Na maior parte da história, as pessoas viveram sentindo o sol no lombo e sem ter a menor ideia da mais recente estupidez dita nos palácios. A crônica diária de Paulo Polzonoff Jr. na Gazeta do Povo:
Passei
o dia inteiro andando pela cidade. Só observando. Sem fazer qualquer
anotação na cadernetinha amarfanhada nem no grupo “Minhas Ideias” do
WhatsApp (um membro). Só olhando e ouvindo com o ouvido bom que me
resta. E ouvindo as ondas e sentindo o cheiro de maresia (não é o que
você está pensando). E parando aqui e ali para reclamar do calor.
Em
resumo, me deleitando com a tal realidade. Aquela que ainda se pode
considerar “palpável” sem ser acusado de assédio. A realidade das
pessoas que passeiam com os cães, dos atletas sempre apressados, das
crianças com seu ar precocemente cansado, dos velhos que não sabem se é
por aqui ou ali e dos seguranças sempre circunspectos e graves como
antes convinha aos poetas e hoje lhes convém.
Essa
é a realidade dos sentidos. Meus pés latejam, meus olhos clamam por
óculos de sol, meu ouvido bom ouve, não acredita, ouve de novo e pensa
“ah, tá”, meu nariz reclama do cigarro que alguém fuma achando que não
atrapalha ninguém, minha boca exige uma cerveja bem gelada nesse calor. É
a realidade que dá para “esfregar na cara”. Tá vendo esse arranhão
aqui? Caí de bicicleta. Caí mesmo.
Como
toda realidade que se preze, ela também tem um adjetivo que insiste em
acompanhá-la a tiracolo: inegável. Posso fechar os olhos, mas
continuarei ouvindo. Posso fechar os olhos e tampar os ouvidos, mas
continuarei sentindo o cheiro do cigarro alheio. Posso, de alguma forma
mágica e certamente cômica, fechar olhos, ouvidos, nariz, boca e ficar
paradinho num canto. Ainda assim sentirei meus pés latejando e o calor
em minha calva.
Ao
chegar em casa, fui logo mergulhar os pés na salmoura e pegar uma
cerveja gelada (não tinha). Me recostei no sofá e, ao esticar os braços
numa espreguiçada daquelas, quase derrubei o celular. Peguei-o assim de
supetão e o segurei como um bebê que precisa muito de um chocalho, mas
não sabe. E o pus diante do rosto, sendo imediatamente sugado para
aquela outra realidade.
A
realidade dos adolescentes de trinta anos que sabem o que é melhor para
os outros, das certezas, dos xingamentos, das hashtags que mudarão o
mundo, da análise exaustiva da mais recente bobagem presidencial, das
conspirações, do medo, do “eu tenho selo azul, você não tem”, das
críticas sociais contundentes, do antagonismo atávico.
Essa
é a realidade virtual, incapaz de atiçar os sentidos (comumente
entretidos com alguma outra coisa), mas muito eficiente em apelar ao
chefão deles, o cérebro. Que, a partir dela, vai pegando aqui e ali umas
matérias-primas que estavam esquecidas (um livro que você leu há muito
tempo e do qual só tem uma vaga ideia, a lembrança do saldo bancário
naquele momento e um ressentimentozinho para dar liga) e molda uma
imagem do mundo que ora o torna mais agradável e ora o torna
simplesmente inabitável, hashtag vemmeteoro.
Ao
contrário de sua prima, a Inegável, é plenamente possível se abster da
realidade virtual. Na verdade, foi assim que os seres humanos viveram na
maior parte da sua história: sentindo o sol a lhe queimar o lombo e sem
ter a menor ideia da mais recente estupidez dita (ou pensada) nos
corredores dos palácios. Quase sendo atropelado por um carro sem pensar
nas estatísticas de mortes por atropelamento. Dando esmola a um mendigo
só porque achou que era o certo a fazer, sem teoria nem criar vakinha
para demonstrar virtude.
E,
no choque de descobrir que essas duas realidades não se misturam,
percebi que juntas elas compunham uma terceira, que é justamente esse
monstrengo que temos diante de nós hoje em dia.
A
realidade na qual as pessoas que passeiam os cães são opressoras das
que não têm cãozinho para passear; na qual os atletas correm não por
vaidade, e sim para salvar as crianças das drogas ou dar a primeira casa
própria para a minha mãezinha; na qual as crianças o abordam no meio de
uma praça para perguntar “qual sua opinião sobre o aborto?”; na qual os
velhos só têm a ensinar a esperteza de fazer concurso público e hoje
viver de sombra e água fresca graças à polpuda aposentadoria; na qual os
seguranças, sempre de olho nos perigosos arredores, discutem quem votou
no candidato pior e por quê.
Essa
é a realidade que se diz racional e científica e que lhe promete uma
espécie de paraíso na Terra. Mas que se borra de medo de ver a Inegável
acabar.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário