Sim, voltei a ser um tolo bem-informado. Voltei a ser como todos nós, meus amigos. Via Crusoé, a crônica de Alexandre Soares Silva:
A
melhor coisa de ter sido operado às pressas e quase morrido foi ter
passado três semanas longe das tolices dos outros – das tolices de
atores e políticos e jornalistas, e todo esse tipo de pessoa que costuma
dar opiniões usando só um quarto do cérebro.
De vez em quando um enfermeiro, trocando o soro ou algo assim, me vinha com notícias do mundo de fora:
— Mataram o ex-primeiro ministro japonês!
— Um bolsonarista entrou numa festa e matou um petista!
E coisas charmosas desse tipo.
Uma
madrugada pouco antes do nascer do sol, quando estava um tanto dopado,
uma figura humana toda vestida de branco saiu da luz do corredor do
hospital, deslizou até a minha cama, se curvou angelicamente sobre a
minha figura conectada a vários tubos, sussurrou algo sobre a Anitta e
desapareceu.
Mas
essas coisas mal e mal impregnavam em mim. Foram, a rigor, três semanas
de desintoxicação da tolice alheia. Obviamente mantive as minhas
próprias tolices fermentando no seu habitat cerebral, mas do mesmo modo
que (eu presumo) funciona com a flora intestinal, elas não sobrevivem
muito bem sem trocas constantes com o mundo exterior — de modo que senti
uma diminuição súbita e notável da minha própria tolice.
Saí
do hospital um dos homens menos tolos que já existiram. E isso era
visível à distância. Crianças que me viam passar na rua estranhavam o
que viam e diziam em voz alta para as suas mães: “O que esse homem tem,
maínha? É tão diferente!”, e as mães respondiam, assombradas: “Ah, meu
filho! É um dos rostos menos tolos que já vi!”
Menos
tolos, mas não um dos mais sábios. Uma coisa é não ser um tolo, mas não
basta perder uns quilos de tolice para virar um sábio. Um homem,
privado por três semanas da leitura das redes sociais e dos principais
jornais do país, certamente está menos tolo — ele asfixiou a própria
tolice, digamos.
Mas
para ser sábio é preciso um esforço mais consistente. É preciso ler um
livro ou outro e, quem sabe (mas não quero dar sugestões radicais
demais), pensar um pouco de vez em quando. E eu não faço nada disso faz
muito tempo.
Esse
era o momento, pensei. Estava em repouso forçado? Bom, eu aproveitaria
essas semanas de repouso forçado para fazer algo útil: daria os meus
primeiros passos hesitantes e convalescentes pelo caminho da Sabedoria.
Se eu tive que ser operado, estava convencido que era por falta de
sabedoria: comi mal durante anos, não como um sábio, não como um Lao
Tsé, mas como um reles Leo Jaime. Não mais, disse para mim mesmo —
acabou! Essa crise iria servir para finalmente me pôr no caminho da
sabedoria.
Não
tinha nem mais dez minutos para perder no mundo dos não-sábios. Corri
os olhos pela estante à minha frente. Por onde começaria a trilha da
sabedoria perene? Pela República de Platão? É um livro pesado demais
para apoiar na minha atribulada barriga. A Ética de Aristóteles? Tinha
que tomar uma decisão rápida, antes que o desejo de ser sábio passasse
(é o tipo de desejo que passa rápido comigo). Acabei decidindo pela
lombada agradavelmente amarela de Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche.
Você
pode fazer várias objeções à minha escolha de Primeiro Passo na Estrada
da Sabedoria, dependendo da sua atitude em relação ao Gentil Sifilítico
da Prússia, mas o ponto é que era um primeiro passo. Toquei a sineta
que estava ao meu lado até que a minha mulher aparecesse na sala (um
pouco em pânico, porque eu toquei a sineta freneticamente, ansioso para
me tornar um sábio), e pedi que ela pegasse o livro na estante. Ela
trouxe o livro pra mim, me acomodou, e me deixou sozinho com o Gigante
Bigodudo de Turim.
Comecei
a ler o livro com um sorriso beatífico de expectativa no rosto. Vocês
talvez lembrem que o livro começa com Zaratustra subindo em uma
montanha, onde ele passa dez anos: “Ali viveu, alimentando-se da sua
sabedoria e da sua solidão, e dez anos passaram sem que se cansasse.” O
sol da tarde caía agradavelmente no meu rosto, e sorrindo, feliz de
tudo, peguei no sono justamente quando Zaratustra ia descer da montanha
para espalhar a sua sabedoria para o mundo e especialmente para mim.
Quando
acordei, uma hora ou duas depois, tentei recomeçar a ler o livro, mas o
desejo de ser um sábio tinha passado. Eu me conheço: é um desejo que
volta de cinco em cinco anos e dura umas quatro horas no máximo. Não
adianta forçar. De modo que Zaratustra nunca desceu da montanha pra mim.
Acabei preferindo ver a primeira temporada inteira de Schmigadoon.
De
lá pra cá, voltei a ler jornais e redes sociais. Já ouvi o pedido de
sensatez da Janaína Paschoal, e as reações também. Já sei o que o
Alexandre de Moraes disse e já sei o que a Carla Zambelli disse em
resposta. Li até o depoimento político de uma amiga atriz (chateada, de
babydoll) no Instagram. Olhando para o meu rosto no espelho não posso
deixar de notar a volta dos sinais de tolice na curvatura dos lábios e
no embaçamento dos olhos. Até o nariz parece um pouco mais espesso,
indicando claramente uma tacanhice mental brotando de novo de dentro pra
fora.
Sim, voltei a ser um tolo bem-informado. Voltei a ser como todos nós, meus amigos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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