O Hezbollah é um híbrido de partido político, organização filantrópica, exército irregular e grupo terrorista. Leonardo Coutinho para a Gazeta do Povo:
Imagine
a situação em que o seu vizinho é extremamente generoso e comprometido
com a comunidade. Entre as várias bondades, ele ajuda os velhinhos a
atravessar a rua. Faz compras para eles e as desinfeta para evitar que
eles adoeçam e morram de Covid-19. Um sujeito tão bacana, mas tão
bacana, que o fato de ele circular com um carro roubado, com placa
clonada, e estocar quantidades industriais de cocaína no porão de sua
casa não importa. Afinal, ele é tão bondoso que a droga entre e sai de
sua residência sem que um grama fique na vizinhança ameaçando a
segurança, a saúde e a integridade das pessoas que ele ajuda. Não se
trata de um breve perfil de chefes de morro do Rio de Janeiro ou de
qualquer outra favela onde essa ilusão prospera. Estou falando do
Hezbollah – a milícia xiita que nasceu no sul do Líbano e virou uma das
ferramentas de exportação de instabilidade do Oriente Médio a América
Latina.
O
Hezbollah é um híbrido de partido político, organização filantrópica,
exército irregular e grupo terrorista. Seus operadores estão por trás de
uma série de atentados, entre os quais o que mandou pelos ares a
Associação Mutual Israelita de Buenos Aires (Amia), em 1994. Até os
ataques de 11 de setembro de 2001, a explosão de um carro bomba em
Buenos Aires foi o maior ataque terrorista perpetrado por um grupo
radical islâmico nas Américas.
Mas
o mesmo Hezbollah que explode gente também cuida de órfãos e viúvas.
Também mantêm grupo de escoteiros, pagam cestas básicas e, acredite, até
bolsas de estudos para seus eleitos colarem em seus currículos selos de
universidades importantes, como Harvard. Até Harvard.
O
Hezbollah reúne uma variedade de perfis de gente disposta a morrer em
nome de Deus e pela crença em um paraíso de luxurias no qual, segundo
algumas interpretações teológicas, os eleitos são beneficiados com
ereção eterna e seis dúzias de mulheres, sempre dispostas ao sexo. Como
se não bastasse, todas elas têm a propriedade de regenerar o hímen
tornando-se virgens perpétuas. O paraíso almejado por eles inclui,
também, rios de água cristalina, leite e mel em abundância. As
escrituras não incluem mais detalhes, mas imagino que o combo venha
acompanhado de muita música, churrasco e outros prazeres. Nada a ver com
a modorra da vida eterna na visão Ocidental, convenhamos.
Mas,
enfim, enquanto a promessa divina não se cumpre, o Hezbollah tem uma
amostra de paraíso em plena América do Sul. Sendo que a porção mais
paradisíaca do céu latino-americano está no Brasil.
Desde
a sua fundação nos anos de 1980, os militantes do Hezbollah vivem pelos
países da região quase sem serem incomodados. Eles se acomodaram, na
tentativa de serem invisíveis, entre os compatriotas que já estavam
instalados décadas antes no Brasil, onde construíram comunidades
harmônicas e integradas com a sociedade brasileira. Silenciosamente, os
radicais montaram suas redes de contrabando, lavagem de dinheiro,
tráfico de cocaína para o financiamento das atividades do grupo lá no
Líbano.
As
investigações do já citado atentado contra a Amia identificaram que o
financiamento da operação veio da paranaense Foz do Iguaçu, cidade que
tem uma das mais pujantes e vibrantes comunidades libanesas no Ocidente.
Justamente por ser um lugar de gente pacífica, trabalhadora e
integrada, os criminosos do Hezbollah tentam se mimetizar usando este
ambiente de integração como escudo para suas ações ilícitas.
A
Justiça do Paraguai devolverá para o Brasil um dos maiores nomes do
Hezbollah na América Latina. Assad Ahmad Barakat, reconhecido operador
financeiro e logístico do grupo terrorista na região será deportado
depois de ter cumprido sua pena no país vizinho. Ele escolheu o Brasil
como destino. Afinal, quem não quer ir para o paraíso?
Barakat
faz parte de uma lista de membros do grupo terrorista na região. Ele
atua, segundo o governo americano, como um operador financeiro do
Hezbollah no Brasil. Em 2011, com o apoio do ex-delegado federal e então
deputado pelo PCdoB, Protógenes Queiroz, Barakat vendeu no Congresso
brasileiro a tese de que as investigações sobre as ações do Hezbollah
eram islamofobia. Uma guinada para quem dez anos antes, com total crença
na impunidade, tenha reconhecido que enviava sim dinheiro para os
terroristas libaneses.
São
Paulo e Curitiba, cidade sede desta Gazeta do Povo, também são alvos
desta infiltração do Hezbollah. Até 2011, o irmão do arquiteto do
atentado conta a Amia vivia tranquilamente na região central da capital
paranaense. O iraniano chegou a receber secretamente a visita do irmão
terrorista, que só não foi preso porque o governo Lula, por alguma razão
desconhecida, demorou a processar as informações da Polícia Federal.
Mohsen Rabbani, como se chama o terrorista buscado pela Interpol, fugiu
impunemente valendo-se de documentos falsos oferecidos por Hugo Chávez.
O
retorno de Barakat ao Brasil é o sintoma de que enquanto as autoridades
seguirem negando-se a tratar o Hezbollah como exatamente o Hezbollah é,
seus operadores seguirão fazendo do país um autêntico paraíso na terra.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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