várias objeções à minha escolha de Primeiro Passo na Estrada da Sabedoria, dependendo da sua atitude em relação ao Gentil Sifilítico da Prússia, mas o ponto é que era um primeiro passo. Toquei a sineta que estava ao meu lado até que a minha mulher aparecesse na sala (um pouco em pânico, porque eu toquei a sineta freneticamente, ansioso para me tornar um sábio), e pedi que ela pegasse o livro na estante. Ela trouxe o livro pra mim, me acomodou, e me deixou sozinho com o Gigante Bigodudo de Turim.

Comecei a ler o livro com um sorriso beatífico de expectativa no rosto. Vocês talvez lembrem que o livro começa com Zaratustra subindo em uma montanha, onde ele passa dez anos: “Ali viveu, alimentando-se da sua sabedoria e da sua solidão, e dez anos passaram sem que se cansasse.” O sol da tarde caía agradavelmente no meu rosto, e sorrindo, feliz de tudo, peguei no sono justamente quando Zaratustra ia descer da montanha para espalhar a sua sabedoria para o mundo e especialmente para mim.

Quando acordei, uma hora ou duas depois, tentei recomeçar a ler o livro, mas o desejo de ser um sábio tinha passado. Eu me conheço: é um desejo que volta de cinco em cinco anos e dura umas quatro horas no máximo. Não adianta forçar. De modo que Zaratustra nunca desceu da montanha pra mim. Acabei preferindo ver a primeira temporada inteira de Schmigadoon.

De lá pra cá, voltei a ler jornais e redes sociais. Já ouvi o pedido de sensatez da Janaína Paschoal, e as reações também. Já sei o que o Alexandre de Moraes disse e já sei o que a Carla Zambelli disse em resposta. Li até o depoimento político de uma amiga atriz (chateada, de babydoll) no Instagram. Olhando para o meu rosto no espelho não posso deixar de notar a volta dos sinais de tolice na curvatura dos lábios e no embaçamento dos olhos. Até o nariz parece um pouco mais espesso, indicando claramente uma tacanhice mental brotando de novo de dentro pra fora.

Sim, voltei a ser um tolo bem-informado. Voltei a ser como todos nós, meus amigos.
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

Nenhum comentário:

Postar um comentário