Num
fenômeno de amplo espectro, que vai da proteção a drogados a ativistas
judiciais a favor de criminosos, cidades americanas pagam um preço alto.
Vilma Gryzinski:
O
que fazer com drogados terminais ou vítimas de doenças mentais que
acabam nas ruas, levando vidas miseráveis e arredios a ajuda para sair
dessa condição?
É
uma das perguntas mais difíceis de responder e um teste para nossa
humanidade. Todo mundo é humanista até ser intimidado por um pedinte ou
ver sua rua transformada em fossa séptica.
Mas
o fato é que as cenas de degradação que, infelizmente, se tornaram tão
frequentes em centros urbanos brasileiros agora se espalham por um país
rico e desenvolvido como os Estados Unidos.
O
problema, obviamente, tem causas múltiplas, inclusive falhas nas redes
de proteção social. Impossível é deixar de ver que “soluções” como a
liberação das drogas, apresentada por seus defensores como uma saída
mágica, e o ativismo judicial que se propagou pelas máquinas da
administração pública estão contribuindo gravemente para piorá-lo.
Cidades
que eram associadas a tudo de bom que o modo de vida americano produz,
como Los Angeles, São Francisco e Portland, hoje têm áreas intensamente
degradadas.
Portland,
do progressista estado de Oregon, pioneiro na liberação das drogas,
incluindo heroína, uma espécie de crack dos países ricos, teve 1069
mortes do overdose no ano passado, um aumento de 40% em relação a 2020.
O
tráfico sem repressão, o uso irrestrito de drogas e a população de
pessoas sem teto nem esperança produzem o mesmo que qualquer cracolândia
brasileira: cenas deprimentes de viciados completamente atordoados,
ruas fétidas e a sensação de que seus infelizes habitantes estão num
beco sem saída.
Os
republicanos não deixam esquecer que as grandes cidades americanas têm
todas décadas de prefeitos democratas que seguem exatamente o oposto da
“tese das vitrines quebradas” com a qual Rudy Giuliani controlou a
criminalidade na Nova York dos anos oitenta. Segundo ela, até os delitos
mais banais, como quebrar a vitrine de uma das lojinhas típicas dos
bairros americanos mais pobres para roubar bebidas e pequenos objetos,
devem ser investigados e punidos, propagando a percepção de que a lei
está vigorando.
Contra
ela se levantaram os ativistas judiciais para os quais a injustiça
social pune excessivamente os mais pobres e menos brancos. É evidente
que estas camadas são as que mais enchem as cadeias, mas a solução seria
punir menos para não agravar injustiças sistêmicas?
É outra pergunta complicada. A realidade tem mostrado que as teses propugnadas pelos ativistas judiciais não estão funcionando.
O
caso mais conhecido do momento é o de George Gascon, o District
Attorney de Los Angeles, ou chefe da Promotoria ou secretário da
Justiça, um cargo escolhido pelo voto direto da população nos Estados
Unidos.
Tradicionalmente,
era eleito o promotor que prometesse mais dureza no trato com o crime.
As mudanças sociais – e a influência de defensores de causas
progressistas como George Soros – favoreceram a a votação em ativistas
que defendem os criminosos.
Não
é exagero retórico. Imediatamente depois de assumir, Gascon, filho de
imigrantes nascido em Cuba, divulgou nove orientações a seus onze mil
subordinados, incluindo a proibição de agravantes para crimes
particularmente brutais. Um homicídio altamente qualificado, que poderia
render prisão perpétua na Califórnia, passou a ter pena máxima de 25
anos, com possibilidade de redução para 20.
Ainda uma dureza em termos brasileiros, mas particularmente revoltante para familiares de vítimas de crimes hediondos.
Gascon
qualificou a promotoria como uma organização dedicada ao “aprendizado
que acredita na redução do encarceramento”. E provou: criou uma
força-tarefa para a revisão de sentenças de 20 mil condenados.
“Na
visão distorcida de Gascon e seus apoiadores, são os perpetradores que
cometem crimes violentos a quem eles consideram as vítimas”, disse a
Peter Savodnik, do Substack, um dos integrantes da promotoria, John
Lewin. “Eles não fazem distinção entre os indivíduos que cometem a
violência e os indivíduos que a sofrem”.
Nem é preciso dizer que esta visão também se dissemina no Brasil, sob o falso pretexto da justiça social.
Atualmente,
corre um abaixo assinado para fazer o recall de Gascon. Precisa de 566
857 assinaturas até 6 de julho. Já tem mais de 500 mil. Até promotores
de tendência progressista são a favor do recall. Isso num estado em que
existe uma lei, aprovada nas urnas, proibindo que furtos, cheques sem
fundo e receptação no valor de até 950 dólares sejam enquadrados como
crimes.
Em
São Francisco, o chefe da promotoria Chesa Boudin que seguia o mesmo
modelo que Gascon, com o agravante de ser admirador de Hugo Chávez, já
foi tirado por meio do recall.
As
cenas mostradas em câmeras de segurança mostrando a tranquilidade com
que ladrões , certos da impunidade, limpam prateleiras de lojas de
produtos de luxo – claro que a serviço de gangues organizadas – são
impressionantes.
O
aumento da criminalidade, um fenômeno num país onde os índices caiam
sistematicamente desde os anos noventa, é um dos fatores que pode pesar
contra candidatos democratas na eleição de novembro para o Congresso. Em
algumas cidades, os homicídios tiveram um aumento de 25%.
Como
em qualquer país, quem mais sofre com a criminalidade são os mais
pobres, submetidos à lei das gangues e ao temor de ver seus filhos
tragados pela bandidagem.
Ironicamente,
muitos imigrantes clandestinos, especialmente da América Central, vão
para os Estados Unidos em busca de uma vida sem esses riscos.
A
qualidade de vida e a segurança, em grande parte do país, continuam a
ser admiráveis. Mas a degradação de áreas urbanas e a falácia de que
criminosos são as verdadeiras vítimas estão plantando pequenas Honduras
no coração da superpotência americana.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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