Crônica de Paulo Polzonoff, via Gazeta, sobre essas duas figuras repulsivas (pelo menos para este blogueiro)
A
Associação Brasileira dos Vagabundos (Abrava), entidade que engloba a
Federação Nacional dos Vagabundos (Fenavaga) e a Central Única dos
Vagabundos (CUVA), decidiu entrar com ação no Supremo Tribunal Federal
contra o senador Flávio Bolsonaro. Tudo porque ontem (12), durante um
bate-boca na CPI da Covid, o Primogênito Presidencial chamou o senador
Renan Calheiros de "vagabundo".
“Isso
é um absurdo! Nós, vagabundos oficinais, jamais aceitaríamos alguém
como Renan Calheiros em nossos quadros novamente”, desabafou José D.,
presidente da Abrava, intelequitual e açougueiro nas horas vagas. “Para
tudo há limite. A Abrava é uma entidade que luta pela preservação da
vagabundagem-arte, vagabundagem-raiz, vagabundagem de várzea. Não
admitimos que associem nosso nome a um vagabundo qualquer!”, completou.
A
ação deve ser protocolada ainda hoje, depois que os membros mais
experientes da confraria concluírem o ritual diário da cerveja, da
cacheta e da sinuquinha. Para poupar esforços, os advogados da Abrava
pretendem copiar e colar partes da ação movida pela Confraria dos
Trocadilheiros do Carilho contra todos os jornalistas, cronistas e
tuiteiros que se insistem em cometer o crime de lesa-trocadilho e se
referir a Renan como “Canalheiro”.
Preguiça & vadiagem & brahma
A
fala do Zero Um gerou revolta entre os muitos membros da Abrava que
assistiam obcecados à sessão da CPI da Covid. “Eu, que tava assim meio
dormindinho, levei um susto. Até demorei um pouco para entender. Renan
Calheiros vagabundo? De jeito nenhum! Todo mundo sabe que ele foi
expulso da agremiação ainda criança”, conta José D.
O
caso ocorreu no fim da década de 1960, no auge do Movimento Vagabundo
Brasileiro (MVB) e antes de os membros mais afoitos se esquecerem dos
preceitos que norteiam a filosofia vagabundiana (“preguiça &
vadiagem & brahma”), se envolverem com a luta armada contra a
Ditadura e fundarem o PT.
Naquela
época, apareceu na sede da Federação Nacional dos Vagabundos, seccional
Maceió, um jovem mirradinho, de sorriso cínico e fala cativante. “Nós o
acolhemos como a um filho”, lembra José D. “Ele era simplesmente...
natural, entende? Ele exalava aquela vagabundagem marota e ingênua.
Todos viam nele um grande vagabundo em potencial. Mas daí...”, José D.
deixou as reticências no ar enquanto acendia um cigarro e se afundava
numa poltrona-cama.
Mas
daí (resumindo o que me contou José D. entre bocejos), o
menino-prodígio da vagabundagem começou a andar com os maus elementos da
política local, que lhe ofereceram poder, prestígio, dinheiro, implante
capilar, amante – o pacote todo. “Isso vai contra tudo aquilo em que
nós, vagabundos assumidos, acreditamos. Que é basicamente uma vida de
sombra e água fresca. Vagabundagem e política não combinam!”, discursou
José D., já visivelmente cansado da conversa e fazendo força para evocar
o ponto de exclamação.
Nunca se sabe...
Enquanto
José D. dormia seu sono de beleza, me esgueirei até a Biblioteca
Secreta da Abrava e, entre exemplares da revista Mad e do Diário
Oficial, encontrei um volume encadernado dos Anais da Vagabundagem. Lá
constava o Ato de Expulsão do menino que até então se fazia chamar de
José Vasconcelos. Uma pena que o que li seja, evidentemente,
impublicável nessa época de judicialização de tudo.
Encontrei
ainda documentos antiquíssimos, reunidos numa pasta intitulada
“História da Vagabundagem no Brasil”. Você sabia que os primeiros
vagabundos chegaram ao Brasil ainda na frota de Pedro Álvares Cabral?
Nem eu.
Quando
dei por mim, José D. estava na porta da biblioteca, batendo o pezinho e
fazendo tsc, tsc, tsc. Achei que fosse me mandar embora, mas em vez
disso ele me convidou para um campeonato de truco que começaria dali a
cinco minutos. Um pouco arrependido por não ter aprendido a jogar truco
nas aulas de Vagabundagem Avançada da faculdade, pedi desculpas e me
despedi.
“Só
tem um problema com essa ação”, me disse José D. às portas da sede da
Abrava. Fiquei esperando que ele completasse a informação, mas o
silêncio perdurou mais do que o necessário. Percebi, então, que José D.
piscava maliciosamente, me pedindo um caraminguá para que concluísse a
entrevista e este texto.
Dei
a ele duas notas de dez, pelas quais ouvi que, infelizmente, nenhum
vagabundo tinha esperança de que a ação fosse acolhida pelo STF. “É que,
por fazerem parte dos nossos quadros, os ministros terão de se
recusar”, explicou. Mas nunca se sabe.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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