A redução de recursos para o Ipen compromete a produção de remédios contra o câncer, adverte editorial do Estadão:
Com
a informação de que suspenderá temporariamente a importação de insumos
para a produção de medicamentos utilizados em diagnóstico e tratamento
de câncer por falta de recursos orçamentários, o Instituto de Pesquisas
Energéticas e Nucleares (Ipen) é mais uma vítima da asfixia financeira
que o governo Bolsonaro vem promovendo na área de ciência, pesquisa e
educação desde sua posse.
A
informação foi divulgada pelo Ipen menos de dois meses após dois
acontecimentos lamentáveis. O primeiro foi o colapso da Plataforma
Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), que reúne informações sobre trabalhos realizados por todos os
pesquisadores brasileiros. O segundo acontecimento foi a advertência
feita pela comunidade científica brasileira para o risco de um apagão,
também decorrente de cortes orçamentários, das atividades do Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que atua na área de tecnologias
de exploração espacial e meio ambiente, de desenvolvimento de programas
de previsão meteorológica por meio de satélites e de monitoramento de
queimadas e emissão de alertas climáticos.
No
caso do Ipen, a paralisia de suas atividades e serviços de medicina
nuclear afetará não só a fabricação de remédios contra o câncer, mas,
também, a elaboração de estudos e diagnósticos de diversas outras
doenças, num momento em que o País enfrenta uma das mais graves crises
de saúde pública de sua história. A paralisia também dificultará o
funcionamento de hospitais e clínicas especializadas e causará problemas
em famílias que têm algum de seus membros fazendo quimioterapia.
Segundo previsões da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN), a
suspensão na distribuição dos radiofármacos do Ipen prejudicará cerca de
1,5 milhão de pessoas.
Atualmente,
o órgão produz 25 diferentes radiofármacos, o que corresponde a 85% do
fornecimento nacional. Além disso, os remédios produzidos pelo Ipen
representam cerca de 10% dos medicamentos usados para tratar diversas
doenças graves. “A crise do Ipen causará um apagão no tratamento do
câncer no País”, adverte o presidente da Associação Brasileira para
Desenvolvimento de Atividades Nucleares, Celso Cunha. “O Ipen é produtor
quase exclusivo no Brasil dos isótopos radioativos que são utilizados
na medicina nuclear. Por exemplo, no diagnóstico de cintilografia óssea
para procurar metástase óssea em pacientes com câncer e na cintilografia
miocárdica para avaliar pacientes infartados e com doenças
coronarianas”, afirma o presidente da SBMN, George Coura Filho.
Há
duas semanas, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada publicou um
estudo chamando a atenção para o preço que o País está pagando pelo
desprezo demonstrado pelo governo Bolsonaro à ciência e à pesquisa. O
estudo mostrou que, no ano passado, a União investiu em ciência um
volume de recursos inferior ao que destinou em 2009. Apesar da
importância das pesquisas num período de pandemia, em 2020 foram
repassados R$ 7,2 bilhões, ante R$ 18 bilhões em 2009, em valores
corrigidos pela inflação. Entre outros órgãos, além do Ipen, do Inpe e
do CNPq, essa redução prejudicou o Instituto de Matemática Pura e
Aplicada, o Centro de Pesquisa em Energia e Materiais, a Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Empresa Brasileira de Pesquisa e
Inovação Industrial e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior.
No
campo econômico, a asfixia orçamentária da ciência acarreta perda de
competitividade do País, num momento em que as disputas no âmbito de um
comércio globalizado são cada vez mais acirradas. No campo político, o
menosprezo pela produção do conhecimento dificulta a formação de uma
política científica capaz de subsidiar um projeto de futuro para o País,
ao mesmo tempo que o torna um mero figurante nas discussões nas
relações internacionais e na geopolítica mundial.
Esse é o preço que o Brasil está pagando por ter um governo incapaz de compreender que ciência é progresso e poder.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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