De terceiro colocado na eleição presidencial - posição que os franceses chamam de ‘morto’ -, candidato a primeiro-ministro ganhou o lugar principal. Vilma Gryzinki:
Jean-Luc
Mélenchon quer ser primeiro-ministro, o que criaria um dos mais
desconfortáveis regimes de “coabitação” de todos os tempos e colocaria o
presidente reeleito Emmanuel Macron numa posição simplesmente horrível,
mais ou menos como a da esposa traída que continua a viver sob o mesmo
teto com o marido infiel.
Não
é uma novidade na política francesa, mas para um homem que definiu o
seu próprio estilo de governar como “jupiteriano” significaria uma
derrota insuportável.
O
resultado do primeiro turno das eleições legislativas – um quase
inacreditável empate, de 25,75% para o partido de Macron e a 25,66% para
a frente de Mélenchon – antecipa a perda da maioria parlamentar
absoluta para o presidente, mas o resultado final ainda está em aberto.
Mélenchon
defende todas as propostas tradicionais de esquerda – e mais algumas
francamente delirantes. Quer aumentar o salário mínimo e a base da
aposentadoria, diminuir de 62 para 60 anos a passagem para ela,
nacionalizar estradas e aeroportos, congelar preços, “convocar uma
conferência nacional” para reduzir a jornada de trabalho, recriar a
estabilidade no emprego, despoluir o Mediterrâneo. Ah, sim, e criar
“pelo menos um milhão de empregos graças à bifurcação ecológica e
social”.
Parece
programa de grêmio estudantil, mas é o resultado dos esforços conjuntos
dos partidos de esquerda que seu reuniram na Nova União Popular,
Ecológica e Social, a Nupes. Com a implosão do Partido Socialista, um
dos integrantes da coalizão, a França Insubmissa de Mélenchon passou a
ocupar o centro do campo de esquerda. Outros participantes são o partido
verde e o comunista.
Só
para comparar a força de Mélenchon: Anne Hidalgo, a desastrosa prefeita
de Paris, teve 1,5% dos votos no primeiro turno da eleição
presidencial. Mélenchon teve 22%, o que o deixou a alguns décimos de
ultrapassar Marine Le Pen.
Por
causa desse desempenho, ele virou, aos 70 anos, um terceiro colocado
excepcionalmente forte e o mais consolidado líder de esquerda de um país
onde esse próprio conceito foi inventado.
Em
comparação com antecessores históricos, Mélenchon dá vontade de chorar,
com seu estilo populista, demagógico e histriônico, fora as ideias
jurássicas, dignas de um “Chávez francês”, na definição do ministro da
Economia, Bruno Le Maire.
No
país de Léon Blum, o primeiro judeu a ser primeiro-ministro da França e
criador de reformas como feriados pagos e semana de 40 horas, tendo
sido deportado para a Alemanha durante a guerra, Mélenchon declarou que
seu alter ego britânico, Jeremy Corbyn, foi obrigado a deixar a
liderança do Partido Trabalhista não por dar rédeas livres ao
antissemitismo, mas por causa de uma campanha orquestrada pelo rabino
chefe do reino e “redes pró-Likud”.
Todo mundo sabe o que significa isso.
A
esquerda relevou e a direita tradicional preferiu manter os ataques a
Éric Zemmour, como representante da extrema-direita. Aproveitando a
excepcional condescendência que lhe é reservada, inclusive entre os
meios de comunicação, Mélenchon se descolou do rótulo de
extrema-esquerda.
“Uma
das causas do sucesso de Mélenchon é a complacência com que foi
tratado”, diz Gilles William Goldnadel, autor do autoexplicativo Manual
de Resistência ao Fascismo de Extrema-esquerda.
Mas
o fato é que Mélenchon é hoje o grande líder da esquerda na França.
Durante a campanha para as eleições legislativas, ele ocupou o lugar
central, inclusive na cobertura da imprensa, superando de longe o
destaque habitual dado, contra a vontade, a Marine Le Pen e o espaço
conquistado por Éric Zemmour, quando disparou de desconhecido para ator
político digno de nota, durante a campanha para o primeiro turno
presidencial. \dessa vez, Zemmour sequer conseguiu ser eleito deputado.
O
verdadeiro Mélenchon aflorou quando a polícia, cumprindo mandado
judicial, fez uma busca em sua casa e na sede do partido em 2018.
“Eu sou a República”, gritou ele. “Eu é que sou parlamentar. Vocês são a polícia republicana ou uma gangue? Sabem quem eu sou?”.
O clássico “sabem que eu sou?” define o caráter de um homem em qualquer lugar do planeta.
Comemorando
ontem o resultado, ele apelou para aos eleitores para quem lhe deem a
vitória com que sonha no segundo turno e prometeu: “Dentro de dez dias,
os preços serão congelados e o salário mínimo aumentado para 1 500
euros”.
Macron
não vai dormir tranquilo até o próximo dia 19. Mesmo que não venha a
ter a insuportável coabitação, como os franceses chamam as épocas em que
o presidente é de um partido e o primeiro-ministro de outro, enfrentará
um oposicionista de esquerda fortalecido pelo voto e louco para
infernizar sua vida.

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