Dentro e fora dos tribunais, o que se passa é literalmente intolerável. Antes, ser português era um acaso. Hoje, é uma desgraça. Se não nos mexermos, amanhã será uma memória. Via Observador, a crônica semanal de Alberto Gonçalves, mencionando o "eng." Sócrates, o Lula de Portugal:
Ontem,
o advogado de defesa, perdão, um juiz chamado Rosa desempenhou com
gabarito a função para que fora escolhido por sorteio isento e repetido:
ilibar o “eng.” Sócrates, o sr. Salgado e restante quadrilha dos crimes
de que estavam acusados. O pobre magistrado é apenas a figura
imprescindível no lugar inevitável: o trabalho é sujo, a roçar o imundo,
mas alguém tinha de o fazer. Pelos vistos, os únicos potenciais
criminosos desta história são Carlos Alexandre e Rosário Teixeira, dois
biltres que pagarão pela ousadia de engavetar em Évora o menino que
sonhava com ventoinhas.
Aquilo
teve a sua piada. Onde havia matéria para acusação, havia
irregularidades processuais. Onde não havia irregularidades, não havia
provas. Onde havia provas, não havia obtenção válida das ditas. Onde
havia provas utilizáveis, não havia as suficientes para culpar ninguém.
Onde havia provas suficientes, havia motivo para prescrição. Onde não
havia prescrição, não havia IRS. Etc. Na verdade, o interminável sermão
do juiz aos patos que ansiavam por um vislumbre de decência podia
resumir-se em segundos. Um “Ide em paz, meus filhos” bastava.
A
pouca-vergonha não me espantou. Espantou-me ver muita gente espantada,
não exactamente com o desfecho mas com a franqueza do mesmo.
Aparentemente, mesmo os pessimistas esperavam maior subtileza no
processo de beatificação do “eng.” Sócrates: de alguma forma, o juiz
tentaria disfarçar. Sucede que o juiz só precisaria de subtilezas ou
disfarces se, conforme tantos decretaram, a sua longuíssima leitura
representasse um golpe definitivo na Justiça, na democracia e no regime.
Peço desculpa por notar que não representou nada disso.
O
extraordinário espectáculo de sexta-feira à tarde apenas foi possível
na medida em que, na quinta-feira, na quarta, na terça e há já algum
tempo, a Justiça está nas mãos do PS, a democracia cedeu aos avanços do
PS no aparelho de Estado e na própria sociedade, e o regime deixou de
ser o que era para se transformar numa farsa digna do 3º ou do 4º
mundos, devidamente coordenada pelo PS e por criaturas que, embora não
oficialmente ungidas pela militância no Rato, mantêm com o PS uma
interessante simbiose. Recordem a recente e pedagógica frase do
inquilino de Belém, alegado constitucionalista: é o direito que serve a
política, e não a política que serve o direito. O que aconteceu não
promove a pocilga em que sobrevivemos: a pocilga é condição prévia, e
indispensável, ao que aconteceu.
Desde
finais de 2015, ou do dia em que o prof. Cavaco se achou forçado a
aceitar a frente de esquerda do dr. Costa, que é evidente que quase
todos os caminhos do país vão dar a Caracas. O projecto socialista rumo a
um poder tão absoluto quanto a Europa permitisse talvez tenha começado
com Guterres, e de certeza reforçou-se na vigência do mestrando da
Sorbonne. Porém, é com o dr. Costa que o projecto acelera de modo
dramático – porque esse era o desejo dele e porque a conquista de
sucessivos postos decisivos facilita, por falta de obstáculos, a
conquista dos poucos que sobram. O regabofe autocrático a pretexto da
Covid, e a coberto de uma UE em farrapos, limitou-se a limar arestas e a
testar o grau de submissão. E se a submissão não é completa, anda lá
perto.
Por
paradoxal que pareça, nenhuma nação democrática concederia à decisão do
juiz o que o juiz concedeu ao “eng.” Sócrates: impunidade. Nos EUA ou
na Inglaterra, em Itália ou na Alemanha, uma impostura deste calibre
seria acolhida com pandemónio nas ruas. Aqui, sem que uma só alminha
tenha dúvidas sobre os procedimentos éticos do autor de “A Confiança no
Mundo”, há resmungos e anedotas nas salas de estar e nas “redes
sociais”. E só, que amanhã é outro dia e há que assegurar que a
banditagem realmente perigosa não frequenta esplanadas sem máscara. A
decisão judicial não caiu do céu: o “contexto” permite-a e torna-a
segura. A este respeito, os habituais defensores de baderna pública vão
falar em prova de maturidade. E eu, que aprecio o sossego, lamento a
resignação que explica a miséria em que estamos.
Não
gosto, Deus me livre, de arruaças e destruição. Mas começo a gostar
ainda menos desta submissão mansa e vexante a desqualificados que podem
tudo, inclusive escarnecer de nós. É óbvio que os desqualificados não se
esgotam nos nomes reabilitados por um juiz com ar de quem levou porrada
em moço, nem o vexame se esgota na justiça. Se querem erguer o “caso”
Sócrates à proverbial gota de água, estejam à vontade. Convém é não
esquecer que as demais gotas também ajudaram a encher o copo. Dentro e
fora dos tribunais, o que se passa é literalmente intolerável. Antes,
ser português era um acaso. Hoje, é uma desgraça. Se não nos mexermos,
amanhã será uma memória.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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