Não há nada que esteja tão ruim que não possa piorar e o presidente Alberto Fernández está aí para dar mais provas disso. Vilma Gryzinski:
“Estamos
atravessando o pior momento desde que começou a pandemia”, anunciou em
tom lúgubre Alberto Fernández ao decretar a volta temporária da
“quareterna”, nove dias de confinamento, que começaram no sábado e vão
até o próximo fim de semana.
Confinamento
mesmo: os argentinos só poderão circular pelas “imediações de seus
domicílios”. Quem foi passar o fim de semana fora, não pode voltar para
casa antes do fim das restrições.
É
um ato quase de desespero diante de um vírus que não só não recua, como
vai ficando pior ainda, a ponto de ter colocado a Argentina numa das
posições dianteiras do pior de todos os recordes, com 1.617 mortes por
milhão de habitantes.
Os
novos casos superaram a marca dos 40 mil por dia e os problemas são os
mesmos vistos recentemente no Brasil: a rede hospital simplesmente não
dá conta.
Se
a situação sanitária tem pontos semelhantes, a econômica não se
compara: a Argentina está numa encrenca muito maior e os instintos do
governo peronista apontam para um agravamento de consequências
imprevisíveis.
Foi
com base nesses instintos que Fernández decretou no começo da semana
passada uma intervenção quase inacreditável: a suspensão das exportações
de carne por trinta dias. Os produtores responderam com uma greve de
uma semana.
É
óbvio que, apesar dos desvios ideológicos, existem economistas
qualificados a serviço do governo argentino e o ministro Martín Guzmán é
um operador de alta performance – mas não faz milagres.
Nem
com a soja, altamente valorizada, trazendo uma chuva de dólares para os
cofres públicos é possível consertar um estrago como a suspensão das
exportações de carne.
Circunstancialmente
vantajosa para os produtores brasileiros, embora negativa no contexto
do Mercosul, a suspensão foi decretada porque o preço da carne estava
subindo no mercado interno, movido a uma inflação que passa dos 46% nos
últimos doze meses e ao novo boom das commodities.
O
ciclo autodestrutivo é conhecido: a inflação sobe porque o governo
gasta o que não tem e imprime dinheiro e um governo não confiável que
despeja dinheiro na praça provoca mais aumento de preços. Pode terminar
laçando boi no pasto, como no clássico caso brasileiro.
Na
Argentina, em lugar dos bois inutilmente caçados na época do
tabelamento de preços, se diz que um presidente pode “terminar como
Fernando De La Rúa”, o presidente que renunciou e saiu de helicóptero da
Casa Rosada, temendo a fúria do povo por causa da hiperinflação.
As
exportações de carne respondem por 10% do comércio externo argentino,
apesar da perda de mercados importantes como o da Alemanha, alienado por
uma intervenção similar, em 2006.
Em
janeiro passado, o governo já havia feito coisa semelhante, proibindo
por trinta dias as exportações de milho. Voltou atrás diante da reação
dos produtores.
“A
Argentina se salva com uma boa safra. A velha frase que descrevia a
dependência do país de seu setor primário hoje não vale mais”, escreveu
no Infobae o economista Pablo Wende.
“Os
altos preços da soja e também do milho permitirão ao governo ganhar
tempo. Mas resgatar a economia da decadência, do aumento da pobreza, da
falta de investimentos e de uma elevada desconfiança já não é possível
nem com uma safra recorde”.
É praticamente um réquiem.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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