O mineral estratégico define movimentos no grande xadrez da corrida pelos recursos que moverão o mundo num futuro que já está aqui. Vilma Gruzinsky:
A
China tem 35% das reservas mundiais de lítio e 93 “giga-fábricas” que
produzem baterias de lítio-íon, o “petróleo do futuro” que alimenta
praticamente tudo, de celulares a notebooks, de câmeras a carros
elétricos. Os Estados Unidos têm quatro dessas fábricas.
Só estes números já dão uma ideia de como a competição por um recurso vital está pendendo para o lado chinês.
A
recente e chocante guinada no Afeganistão impressionou o mundo com a
ascensão avassaladora do Talibã e o vexame da retirada às pressas dos
Estados Unidos, mas o verdadeiro xadrez geopolítico estava com o foco
concentrado no que existe debaixo da terra e não acima dela.
O
Afeganistão é o décimo-sexto país mais pobre do mundo, mas tem reservas
de terras raras avaliadas em 1 trilhão de dólares – um “detalhe” que
certamente não passou despercebido à China.
Estas
reservas incluem possivelmente o maior depósito de lítio do mundo. Para
comparar: o imenso Brasil saltou recentemente de 0,5% para 8% das
reservas mundiais, o que nos deixa em boa posição, mas ainda longe do
pódio. O maior produtor do lítio do mundo é o Chile, também campeão de
outra fera da condutividade, o cobre.
Cultivando
contatos com os ultrafundamentalistas desde que ficou claro que os
Estados Unidos cairiam fora do Afeganistão e os homens de turbante
retomariam o país inteiro, a China ganhou uma posição de incontestável
vantagem estratégica.
Como
os novos talibãs querem fazer negócios, em vez de se dedicarem
exclusivamente à implantação de uma teocracia islamista nos moldes do
século VI, como fizeram da primeira vez que conquistaram o poder, as
portas estão abertas para uma associação mutuamente vantajosa.
Com
o Afeganistão no bolso, a vantagem da China aumenta notavelmente. Tão
carente de vários recursos vitais, a China tem uma prodigiosa riqueza em
matéria de terras raras: 70% da produção global. Fornece 80% das
importações americanas desse recurso estratégico, o que faz de seu
grande adversário um potencial refém – já houve até um precedente, em
2010, quando o Japão foi deixado de castigo, temporariamente, por causa
de um incidente diplomático.
A
corrida pela energia renovável só aumenta o valor estratégico das
terras raras e dos minerais usados para produzir energia. Depois da
China, Brasil e Vietnã empatam em segundo lugar no mundo, com reservas
avaliadas em 22 milhões de toneladas.
Quem
souber aproveitar seus recursos fica bem aparelhado para a corrida
tecnológica – o grafeno já está na linha para substituir o lítio – e um
lugar decente no xadrez estratégico. Quem não souber, fará companhia ao
Afeganistão, um puxadinho atrasado da superpotência chinesa.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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