Eleições recém-realizadas na América Latina mostram continente polarizado e sem espaço para plataformas centristas do tipo que parte da elite pensante no Brasil quer construir para 2022, como alternativa a Bolsonaro e Lula. Fernando Dantas para o Estadão:
Enquanto
parte da elite bem pensante no Brasil dá tratos à bola buscando um
candidato alternativo de centro à temida polarização entre Bolsonaro e
Lula em 2022, a realidade nua e crua emite sinais de que a sedução dos
extremismos está forte como nunca na América Latina.
No
Peru, de forma surpreendente, Pedro Castillo, candidato de
extrema-esquerda à presidência, já é dado como certo na disputa de
segundo turno.
Castillo
é a favor de nacionalização em setores como mineração, petróleo, gás e
telecomunicações, pretende passar uma lei para controlar a mídia e
ameaçou fechar o Congresso se este não aceitar uma Assembleia
Constituinte – para substituir a Constituição de 1993, que se seguiu ao
“autogolpe” de Alberto Fujimori em 1992.
Curiosamente,
Castillo, professor de 51 anos que liderou uma greve nacional de três
meses em 2017 para aumentar salários dos mestres e eliminar as
avaliações de desempenho, tem uma pauta conservadora em costumes: contra
o foco na igualdade de gênero na educação e o casamento de pessoas do
mesmo sexo.
A
contagem rápida do Instituto Ipsos projeta que Castillo (18,1% dos
votos projetados no primeiro turno) vai disputar o segundo turno com
Keiko Fujimori (14,5%). Keiko é candidata de direita com grande
rejeição, já esteve em detenção preventiva em processo de corrupção e é
associada ao seu polêmico pai (que foi sentenciado a 25 anos em 2009 por
corrupção e assassinatos políticos, cumpriu 12, foi perdoado, teve o
perdão anulado, e voltou à cadeia em 2019).
Outros
candidatos que se destacaram no primeiro turno fragmentado do Peru
foram Hernando de Soto, apóstolo do liberalismo econômico (que também
era visto esta manhã como possível contendor de Castillo no segundo
turno) e Rafael Lopez Aliaga, tido como de extrema-direita.
Já
no Equador, a vitória, definida nesse fim de semana, do ex-banqueiro
Guillermo Lasso, político conservador, na eleição para presidente também
compõe um cenário de país altamente polarizado.
Muitos
analistas interpretam a eleição equatoriana como uma luta entre o
“correísmo” (referente ao ex-presidente Rafael Correa, que governou o
país de 2007 a 2017 e era alinhado ao chavismo) e o “anticorreísmo”.
André Arauz, candidato de Correa, foi derrotado, mas as forças
correístas têm ampla maioria no Congresso, o que sinaliza impasses e
paralisia.
Cada
país é um país, mas boa parte da América Latina compartilha ciclos
político-econômicos com razoável grau de paralelismo nas últimas
décadas.
O
boom de commodities da primeira década deste século fez a fortuna e o
sucesso de vários governantes na região – alguns mais e outros menos
populistas. O fim do boom, no início da segunda década do século, e as
fortes crises econômicas e políticas subsequentes foram uma espécie de
bomba arrasa-quarteirão socioeconômica e político-partidária em vários
daqueles países.
Presidentes
foram depostos e presos em escândalos de corrupção, grandes
manifestações populares e intensas turbulências sociais se disseminaram e
arcabouços partidários foram chacoalhados, quando não ruíram. A eleição
no Peru, incrivelmente fragmentada, está ligada a esse terremoto.
Como
a história ensina, o tumulto econômico, político e social intensificou a
polarização e os extremismos. A eleição de Bolsonaro é um claro exemplo
dessa tendência.
Não há por enquanto, no Brasil, nenhum sinal claro de surgimento de uma alternativa moderada e centrista para 2022.
Mas
não falta “wishful thinking” em setores da elite que sonham em tirar da
cartola um candidato “socioliberal” para 2022, combinando uma agenda
econômica pró-mercado com pauta progressista de costumes e valores.
Exatamente o contrário da plataforma vitoriosa de Castillo no primeiro
turno no Peru.
Como
observou o analista político Ricardo Ribeiro, da consultoria MCM, em
relatório recém-divulgado, “a terceira via [no Brasil] continua
‘despersonificada’”.
Ribeiro
aponta que a última pesquisa XP-IPESPE dá, no primeiro turno de 2022,
Lula com 29% e Bolsonaro com 28%. Ciro Gomes e Sergio Moro ficam muito
atrás, com 9%, e Huck, Dória e Mandetta não vão além de 5%.
É
verdade que tanto Lula como Bolsonaro têm o chamado “recall” eleitoral e
que pesquisas um ano e meio antes da eleição dizem pouco. Ainda assim,
não se fareja no ar nenhum indício de que as grandes correntes do
eleitorado brasileiro – assim como do latino-americano – estejam em
busca de reformas liberais na economia e abertura nos costumes.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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